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Cristãos de Facebook

30/10/2013

cristaos_martires_coliseu_leoesEstava lendo o livro “Vivendo com Jesus” da autora espiritual Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Franco, e veio na minha mente a dificuldade que os primeiros cristãos enfrentaram ao trabalharem para o Cristo. Imediatamente pensei nas questões trabalhistas da atualidade e comecei a pensar: por que os primeiros cristãos sofreram tanto e tão superlativamente ao trabalharem para Jesus, se o próprio mercado de trabalho protege o bem-estar do trabalhador? E como podemos colocar isso na nossa vida presente, nos dias atuais com tecnologia e comunicação virtual? Tive que parar e vir escrever as reflexões que vieram rápidas na minha mente, antes que elas se perdessem.

A resposta parece meio óbvia, mas muitos de nós esquecemos constantemente e estamos sempre nos sentindo “abusados” por Jesus quando algum trabalho que façamos para Ele de ajuda à necessitados, começa a nos exigir mais que nosso tempo livre de lazer. Geralmente, quando nos achamos “iluminados”, trocamos o lazer (a novela, o cinema, o teatro, etc) por algum trabalho na organização religiosa à qual pertençamos. Alguns de nós, nem mesmo precisamos nos deslocar à algum lugar, “trabalhamos” pelo Cristo em casa mesmo, indo aos grupos de debates do facebook ou nas listas de discussão do yahoo grupos, e então nos sentimos plenos de “nós mesmos”, por sermos tão “caridosos” ao abrirmos mão da novela, para ficarmos debatendo temas religiosos com outras pessoas pela internet, no aconchego da nossa casa.

Um belo dia, porém, o marido/esposa ou os filhos e amigos começam a “sentir nossa falta”, porque afinal, em vez de estarmos lá no sofá assistindo novela juntos, ou estarmos lá falando mal do vizinho com a amiga, estamos indo à um grupo de ajuda à necessitados e até mesmo doando o mínimo no aconchego do lar pela internet mesmo. E eles reclamam. E o tempo para família e vida social começa a ficar um pouco menor, e eles reclamam mais a nossa presença, chamam-nos irresponsáveis, dizem que se estamos na terra, temos que cuidar dos assuntos da terra e deixar que os assuntos do céu fiquem com os santos/anjos/espíritos, que o problema dos outros não é da nossa conta, que cada qual que carregue sua cruz. E nós que já estávamos mesmo cansados de tanto trabalharmos “de graça”, gastando o tempo da nossa família/amigos/vida pessoal com pessoas cheias de problemas e às vezes até desagradáveis, que não tinham nada a ver com nossa vida ou se tinham, estavam abusando da amizade, acabamos por ceder e abandonar tudo pra seguirmos nossa vida comum, nos sentindo abusados pelo Senhor e Seus necessitados.

Afinal, pensamos, nas Leis Trabalhistas que regem o país, dizem que o trabalho deve fazer bem ao trabalhador, se ele é abusivo, pode até se enquadrar em Assédio Moral, e definitivamente aquele trabalho assistencial não estava fazendo bem ao convívio familiar, à nós mesmos e ao ambiente particular à nossa volta. Sentimos, então (mas sem expressar, porque não temos coragem de assumir isso nem para nós mesmos) que o Cristo está praticando assédio moral conosco e abandonamos Sua vinha. Obviamente continuamos nos dizendo cristãos, trabalhadores da última hora, de vez em quando pegamos o celular com acesso à internet e enquanto estamos utilizando o toialete, digitamos um texto falando sobre situações da nossa vida, muito bem escrito sempre, com palavras rebuscadas, para colocarmos nos facebook ou blog, ou onde seja, comparando nossas vidas com passagens de Jesus e dizendo o quanto O seguimos, ou o quanto tentamos segui-Lo sem conseguirmos, porque também temos que ser modestos para disfarçar nosso orgulho. Dalí à algumas horas entramos outra vez rapidinho para vermos quantas curtidas e comentários tivemos, quantos aplausos para nossa alma iluminada e nossas palavras tão bonitas. Nossa auto-estima fica elevada, e sentimos que agora sim estamos “fazendo a coisa certa”, porque as pessoas estão nos tratando com respeito, estão nos admirando, estão alí todo dia para curtir nossas publicações, ao mesmo tempo que estamos com tempo para cuidarmos do nosso pequeno núcleo familiar, para ouvirmos música, lermos um livro, vermos um filme, conversarmos com os amigos, debatermos assuntos de nosso interesse particular, etc. Finalmente, depois de tanto sofrimento vão naqueles trabalhos assistenciais que nos sugavam todo o tempo livre e as energias, estamos nos sentindo plenos e felizes, afinal, estamos trabalhando ativamente pelos nossos interesses particulares e usando o tempo do banheiro para evangelizar as pessoas com passagens da nossa vida cristã (que claro, é um exemplo e deve ser sempre exposta ao mundo para ajudar as pessoas).

Nesse momento, precisaríamos realmente sairmos da letargia que se encontra nosso espírito. Nossa perda é quase total… Pensamos então nos primeiros cristãos que sofreram todo tipo de abuso físico, moral, emocional e psicológico para trabalharem na vinha de Jesus. Se pensamos que nossa esmola ao Cristo é abuso, imaginemos então o que não poderiam dizer Pedro que foi crucificado, Paulo que sofreu todo tipo de sofrimento (literalmente apedrejado muitas vezes, abandonado por todos que amava, tido como louco pela família, tratado como lixo humano pela sociedade), Bartolomeu que foi esfolado vivo, muitos outros que foram tochas humanas em orgias, alimento para leões, que sofreram todo tipo de dificuldade para que o evangelho chegasse vivo até nós hoje, e nos beneficiasse ao longo dos séculos nas nossas muitas vidas…

Podemos pensar nos novos cristãos, se ao pensarmos nos primeiros, ficar muito difícil por começarmos a justificar questões sociais da época em que eles viveram. Pensemos então em trabalhadores como Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, a dona Maria que ninguém conhece, mas que cuida de uma casa para crianças com problemas mentais, tendo-as todas como seus filhos amados, ou o senhor José anônimo, pai de 7 filhos, que além de cuidar da esposa, dos filhos, de trabalhar para sustentá-los, ainda preside uma instituição religiosa, participando de todas as atividades assistenciais e de esclarecimento à encarnados e desencarnados. Sua esposa e filhos, no início reclamaram, mas a força e a determinação do seu exemplo na prática do bem e seu amor à Jesus e ao próximo, acabou por arrastar toda a família para o trabalho assistencial junto com ele.

