Briga Sublimada


amor1Estou aqui fascinada com a Autobiografia de Paramahansa Yogananda. Logo nas primeiras linhas já me encantei com a narração da única briga dos pais que ele presenciou. Dizia ele que os pais se amavam com um amor acima do que entendemos como amor, porque era puro, embora fosse um amor entre homem e mulher. Viviam numa harmonia perene e sólida, e a única vez que ele disse ter presenciado uma discussão entre eles foi por um motivo que nos deixa, à nós seres tão longe de compreender o companheirismo espiritual, que brigamos por qualquer coisa, nos sentindo pequeninas formiguinhas na Arte de Amar. Eis o trecho:

“Mamãe sempre tinha a mão aberta, generosamente, para todos os necessitados. Papai também era caridoso, mas seu respeito à lei e à ordem estendia-se até o orçamento doméstico. Em certa quinzena, mamãe gastou com a alimentação dos pobres mais do que papai gastava num mês.

– Por favor, só lhe peço que seja caridosa dentro de limites razoáveis. – Mesmo uma repreensão suave de seu esposo era de suma gravidade para minha mãe. Sem revelar aos filhos seu desacordo com papai, ela fez vir uma carruagem de aluguel.

– Adeus, vou-me embora para a casa de minha mãe. – Antiqüíssimo ultimato! Rompemos em pranto e lamentações. Nosso tio materno chegou no momento oportuno. Segredou a meu pai um conselho herdado certamente de algum sábio de antanho.

Depois de papai ter pronunciado algumas palavras de esclarecimento e conciliação, mamãe, feliz, despediu a carruagem. Assim terminou a única divergência de que tive conhecimento entre meus pais. Recordo-me, porém, de uma discussão característica.

– Por favor, preciso de dez rúpias para dar a uma pobre mulher que veio bater à nossa porta. – O sorriso de mamãe era persuasivo.

– Por que dez rúpias? Uma é bastante. – Papai acrescentou esta justificação: – Quando meu pai e meus avós faleceram subitamente, eu soube, pela primeira vez, o que era a pobreza. De manhã, comia unicamente uma pequena banana, antes de caminhar vários quilômetros até a escola. Mais tarde, na Universidade, sofri tais privações que me vi forçado a pedir a um rico juiz o auxílio de uma rúpia por mês. Ele recusou, declarando que mesmo uma rúpia tinha valor.

– Com que amargura você lembra a recusa dessa rúpia! – O coração de minha mãe teve um instante de lógica. – Você gostaria que essa mulher tivesse de recordar dolorosamente a recusa das dez rúpias de que tanto necessita com urgência?

– Você ganhou! – Com o gesto imemorial dos esposos que se dão por vencidos, meu pai abriu a carteira. – Aqui está uma nota de dez rúpias. Entregue com os meus melhores votos de felicidade”.

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