Razão da Fé


Essa colocação de Vivekananda é perfeita, aos meus olhos. Queria comentá-la:

“O primeiro teste do verdadeiro ensinamento deve ser o de não contradizer a razão”.

Isso é fundamental, porque aquilo que fere a razão, causa uma desconfiança natural, de auto-proteção. Porém, a verdade do Universo não cabe na nossa razão, e aquilo que não há lógica para nós, não quer dizer que seja mentira. O desconhecido ou nunca visto pode soar irracional, mas não quer dizer que seja irreal. Temos diversas formas de exemplificar isso. Há séculos atrás pareceria absurdo a idéia da internet. Cientificamente era impossível, nenhuma mente, por mais fértil que fosse, poderia conceber tal idéia, mas acaso ela tivesse sido concebida, teria entrado para o rol do fantástico, daquilo que não é provável nem na prática, nem na lógica, portanto feriria a razão em todos os ângulos. Mas eis que hoje estamos aqui e eu escrevo essas linhas usando a internet, uma ferramenta que possibilita que qualquer pessoa em qualquer ponto do mundo, leia-me quase que simultaneamente.

Com isso penso que todas as questões religiosas que dizem respeito à ciência em qualquer ponto, jamais podem ser fechadas como verdade, por mais que sua lógica seja irretorquível. Pode ser que existam coisas (ou existirão, um dia) que a nossa mente sequer consegue conceber, para inclusive ter algo em que se basear para tentar entender se fere ou não a razão. Por isso que, a razão, ao meu ver, só consegue mesmo “desvendar verdades” quando tratamos de ensimentos morais e atemporais. Eis onde nossos olhos jamais devem deixar de observar atentamente, se algo fere ou não a “razão-moral”.

De qualquer forma, ainda aí podemos refletir. Há quem consiga perceber e enxergar muito mais longe que nós, por isso pode ter atitudes, que à nosso ver pode parecer “moralmente-irracional”, mas que na verdade é nossa capacidade de percepção que não consegue encontrar a lógica moral daquele ensinamento. Também poderia citar diversos exemplos, mas vou citar Jesus e a sociedade romana de 2000 anos atrás. Para os romanos, por exemplo, era normalíssimo ter escravos, porque eles nasciam e morriam, há séculos, sob a certeza absoluta de que eram superiores. E quem conseguiria lhes dizer o oposto? Dominavam o mundo conhecido, tinham a última palavra em qualquer lugar, subjugavam qualquer povo, mesmo o mais sábio ou forte. E por serem superiores podiam, por Lei, por ética e por moral, se prover de escravos, de seres humanos “inferiores” que estariam alí para lhes servir dentro de um direito que eles adquiriram legalmente, ganhando guerras. Pela lógica moral deles, estava tudo certo escravizar. Estranhos e loucos eram aqueles que não compravam escravos, quando podiam. Então apareceu um carpinteiro, notoriamente “inferior” (pelos parâmetros que eles tinham de superioridade-inferioridade) e começou a pregar a igualdade e a fraternidade entre todas as criaturas. E não satisfeito, ainda disse que os mais sofredores e necessitados, eram os que mereciam mais amor e mais privilégios nos céus. Os romanos ficaram loucos quando viram, o que para eles era uma infâmia absurda, se alastrar entre o seu próprio povo. Eles entendiam aquilo como uma doença mental contagiosa, porque era só assim que eles conseguiam entender. A capacidade de lógica-moral deles só ia até alí. Hoje, dois mil anos depois, a maior parte do planeta consegue absorver aquele conceito de igualdade e fraternidade, mas ainda são poucos que conseguem realmente sentir na alma, verdadeiramente. Têm muitos e muitos que absorvem por educação, cultura ou ética política, mas não compreendem ainda no coração.

Então vemos muitas coisas que são incompreensíveis moralmente, como a aparente preferência que Deus tem por alguns de seus filhos, quando dá à uns uma saúde perfeita, enquanto outros nascem sem membros ou com doenças incuráveis. Reencarnação? Ela não explica as desigualdades, ela possibilita a justiça nas desigualdades, é diferente. Para explicar é preciso algo que não temos enquanto estamos reencarnados: a nossa “Biografia Espiritual”. Podemos apenas criar hipóteses, mas elas são tão inúteis, quanto desnecessárias, porque podem nos fazer viver sob irrealidades, que podem até nos escravizar em idéias de culpa, punição e outras doenças psicológicas que nos impedem de trabalhar com o que realmente nos liberta do sofrimento, o amor. E é com a dúvida inexplicada nos braços, que encontramos a Fé. Aquela que está acima da razão, porque sabe que a nossa razão não é do tamanho do Amor de Deus. Não compreendemos, não vemos razão, não encontramos a lógica, não podemos saber do passado, mas de alguma forma sentimos que “está tudo no lugar”. Fé emocional, aquela que, como disse Gandhi, transcende o intelecto, sem contradizê-lo.

Mas quando o ensinamento ou a necessidade de Fé vem da parte dos homens, nada deve ser aceito sem passar por uma razão rigorosa, porque mesmo das árvores que produzem bons frutos, pode nascer um fruto estragado, ou pode ser atacado por vermes. Há quem seja suficientemente vil e inteligente ao ponto de conseguir, também por uma lógica irretorquível, usar de “verdades” que em vez de libertarem, escravizam. E há quem deseje os louros e satisfações emocionais, em vez dos materiais. E “distribuem verdades”, vivem por elas, pelo próximo, mas não é pela “verdade” ou pelos sofredores que faz, mas para receber a adulação, os aplausos, os louros e os adeptos. Por tudo isso, a razão jamais deve abandonar nosso senso de observação, porém, para que ela seja libertação, não podemos nos escravizar na idéia arrogante de que o fim do conhecimento universal tem o tamanho do conhecimento temporal do Homem, e isso inclui todas as Religiões e Filosofias.

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