O trabalho para Mamon realmente precisa nos fazer sentir bem como pessoas materiais, porque ele visa justamente o retorno financeiro e material. Se o trabalho físico, remunerado e com fins lucrativos não estiver fazendo bem, não estiver nos dando lucro e não estiver zelando pela sustentação da nossa família, tem alguma coisa errada, é fato. Mas o trabalho para o Cristo é Caridade, é doação, não temos que receber nada em troca além da satisfação de servir, além de benesses puramente espirituais, e ainda estaremos no lucro, porque na verdade estamos trabalhando para quitar dívidas, e mesmo assim a misericórdia de Deus ainda nos beneficia com a paz de espírito, algo que não tem sequer preço de tão valioso que é! Não temos que receber nada dos necessitados (e aqui falamos não só de matéria, mas de emocional também) e nem temos que receber nada do nosso Chefe, embora Ele sempre nos dê, sempre nos presenteie, sempre nos encha de bônus imerecidos, de assistência e amor incondicional!

Hoje o Cristo não nos pede mais o sacrifício das torturas físicas, mas ainda necessita de alguns sacrifícios sim, sobretudo do sacrifício que é para nós abrirmos mão do nosso ego e dos nossos interesses privados, para doarmos um pouco da nossa vida para Ele e para aqueles que Ele trás à nós necessitando de alguma ajuda. Em alguns momentos com certeza vai ser difícil, porque inimigos do bem encontramos em toda parte, e alguns deles são realmente ferozes e poderosos, conseguem mesmo nos desequilibrar e nos derrubar, mas pensemos naqueles cristãos da primeira e da segunda hora que sofreram muito mais e enfrentaram as feras de ontem para que hoje a mensagem evangélica pudesse estar à nosso dispor. Eles próprios continuam trabalhando na vinha e nos pedem ajuda… Não podemos negar com a desculpa de termos uma vida particular para cuidar. Não podemos ser tão fracos e covardes para praticar o bem, porque certamente no passado, em vidas recuadas, éramos bastante firmes, fortes e corajosos para praticar o mal. Temos que ter aquela mesma determinação que tínhamos no passado quando fazíamos o próximo sofrer, ao trabalharmos hoje para o Cristo e fazermos o bem, aliviando as dores de quem sofre. Temos que suportar espinhos de todas as matizes (dores piores infringimos à outros no passado) se quisermos ser minimamente dignos de dizermos que somos cristãos como alardeamos às pessoas que aplaudem nossas máscaras de bondade… Temos é que termos vergonha de usarmos e abusarmos da mensagem cristã para promovermos nossa imagem junto à sociedade, e realmente aproveitarmos nossa vida na terra trabalhando! Não estamos aqui à passeio, estamos à trabalho, e o trabalho para o Cristo pode ser sim muito árduo, porque árduas são as dores do nosso próximo, porque árduo é voltar sobre nossos passos errados de antes, porque árduo é abandonarmos nossas fugas e ilusões de segurança, mas no fim não será árduo nosso retorno para a Pátria Espiritual, pelo contrário, será com Paz que olharemos para nossas cicatrizes de trabalho e que nos sentiremos verdadeiramente dignos!

Sucesso e Fracasso

27/10/2011

Há um tempo atrás estava lendo o lindíssimo livro “Luz do Mundo”, do espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, quando me deparei com essa passagem, que segundo a autora, foi dita por Jesus:

“Meu Pai dispõe de recursos que nos escapam e como é o Autor de tudo e de todos, cumpra cada um irrestritamente com o seu dever, transferindo para Ele, o Senhor de todos nós, os resultados do nosso trabalho”.

Foi impossível não notar nas palavras escritas pela autora cristã, um trecho praticamente idêntico ao Bhagavad Gita, escritura sagrada do Hinduísmo. Nesta jóia da Espiritualidade indiana podemos ver esse trecho, onde Krishna diz a Arjuna:

“Aquele que executa seu dever sem apego, e entrega os resultados ao Deus Supremo, não se afeta pela ação pecaminosa, tal como a pétala da flor de lótus que nunca é tocada pela água”.

São muitas, muitas passagens na Bhagavad Gita que fala sobre executar o dever sem apego, entregando o resultado nas mãos de Deus, de tal forma que essa é, sem dúvidas, a mensagem mais marcante dessa escritura. Segundo Krishna, nessa outra passagem, é a essência da Yoga:

“Você tem o direito de cumprir seu dever prescrito, mas não aos frutos da ação. Nunca se considere a causa dos resultados de suas atitudes, nem jamais se apegue ao não cumprimento de seu dever. Seja firme no yoga, ó Arjuna! Execute seu dever e abandone todo apego por êxito ou fracasso. Semelhante estabilidade mental se chama yoga”.

Já escrevi sobre essa reflexão aqui algumas vezes, porque ela me parece a maior de todas as mensagens de caridade absoluta, existente na nossa História. Foi difícil até para os santos que viveram aqui, seguirem essa recomendação de Krishna, porque trabalhar como uma plena extensão de Deus no mundo é dificílimo, mais ainda quando estamos imersos na matéria. Como cumprir nossos diversos deveres do mundo sem esperar qualquer resultado das nossas ações? Como trabalhar, viver, interagir, amar e construir, sem esperar jamais que tudo isso resulte na satisfação dos nossos desejos? Como renunciar completamente à satisfação dos nossos desejos, mesmo os nobres e puros? Como ter a consciência plena de que, acima de qualquer desejo que possamos ter, está o Desejo Absoluto de Deus?

É muito difícil, porque se cumprimos um dever, se estamos imersos na realização de algo, se estamos nos dedicando, nos empenhando em uma tarefa, naturalmente nós desejamos que ela seja bem sucedida *segundo a forma como conseguimos entender o sucesso de algo*. É muito difícil para nós entendermos que, muitas vezes, o fracasso é o resultado que Deus deseja, porque ele será mais útil para nós ou para o contexto no qual vivemos, que a vitória. É muito difícil para nós abrirmos mão de um resultado sempre satisfatório das nossas ações, afinal, se trabalhamos é para dar certo, não é? Mas como podemos ter certeza que o nosso “dar certo” é o mesmo “dar certo” de Deus? Não podemos saber, porque “Nosso Pai dispõe de recursos que nos escapam”. Só o que podemos fazer é cumprirmos os nossos deveres, entregando sempre à Deus o resultado das nossas ações. Cabe à Ele guiar para o sucesso, e ele *sempre* guia para o sucesso, mesmo quando aos nossos olhos parece um fracasso.

A Ordem e a Harmonia sempre se fazem… Nós é que temos muito caos interior, e não conseguimos ver que Deus, haja o que houver, está no leme do Universo inteiro, fazendo tudo funcionar com perfeição. Não adianta chorarmos pelo aparente fracasso de algo, só adianta sermos firmes e jamais desistirmos do cumprimento dos nossos deveres, não importando se no fim, aparentemente deu tudo errado, tendo sempre a consciência de que, quando cumprimos com nosso dever, estaremos trabalhando para Deus, não para nós.

Muitas vezes nós não podemos saber porque algo pelo qual batalhamos tanto, deu “errado”, mas Ele sempre sabe…

Humildade X Baixa-Estima

07/04/2011

Há um tempo atrás eu comprei um livro que nas resenhas me chamou muito a atenção. Seria a publicação de várias cartas pessoais e íntimas de Madre Teresa de Calcutá. Eu adoro ler esse tipo de literatura, quando conseguimos sempre observar um grande ícone sob a sua própria ótica, despida dos louros que os títulos trazem. Numa biografia comum, geralmente é mostrado o ícone, mas numa autobiografia, ou em escritos pessoais, vemos muito mais que o ícone, vemos o ser-humano, o Filho de Deus por trás de toda a realização. Eu sou fascinada por leituras assim, porque aprendo sempre a respeitar muito mais a alma que se superou e se destacou em dedicação à Humanidade, não porque era mais Filho de Deus que qualquer um de nós, mas porque teve a coragem, a determinação e a entrega que nós não temos… Acima de serem ícones, são grandes exemplos de vida!

Mas fiquei um tempo, quase 2 anos sem terminar a leitura do livro. Não sei porque me desinteressei por ele na época. Lembro que parei de lê-lo para me concentrar numa biografia de Santa Clara, que se tornou um dos meus livros favoritos. Meu sonho era ter uma autobiografia de Santa Clara! Tantas atitudes que ela teve que para mim são mistérios insondáveis! Por que se auto-imolar sendo ela tão lúcida? Por que pedir esmolas, se Jesus – exemplo máximo – teve um ofício? Enfim, muitas perguntas que ficamos quando lemos biografias, por isso gosto tanto das autobiografias.

Mas isso fica para outra hora. Queria refletir sobre um trechinho do livro de Madre Teresa. O livro chama-se “Madre Teresa, venha, seja minha luz” e foi organizado por Brian Kolodiejchuk.

“Por que foi que tudo isso chegou à mim – a mais indigna das Suas criaturas – não sei – e tentei tantas vezes convencer Nosso Senhor a procurar outra alma, uma mais generosa – uma mais forte, mas Ele parece gostar da minha confusão, da minha fraqueza”. (trecho de uma carta de Madre Teresa à Madre Gertrudes, Superiora do Convento onde ela vez seus votos na Índia)

Isso é algo que sempre me intriga quando leio relatos de santos, grande ícones de virtudes e pessoas que se destacaram por fazer o bem e amar. Todos sempre se acham as piores criaturas, as mais pecadoras e mais fracas. Fico tentando imaginar o quanto disso é humildade e o quanto é baixa-estima. Pode ser apenas uma humildade imensa, mas tem toda a cara de baixa-estima, e confunde à nós, reles mortais.

Jesus, até onde se tem notícia, foi o Ser mais humilde que pisou nesse mundo. E Ele verdadeiramente *é* humilde. O maior de todos, sem dúvidas. Mas não se tem notícia de Jesus ter se menosprezado, de ter-se rebaixado como o pior dentre os piores. Pelo contrário, Ele sempre se valorizou como Filho de Deus. Claro que ele não tinha mais os defeitos que todos nós – até os Santos – temos, mas se Ele veio até nós para nos servir de exemplo máximo, então por que nos ensinou à nos valorizarmos tal qual Ele se valorizava?

Muitas vezes ele reerguia os pecadores, e mostrava à eles o quanto eles tinham valor como Filhos de Deus, e que tinham que fazer juz à esse valor! Convidava os mais pecadores à obrar em nome de Deus, à se auto-respeitaram abandonando o crime e buscando uma vida digna. Tirou a prostituda de Magdala de uma vida regada à todo tipo de devassidão, e transformou-a num dos maiores exemplos de renúncia, caridade e superação que se tem notícias. Fez de Mateus, um cobrador de imposto desonesto, um dos evangelistas mais lidos de todos os tempos.

Ele não era só um Mestre perfeito, era também um Psicólogo Sublime, porque trazia as almas da escuridão total de si mesmas, para a busca incessante da sua Luz Íntima, onde o Pai brilha e reluz sempre. Ele nunca quis que nos rebaixássemos e desvalorizássemos, mas quis sim, que cientes dos nossos pecados, abríssemos mão da prática deles, passando a nos auto-respeitar como criaturas dignas de serem instrumentos de Deus no mundo, em vez de instrumentos do mal.

Claro que Madre Teresa era digna da tarefa que à ela foi confiada, tanto quanto todos nós somos dignos das pequeninas tarefas que Deus nos confia, mesmo a mais insignificante. Claro que Madre Teresa era forte, porque só uma alma forte como ela seria capaz de abrir mão de seu ego para se dedicar inteiramente à Humanidade simplesmente porque essa era a Vontade de Deus. Eu, por exemplo, tão cedo na minha evolução não serei capaz disso, porque ainda sou muito apegada à meus problemas, à meus sentimentos, dores, alegrias, desejos e sonhos. Minha força e dignidade está limitada à tarefas bem pequenininhas, cotidianas e mundanas, por isso mesmo que Ele não me chama ainda para cuidar da Humanidade, só da minha filha mesmo já tá bom. Ainda nem tô perto de abrir mão de mim, então imaginem que à começar por mim, há gente muito mais indigna e fraca que ela, portanto não é justo que ela pensasse isso de si mesma, que ela se desvalorizasse assim.

Aí que penso estar a pedra de toque entre a humildade e a baixa-estima. Ela era verdadeiramente humilde por reconhecer que toda a obra era de Deus, não dela. Que ela era apenas instrumento Dele, e nenhuma nesga de vaidade ou orgulho saía de suas palavras, todo o tempo ela era só um instrumento, por mais que ela precisasse se superar e se esforçar pessoalmente para que a obra tivesse andamento, nunca depositava em si os louros das vitórias. Todo o tempo era Deus atuando através dela. Agora penso que a baixa-estima vinha da sua desvalorização enquanto Filha de Deus, porque se Ele a estava utilizando como instrumento, era porque ela tinha condições para tal. Nós não somos objetos que Deus usa sem que tenhamos nenhuma participação nisso.

Se assim fosse, então para que nos esforçarmos tanto para evoluirmos, para melhorarmos, para nos tornarmos instrumentos mais capazes, mais hábeis, mais úteis. O mérito da obra é de Deus, mas o mérito do nosso aprimoramento é nosso. Se fôssemos meros objetos inúteis que Deus, em Sua misericórdia, desse alguma utilidade, então por que Ele não chama um egoísta total para obras como a de Madre Teresa? Porque o egoísta ainda não se aprimorou suficientemente para ser instrumento de Deus em tarefas que exigem desprendimento do ego. Deus chama o egoísta para outras tarefas.

Nossa utilidade para Deus e sua Obra está sempre de acordo com nossas conquistas, com nosso próprio mérito. Se Ele a chamou para realizar tal obra, claro que era porque ela tinha méritos e possibilidades, e ela devia se sentir feliz consigo mesma por isso, se amar e respeitar como uma criatura valorosa, sem nunca achar que a obra era sua, como os vaidosos e orgulhosos acham, mas ciente também de suas possibilidades, não só de suas fraquezas. Ela não era tão ruim como pensava, tanto que Deus, o único que pode nos ver com perfeição, a achou digna e pronta.

Temos que aprender a nos valorizar, sem pecarmos pelo orgulho e vaidade, como geralmente fazemos. Acho essa uma das tarefas íntimas mais difíceis de serem realizadas, porque temos o hábito de nos valorizarmos pelas nossas supostas realizações, não pelas nossas vitórias sobre nosso ego. Achamos que somos o máximo porque fazemos caridade, quando na verdade é Deus que nos aproveita para socorrer quem precisa. Nós não fazemos caridade, nós nos pré-dispomos à sermos instrumentos de Deus, e temos o dever de nos aprimorarmos cada vez mais, para que possamos ser melhores e mais capazes instrumentos.

E como nos aprimoramos? De muitas formas, mas uma das favoritas de Deus é o sofrimento. Por que o sofrimento? Porque é quando sofremos que conseguimos entender o sofrimento das outras pessoas. É quando sofremos que aprendemos a nos sensibilizar com o sofrimento dos outros. Antes de sofrermos, estamos sempre centrados em nós. Depois que sofremos, passamos a ver o sofrimento dos outros com mais compaixão, com mais empatia, e por isso mesmo ficamos mais *dispostos* à trabalhar junto com Deus para minorar as misérioas do mundo. Enquanto estamos distraídos com nossa felicidade e bem-estar, Deus tem dificuldades de nos sensibilizar para o trabalho de Amor e Misericórdia que há para fazer em toda a parte.

Temos muitos planos, muitos sonhos, muitas coisas à realizar por nós mesmos, e quanto mais felizes e vitoriosos no mundo, menos nos dispomos aos planos, sonhos e realizações de Deus. Por isso às vezes Ele nos faz sofrer e até nos tira tudo, para que paremos de nos distrair e aprendamos a valorizar o sofrimento dos outros e a termos disposição para minorá-los, tanto quanto desejamos que o nosso fosse minorado, quando foi a nossa vez de sofrer.

Madre Teresa, sem dúvidas, em algum momento de sua evolução, sofreu bastante (como acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde), e agora veio ao mundo para se dispor totalmente à Deus afim de minorar o máximo que suas forças permitissem, o sofrimento dos mais sofredores. Ela já nasceu vitoriosa, já nasceu disposta à Deus e desapegada de seu ego. E certamente nessa vida ela se superou em forças e em possibilidades, porque precisou crescer e realizar mais superações no decorrer da realização da obra de Deus, e por isso, em próximas oportunidades, será ainda mais digna e mais capaz do que foi nessa vida.

E assim é com todos nós, desde os mais ególatras até os Santos. Todos somos instrumentos de Deus, mas depende de nós sermos cada vez melhores e mais capazes instrumentos, com humildade para reconhecer que a obra não nos pertence, mas com auto-amor e auto-respeito para reconhecermos nossa parecela de mérito, dignidade e vitória pessoal em tudo que Deus realiza através de nós.

Naturalmente…

27/03/2011

Adorei essa frase de Allan Kardec contida no Livro dos Médiuns:

“A Natureza é mais prudente do que os homens. A Providência, aliás, tem seus planos e a mais humilde criatura pode servir de instrumento aos Seus mais amplos desígnios (…)”

Sim, a Natureza é mais prudente do que os homens, porque toda ela é harmonia com Deus, enquanto nós estamos quase todo o tempo em harmonia com Maya, com a ilusão dos nossos sentidos. A Natureza não se ilude com as coisas do mundo, ela apenas cumpre seu dever, seu destino dentro da criação. Nós estamos sempre em busca de satisfazer nossos sentidos, nossas vontades e expectativas, e raramente estamos simplesmente à disposição de Deus para sermos seus instrumentos.

Na maioria das vezes sequer achamos que temos alguma chance de ajudar Deus, porque ou somos soberbos de orgulho e egoísmo, ou não damos valor à nós mesmos enquanto filhos de Deus que somos. Ou nos cremos grandes demais para perdermos tempo nos ocupando dos assuntos de Deus, já que temos tantos assuntos particulares precisando de nossa atenção, ou nos achamos tão pequenos e insignificantes, que nem cogitamos a possibilidade de Deus se servir de nós.

Mas Deus se serve, mesmo quando não queremos… Ele sempre se serve de nós, até mesmo dos nossos erros, para promover a harmonia e a ordem em toda a criação. Na verdade Ele tem recursos e meios que nos escapam, com os quais nem mesmo podemos imaginar. Ele sempre dá-nos chance, sempre se ocupa de nós, mesmo quando não queremos nos ocupar Dele ou quando nem queremos que Ele se aproxime. Somos seus instrumentos nos momentos mais diversos, e obramos por Seu intermédio sempre que é necessário. Às vezes nos damos conta disso, às vezes não…

E assim é com todos, por isso mesmo que não podemos dizer que determinada pessoa foi culpada disso ou daquilo de ruim que nos aconteceu, porque se aconteceu é porque, por algum motivo, ela foi intrumento de Deus para nos educar. A responsabilidade do ato dela recai apenas sobre ela, porque se fomos atingidos é porque um dia, num passado de erros e desenganos, plantamos aquela semente ruim que germinou pelas mãos de alguém que se fez instrumento das Leis de Deus.

E é justamente por isso que não temos motivos para nos ofender ou magoar quando nos atingem, apenas devemos abençoar e agradecer a Deus que Ele nos achou dignos de nos harmonizarmos com as Leis e fortes o suficiente para sofrermos as consequências de nossos erros pretéritos. Mas sim, mesmo assim é difícil trazer esse conceito para nosso emocional e vivenciá-lo em plenitude. Volta e meia estamos nos ofendendo, magoando, tendo dificuldades para perdoar. É nessa hora que temos que ter paciência conosco também, lutando para não nos acomodarmos aos sentimentos ilusórios do nosso ego, mas sem nos exigir pressa demais, porque como diz o conceito da frase de Kardec, tudo que é Natural é mais sábio, e isso inclui nosso tempo íntimo de absorver emocionalmente os conceitos que já vislumbamos no intelectual.

Geralmente quando nos obrigamos a sentir o que naturalmente ainda não conseguimos, estamos nos agredindo e desejando sermos mais fortes que a nossa Natureza. Não nos respeitamos e nem nos damos a chance de sermos o que somos: seres em crescimento, em constante evolução, imperfeitos e ignorantes de muita coisa. Quando nos forçamos a um modelo idealizado de “moralmente ideal”, na maioria das vezes apenas nos tornamos hipócritas e mascarados. Quando finalmente o conceito for absorvido naturalmente por nós (o que pode demorar várias vidas), nós sentimos a paz daqueles que não sentem necessidade alguma de se auto-imolar, pois que estão em harmonia com Deus, e isso também significa se amar e se respeitar inclusive como um imperfeito Filho de Deus.

Reino de Deus em Nós

21/03/2011

Ando refletindo muito sobre uma passagem do livro “Luz do Mundo” de Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo P. Franco. A passagem é a seguinte:

” – O Reino de Deus – concluiu o Mestre – está dentro de cada um que o deseje. Não é trabalho externo, antes resultado do excelente labor anônimo e sacrificial nas noites de silêncio, nos dias de angústia e dor libertadora. Ninguém o verá, e esse herói, aquele que o conseguir realizar, não receberá aplauso, passando entre os homens desconsiderado, incompreendido, malsinado, todavia em paz consigo mesmo e em harmonia com Deus…”.

Achei tão perfeita essa colocação! De uma sabedoria e profundidade tão grande! Geralmente temos a ilusão de que aqueles que se destacam no trabalho externo é que estão caminhando no Reino de Deus… Mas quem pode julgar o íntimo das pessoas? Até que ponto o trabalho externo é resultado do amor? Quem pode julgar se uma pessoa que se destaca entre as demais no labor evangélico, vive intimamente tal qual um verdadeiro seguidor do Cristo? Ninguém pode julgar isso além de Deus…

Muitas vezes aqueles que se destacam menos são justo os que mais paz íntima possuem. Muitas vezes alguém que sequer faz algum trabalho evangélico, está mais em harmonia consigo mesmo e com Deus do que um que se diz cristão. E isso nem é raro. Achei interessante a observação da passagem quando destaca-se que o Reino de Deus é conquista íntima, não externa. Que conquistamos o Reino de Deus após laboriar muito dentro de nós mesmos, de sofrermos todas as dores do autoconhecimento e auto-burilamento. É também sofrendo as consequências dos nossos atos, nos reajustando diante das Leis de Deus, e encontrando assim a paz da consciência livre.

Dói… Dói muito encontrar dentro de nós o Reino de Deus. É preciso dores atrozes, solidões escuras onde apenas o Mestre nos acompanha, para que reconheçamos Seu Augusto Amor, e solidifiquemos a nossa Fé e União com Ele. É na dor soberana que encontramos o Reino de Deus, aquele lugar indubitavelmente seguro dentro de nós, onde encontramos a paz. Uma paz que é só nossa, fruto da libertação da consciência e da reconquista de si mesmo. Uma paz que não foi dada, que não foi encontrada em templos, livros ou teorias, mas conquistada à custa de muito sofrimento, das provações mais singulares e penosas, de ter a alma inteira destruída e refeita. A força que vem dessa paz é inabalável, porque é resultado da união definitiva entre criatura e Criador. Haja o que houver, o Reino de Deus está estabelecido no nosso coração, e a Paz reina mesmo na tempestade…

Tal qual uma frase que li uma vez no livro “Paulo e Estevão”, numa ocasião em que Paulo é apedrejado sentindo aquela paz angélica e confiança irrestrita em Deus. Achei-a perfeita para descrever o encontro com o Reino de Deus: “Na prova rude e dolorosa, compreendeu, alegremente, que havia atingido a região de paz divina, no mundo interior, que Deus concede a seus filhos depois das lutas acerbas e incessantes, por eles mantidas na conquista de si mesmos”.

Tem um momento da luta que os golpes já não surtem mais efeito, não porque não doam, mas porque estamos em paz. A segurança do Reino de Deus não nos permite temer ou revoltar, só nos permite confiar e prosseguir com Deus.

Penso que o trabalho externo acaba sendo consequência dessa conquista, não meio de conquistar. Há muitos de nós que buscam o trabalho externo afim de conquistar o Reino de Deus pelo “meio mais fácil”, mas com o passar dos anos, as experiências da vida vão nos ensinando que o meio mais fácil é aquele que julgamos mais difícil…

Não sou defensora do sofrimento, mas tenho que admitir que ele é um meio muito eficaz para encontrarmos Deus e a paz… Tenho que admitir a sabedoria de Deus ao permitir nosso sofrimento em determinado ponto da caminhada afim de nos conduzir à Seu Reino. Um sofrimento que só existe até que O encontremos dentro de nós… Depois que encontramos o Reino de Deus, não somos mais capazes de sofrer as dores que nos levaram àquele ponto de Encontro, justamente porque O encontramos. Os sofrimentos se modificam, mas todos são enfrentados com Paz e Harmonia com Deus.

Por tudo isso ando pensando muito naquela passagem… Na ilusão que temos de ver o exterior e julgar coisas e situações que apenas Deus é capaz de julgar. Nem sempre o exterior é reflexo do interior, e nem sempre alguém que prega a paz vive em paz. Da mesma forma que nem sempre aquele que julgamos o último, está perdido… Talvez estejamos mais perdidos que ele no fim…

Isso foi só uma breve reflexão pessoal, portanto desculpem se o texto estiver um tanto reflexivo demais e com lógica de menos… :)

Escolhendo Deus

07/02/2011

Quando venho para o trabalho todos os dias passo por baixo de um viaduto onde há uma frase pichada: “Deus não escolhe os capacitados, Ele capacita os escolhidos”. Isso me fez refletir na cultura religiosa que há sobre “as escolhas de Deus” por determinados filhos. Em muitos lugares vemos expresso essa idéia de que Deus, por algum motivo, escolhe esses ou aqueles filhos para receberem bênçãos que à outros são negadas.

E se ollharmos de forma superficial para a Vida, podemos até ter a impressão de que esse pensamento é válido, mas se aprofundarmos nosso olhar, veremos que não, que Deus não escolhe seus melhores ou piores filhos, que Ele não é parcial ou mais ou menos para uns ou para outros. Que Deus Ele seria se escolhesse filhos? Que Pai Ele seria se desse à uns bênçãos e à outros não desse nada?

Penso que a forma aparentemente injusta ou parcial como recebemos as bênçãos de Deus está *em nós* e não Nele. Penso que todos somos escolhidos, porém nem todos aceitamos ir com Ele no mesmo tempo. Cada um tem seu tempo, e mesmo para aqueles que ainda não *se escolheram*, Deus dá muitas bênçãos, constantes convites, infinitas oportunidades e uma paciência sem fim.

Como na parábola do Filho Pródigo às vezes achamos injusta a forma como Deus lida conosco, como quando o filho bom da parábola acha injusto quando aparentemente Deus dá ao filho transviado mais do que è ele  que já estava à Seu lado. Quem escolhe estar com Deus é abençoado todos os dias, e sua vida é tão cheia de bênçãos (espirituais, íntimas, não necessariamente materiais, como muitos de nós ainda confundimos) que as bênçãos passam a ser o natural, o cotidiano, não mais um evento especial. Elas fazem tão parte da nossa vida íntima, que ao vermos alguém que nada tinha e recebe um pouco, pensamos como o filho da parábola, que Deus está dando mais à uns que à outros, ou que está dando mais à quem nem merece, e momentaneamente nos cegamos às bênçãos sem fim que recebemos todos os dias e já fazem parte de nossa alma.

Mas não é assim… Deus dá igualmente à todos, mas nós temos que aprender a receber, nós temos que nos esforçar diária e constantemente para estarmos sempre com Ele, todo o tempo recebendo suas bênçãos e seu Infinito Amor. Somos sempre nós que bloqueamos o acesso à Ele, nunca o contrário. Na verdade Deus tenta todo o tempo, das formas mais diversas, abrir passagem até nosso coração. Às vezes Ele é direto, geralmente quando estamos tão caídos que nossa soberba já não vale nada e então, no auge do sofrimento buscamos Ele e Ele nos responde. Às vezes Ele é discreto justamente para não ferir nosso orgulho, que inflado, nos faz achar que todo nosso sucesso e sorte são frutos apenas de nossa capacidade e astúcia. Ele deixa que aprendamos por nós mesmos que sem Ele nada somos. Deixa que, cansados dos sofrimentos decorrentes das consequências de nossas próprias escolhas, nós O busquemos definitivamente, e é nisso que reside nosso maior mérito.

Portanto, Deus não escolhe seus filhos, somos para Ele tão amados e importantes como os Anjos já Iluminados. Somos para Ele os mesmos amaríssimos filhos desde a criação até a eternidade. Todos nós, sem excessões, somos abençoados todos os dias, embora nem sempre possamos compreender as bênçãos que recebemos. Nós que decidimos o dia que O escolheremos como Guia, como Companhia constante, como Inspiração, Motivação, Meta, Esperança, Amigo e Pai…

Cabe à nós aceitarmos seus inúmeros e constantes convites, cabe à nós aceitarmos enfim, sentimos Seu Imenso e Infinito Amor por nós…

Ele já É nosso Pai,  nós é estamos aprendendo a sermos Seus filhos…

Amar os Inimigos, por Martin Luther King Jr.

13/12/2010

Martin Luther King Jr., um Satyagrahi autêntico, sem dúvidas! Acho que nunca tinha lido um texto tão perfeito e completo sobre o tema “amar os inimigos”. Depois de ler esse texto, estou até em estado de êxtase! Primoroso! Se Martin Luther King Jr. tivesse nascido na Índia, teria sido um Mahatma também!

Amar os Inimigos

Martin Luther King, Jr.

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Mateus 5.43-48

Talvez nenhum ensinamento de Jesus seja, hoje, tão difícil de ser seguido como este mandamento do “amai os vossos inimigos”. Há mesmo quem sinceramente julgue impossível colocá-lo em prática. Consideramos fácil amar quem nos ama, mas nunca aqueles que abertamente e insidiosamente procuram prejudicar-nos. Outros ainda, como o filósofo Nietzsche, sustentam que a exortação de Jesus para amarmos os nossos inimigos prova que a ética cristã se destina somente aos fracos e aos covardes, e nunca se pode aplicar aos corajosos e aos fortes. Jesus – dizem eles – era um idealista sem sentido prático.

Apesar dessas dúvidas prementes e persistentes objeções, o mandamento de Jesus desafia-nos hoje com nova urgência.

Insurreições sobre insurreições demonstram que o homem moderno caminha ao longo de uma estrada semeada de ódios, que fatalmente o conduzirão à destruição e à condenação. O mandamento para amarmos os nossos inimigos, longe de ser uma piedosa imposição de um sonhador utópico, é uma necessidade absoluta para podermos sobreviver. O amor pelos inimigos é a chave para a solução dos problemas do nosso mundo. Jesus não é um idealista sem sentido prático; é um realista prático.

Estou certo de que Jesus compreendeu a dificuldade inerente ao ato de amar os nossos inimigos. Nunca pertenceu ao número dos que falam fluentemente sobre a simplicidade da vida moral. Sabia que toda a verdadeira expressão de amor nasce de uma firme e total entrega a Deus. Quando Jesus diz: “Amai os vossos inimigos”, não ignora a dificuldade dessa imposição e conhece bem o significado de cada uma das suas palavras. A responsabilidade que nos cabe como cristãos é a de descobrir o significado desse mandamento e procurar apaixonadamente vivê-lo toda a nossa vida.

Como Amar os inimigos?

Agora sejamos práticos e formulemos a pergunta: Como devemos nós amar os nossos inimigos?

Temos, primeiro, de desenvolver e manter a capacidade de perdoar. Aquele que não perdoa, não pode amar. É mesmo impossível iniciar o gesto de amar o inimigo sem a prévia aceitação da necessidade de perdoar sempre a quem nos faz mal ou nos injuria. Também é preciso compreender que o ato do perdão deve partir sempre de quem foi insultado, da vítima gravemente injuriada, daquele que sofreu tortuosa injustiça ou ato de terrível opressão. É quem faz o mal que requer o perdão. Deve arrepender-se e, como o filho pródigo, retomar o caminho do regresso de coração ansioso pelo perdão. Mas só o ofendido, seu próximo, pode realmente derramar as águas consoladoras do perdão.

O perdão não significa ignorância do que foi feito ou imposição de um rótulo falso em uma má ação. Deve significar, pelo contrário, que a má ação deixe de ser uma barreira entre as relações mútuas. O perdão é o catalisador que cria a atmosfera necessária para de novo partir e recomeçar; é alijar um fardo ou cancelar uma dívida. As palavras “perdôo-te, mas não esqueço o que fizeste” não traduzem a natureza real do perdão. Nunca ninguém, decerto, esquece, se isso significar varrer totalmente o assunto do espírito; mas quando perdoamos, esquecemos, no sentido em que a má ação deixa de constituir um impedimento para estabelecer relações. Da mesma maneira, nunca devemos dizer: “Perdôo-te, mas já não quero nada contigo”. Perdão significa reconciliação, um regresso a uma posição anterior; sem isso, ninguém pode amar os seus inimigos. O grau da capacidade de perdoar determina o da capacidade de amar os inimigos.

Em segundo lugar, temos de reconhecer que a má ação de um nosso próximo, inimigo, – ou seja, aquilo que magoa, – nunca exprime a sua completa maneira de ser. É sempre possível descobrir um elemento de bondade no nosso inimigo. Existe algo de esquizofrênico em cada um de nós, que divide tragicamente a nossa própria personalidade, e trava-se uma persistente guerra civil dentro das nossas vidas. Há em nós alguma coisa que nos obriga a lamentarmo-nos com o poeta latino Ovídio: “Vejo e aprovo o que é melhor, mas sigo o que é pior”, e ou como Platão, que comparava a pessoa humana a um cocheiro que guiasse dois cavalos possantes, e cada um deles puxasse o carro em direções opostas. Também podemos repetir o que disse o Apóstolo Paulo: “Pois não faço o que prefiro e sim o que detesto”.

Isso significa muito simplesmente que naquilo que temos de pior há sempre algo de bom, assim como no melhor existe algo de mau. Quando percebemos isso, sentimo-nos menos prontos a odiar os nossos inimigos. E quando olhamos para além da superfície ou para além do gesto impulsivo de maldade, descobrimos em nosso próximo um certo grau de bondade, e percebemos que o vício e a maldade dos seus atos não traduzem inteiramente aquilo que ele de fato é. Observamo-lo a uma nova luz. Reconhecemos que o seu ódio foi criado pelo medo, orgulho, ignorância, preconceito ou mal-entendido, mas vemos também que, apesar disso tudo, a imagem de Deus se mantém inefavelmente gravada no seu ser. Amamos os nossos inimigos porque sabemos então que eles não são completamente maus, nem estão fora do alcance do amor redentor de Deus.

Em terceiro lugar, não devemos procurar derrotar ou humilhar o inimigo, mas antes granjear a sua amizade e a sua compreensão. Somos capazes, por vezes, de humilhar o nosso maior inimigo: há sempre, inevitavelmente, um momento de fraqueza em que podemos enterrar no seu flanco a lança vitoriosa, mas nunca deveremos fazê-lo. Todas as palavras ou gestos devem contribuir para um entendimento com o inimigo e para abrir os vastos reservatórios onde a boa vontade está retida pelas paredes impenetráveis do ódio.

Não devemos confundir o significado do amor com desabafo sentimental; o amor é algo de mais profundo do que verbosidade emocional. Talvez que o idioma grego nos possa esclarecer sobre este ponto. O Novo Testamento foi escrito em grego; e em sua versão original há três palavras que definem o amor. A palavra eros traduz uma espécie de amor estético ou romântico. Nos diálogos de Platão, eros significa um anseio a alma dirigido à esfera divina. A segunda palavra é philia, amor recíproco e afeição íntima, ou amizade entre amigos. Amamos aqueles de quem gostamos e amamos porque somos amados. A terceira palavra é ágape, boa vontade, compreensiva e criadora, redentora para com todos os homens. Amor transbordante que nada espera em troca, ágape é o amor de Deus agindo no coração do homem. Nesse nível, não amamos os homens porque gostamos deles, nem porque os seus caminhos nos atraem, nem mesmo porque possuem qualquer centelha divina: nós os amamos porque Deus os ama. Nessa medida, amamos a pessoa que pratica a má ação, embora detestemos a ação que ela praticou.

Podemos compreender agora o que Jesus pretendia quando disse: “Amai os vossos inimigos”. Deveríamos sentir-nos felizes por Ele não ter dito: “Gostai dos vossos inimigos”. É quase impossível gostar de certas pessoas; “gostar” é uma palavra sentimental e afetuosa. Como podemos sentir afeição por alguém cujo intento inconfessado é esmagar-nos ou colocar inúmeros e perigosos obstáculos em nosso caminho? Como podemos gostar de quem ameaça os nossos filhos ou assalta as nossas casas? É completamente impossível. Jesus reconhecia, porém, que o amar era mais do que o gostar. Quando Jesus nos convida a amar os nossos inimigos, não é ao eros nem à philia que se refere, mas ao ágape, compreensiva e fecunda boa vontade redentora para com todos os homens. Só quando seguimos esse caminho e correspondemos a esse tipo de amor, ficamos aptos a ser filhos do nosso Pai que está nos céus.
POR QUE Amar os Inimigos?

Saltemos agora do prático como para o teórico porquê.

Por que devemos amar os nossos inimigos? A principal razão é perfeitamente óbvia: retribuir o ódio com o ódio multiplica o ódio e aumenta a escuridão de uma noite já sem estrelas. A escuridão não expulsa a escuridão, só a luz o pode fazer. O ódio não expulsa o ódio: só o amor o pode fazer. O ódio multiplica o ódio, a violência multiplica a violência e a dureza multiplica a dureza, numa espiral descendente que termina na destruição. Quando, pois, Jesus diz: “amai os vossos inimigos”, é uma advertência profunda e decisiva que pronuncia. Não chegamos nós, em nosso mundo moderno, a uma encruzilhada onde nada mais resta do que amar os nossos inimigos? A cadeia de reação ao mal, – ódios provocando ódios, guerras gerando guerras – tem de acabar, sob pena de sermos todos precipitados no abismo sombrio do aniquilamento.

Outro motivo por que devemos amar os nossos inimigos são as cicatrizes que o ódio deixa nas almas e a deformação que provoca na nossa personalidade. Conscientes de que o ódio é um mal e uma força perigosa, pensamos muitas vezes nos efeitos que exerce sobre a pessoa odiada e nos irreparáveis danos que causa nas suas vítimas. Podemos avaliar as suas terríveis conseqüências na morte de seis milhões de judeus, ordenada por um louco obcecado pelo ódio, cujo nome era Hitler; na inqualificável violência exercida por turbas sanguinárias sobre os negros, ou ainda nas terríveis indignidades e injustiças perpetradas contra milhões de filhos de Deus por opressores sem consciência.

Mas há ainda outro aspecto que não podemos omitir. O ódio é também prejudicial para a pessoa que odeia. É como um cancro incurável que corrói a personalidade e lhe desfaz a unidade vital. O ódio destrói no homem o sentido dos valores e a sua objetividade. Faz com que ele considere bonito o que é feio ou feio o que é bonito, confunda o verdadeiro com o falso, ou vice-versa.

O Dr. E. Franklin Frazier, no seu interessante ensaio “The Pathology of Race Prejudice” cita vários exemplos de pessoas brancas normais, simpáticas e acessíveis no seu trato do dia-a-dia com outros brancos, e que reagem com inconcebível irracionalidade e anormal descontrole quando alguém alude à igualdade dos negros, ou ao problema da injustiça racial. Ora, isso acontece quando o ódio invadiu o nosso espírito. Os psiquiatras afirmam que muitas coisas estranhas passadas em nosso subconsciente e grande parte dos nossos conflitos íntimos são criados pelo ódio. Dizem eles: “ama ou morrerás”. A psicologia moderna reconhece a doutrina que Jesus ensinou há muitos séculos: o ódio divide a personalidade, e o amor, de maneira espantosa e inexorável, restabelece-lhe a unidade.

Um terceiro motivo por que devemos amar os nossos inimigos é que o amor é a única força capaz de transformar o inimigo em um amigo. Nunca nos livraremos de um inimigo opondo o ódio ao ódio – só o conseguiremos, libertando-nos da inimizade. O ódio, pela sua própria natureza, destrói e dilacera; e também pela sua própria natureza, o amor é criador e construtivo: a sua força redentora transforma tudo.

Lincoln experimentou o caminho do amor e legou à História um drama magnífico de reconciliação. Quando da sua campanha eleitoral para Presidente, um dos seus mais acérrimos inimigos era um homem chamado Stanton que, por qualquer razão, odiava Lincoln. Todas as suas energias eram empregadas para o diminuir aos olhos do público e tamanho era o ódio que sentia, que chegava a usar expressões injuriosas sobre o seu aspecto físico, procurando ao mesmo tempo embaraçá-lo com as mais azedas diatribes. Mas, apesar de tudo, Lincoln foi eleito Presidente dos Estados Unidos. Chegou então a hora de constituir o seu gabinete e nomear as pessoas que, mais de perto, teriam de participar na elaboração do seu programa. Começou por escolher um ou outro para as diversas pastas e, por fim, foi preciso preencher a mais importante, que era a da Guerra. Imaginai agora quem ele foi buscar: nada menos do que o tal homem chamado Stanton. Houve imediatamente grande agitação lá dentro quando a notícia começou a espalhar-se, e vários conselheiros vieram dizer-lhe: “O Senhor Presidente está laborando num grande erro. Sabe quem é esse Stanton? Está lembrado do que ele disse a seu respeito? Olhe que ele é seu inimigo e vai tentar sabotar a sua política. Pensou bem no que vai fazer?” A resposta de Lincoln foi nítida e concisa: “Sei muito bem quem é Stanton, e as coisas desagradáveis que tem dito de mim. Considerando, porém, o interesse da nação, julgo ser o homem indicado para este cargo”. Foi assim que Stanton se tornou Secretário da Guerra do governo de Abraão Lincoln e prestou inestimáveis serviços ao país e ao seu Presidente. Alguns anos mais tarde, Lincoln foi assassinado e grandes elogios lhe foram feitos. Ainda hoje milhões de pessoas o veneram como a maior homem da América. H. G. Wells considerava-o um dos seis maiores vultos da História. Mas de todos os elogios que lhe fizeram, os maiores são constituídos, decerto, pelas palavras de Stanton. Junto do corpo do homem que ele odiara, Stanton a ele se referiu como um dos maiores homens que jamais tivesse existido, e acrescentou: “agora pertence à História”. Se Lincoln tivesse retribuído o ódio com ódio, ambos teriam ido para a sepultura como inimigos implacáveis, mas, pelo amor, Lincoln transformou um inimigo num amigo. Foi essa mesma atitude que tornou possível, durante a Guerra Civil – e quando os ânimos estavam mais azedos – uma palavra sua a favor do Sul. Abordado então por uma assistente escandalizada, Lincoln retorquiu: “Minha Senhora, não será fazendo deles meus amigos que destruirei os meus inimigos?” Este é o poder do amor que redime.

Apressemo-nos a dizer que não são esses os supremos motivos para amar os nossos inimigos. Há uma outra razão muito mais profunda para explicar por que somos intimados a fazê-lo e essa está claramente expressa nas palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste”. Somos chamados para essa difícil incumbência com o fim de realizarmos um parentesco único com Deus. Somos, em potência, filhos de Deus e, através do amor, essa potencialidade torna-se realidade. Temos a obrigação de amar os nossos inimigos, porque somente amando-os podemos conhecer Deus e experimentar a beleza da Sua santidade.

É claro que nada disso é prático. A vida é uma questão de desforra, de desagravo, de “quem mais faz paga mais”. Quererei eu dizer que Jesus nos manda amar quem nos magoa e oprime? Não serei eu como a maioria dos pregadores idealista e pouco prático? Talvez que numa utopia distante – direis vós – a idéia possa ser realizável, mas nunca neste mundo duro e hostil em que vivemos.

Queridos amigos, seguimos já há muito esses caminhos que consideramos práticos e que nos conduzem inexoravelmente a uma confusão e a um caos cada vez maiores. Vêem-se, acumuladas através dos séculos, as ruínas das comunidades que sucumbiram à tentação do ódio e da violência. Para salvar o nosso país e para salvar a humanidade, temos de seguir outro caminho. Isso não significa o abandono dos nossos retos esforços; devemos continuar a empregar toda a energia para libertarmos este país do pesadelo da injustiça social. Mas nesta emergência nunca podemos esquecer o nosso privilégio e a nossa obrigação de amar. Ao mesmo tempo em que detestamos a injustiça social, devemos amar os que praticam tais injustiças. Será a única forma de criar uma comunidade de amor.

Aos nossos mais implacáveis adversários, diremos: “Corresponderemos à vossa capacidade de nos fazer sofrer com a nossa capacidade de suportar o sofrimento. Iremos ao encontro da vossa força física com a nossa força do espírito. Fazei-nos o que quiserdes e continuaremos a amar-vos. O que não podemos, em boa consciência, é acatar as vossas leis injustas, pois tal como temos obrigação moral de cooperar com o bem, também temos a de não cooperar com o mal. Podeis prender-nos e amar-vos-emos ainda. Assaltais as nossas casas e ameaçais os nossos filhos, e continuaremos a amar-vos. Enviais os vossos embuçados perpetradores da violência para espancar a nossa comunidade quando chega a meia-noite, e, quase mortos, amar-vos-emos ainda. Tendes, porém, a certeza de que acabareis por ser vencidos pela nossa capacidade de sofrimento. E quando um dia alcançarmos a vitória, ela não será só para nós; tanto apelaremos para a vossa consciência e para o vosso coração que vos conquistaremos também, e a nossa vitória será dupla vitória”. O amor é a força mais perdurável do mundo. Este poder criador, tão belamente exemplificado na vida de nosso Senhor Jesus Cristo, é o instrumento mais poderoso e eficaz para a paz e a segurança da humanidade. Diz-se que Napoleão Bonaparte, o grande gênio militar, recordando a sua anterior época e conquistas, teria observado: “Tanto Alexandre como César, Carlos Magno ou eu próprio, criamos grandes impérios. Mas onde se apoiaram eles? Unicamente na força. Jesus, há séculos, iniciou a construção de um império fundado no amor, e vemos hoje ainda milhões de pessoas que morrem por Ele”. Ninguém pode duvidar da veracidade dessas palavras. Os grandes chefes militares do passado desapareceram, os seus impérios ruíram e desfizeram-se em cinza; mas o império de Jesus, edificado solidamente e majestosamente nos alicerces do amor, continua a progredir. Começou por um punhado de homens dedicados que, inspirados pelo Senhor, conseguiram abalar as muralhas do Império Romano e levar o Evangelho ao mundo todo. Hoje, o reino de Cristo na terra compreende mais de um bilhão de pessoas e reúne todas as nações ou tribos. Ouvimos hoje de novo a promessa de vitória:

Jesus há de reinar enquanto o sol

fizer sua viagem cada dia;

o seu Reino irá de costa a costa

até que a lua deixe de mudar.

A que outro coro, alegremente, responde:

Não há em Cristo Leste ou Oeste,

n’Ele não há Norte nem há Sul,

mas a grande unidade do Amor

por toda a vasta terra inteira.

Jesus tem sempre razão. Os esqueletos das nações que o não quiseram ouvir enchem a História. Que neste século vinte, nós possamos escutar e seguir as suas palavras antes que seja tarde demais. Possamos nós também compreender que nunca seremos verdadeiros filhos do nosso Pai do céu sem que amemos os nossos inimigos e oremos por aqueles que nos perseguem.

Este sermão foi escrito pelo Pastor Martin Luther King, Jr., prêmio Nobel da Paz em 1964, nascido em Atlanta, Estado da Geórgia, no dia 15 de janeiro de 1929, e assassinado no dia 4 de abril de 1968, com apenas 39 anos de idade, em Memphis, no Estado de Tennessee. O autor formou-se em Teologia no Seminário Teológico de Crozer, em Chester, em 1955. Logo depois foi consagrado pastor e empossado como pastor-auxiliar da Igreja Batista da Avenida Dexter, de Montgomery, no Alabama. Depois assumiu o pastorado da Igreja Batista Ebenézer de Atlanta, sua cidade natal. O pastor King Jr. foi o maior líder dos movimentos contra a segregação racial nos Estados Unidos e seu nome figura na galeria das maiores personalidades do Século XX.

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