Os Grandes Mestres


Não canso de dizer: adoro Vivekananda! Ele é das almas mais lúcidas entre os gurus indianos, à meu ver. Lúcido, lógico e sensato! Estou lendo seu livro entitulado “Epopéias da Índia Antiga” e me maravilhei tanto com um capítulo, que tenho que transcrever a primeira parte dele, na íntegra aqui.

OS GRANDES INSTRUTORES

Os Instrutores

Segundo os ensinos hindus, o universo evoluciona em ciclos, algo como emanações ondulantes. Cada ciclo surge como uma onda, chega a seu ponto culminante, decai e se desfaz para ressurgir depois de algum tempo. Assim ondas e mais ondas vão surgindo, desaparecem e voltam a surgir.

O mesmo que sucede no universo em conjunto sucede em cada uma de suas partes, nos negócios humanos e na história das nações, que prosperam, declinam, voltam a prosperar e declinar, até desaparecerem.

O mesmo movimento de fluxo e refluxo observa-se no mundo religioso. A vida espiritual surge e desaparece em cada nação em períodos alternativos. A nação decai e parece submergir, porém se reabilita, regenera e sobrevem o fluxo, em cuja crista culmina o Instrutor, que impulsiona a regeneração da nação.

Tais são os Profetas do Mundo, os Instrutores e Redentores, os Mensageiros de Vida, as Encarnações de Deus.

Ao homem comum e ao teólogo disciplinado parece que só pode ser verdadeira a religião que professa e só pode haver um Redentor, um Salvador do Mundo, uma só Encarnação de Deus; porém não é assim, porque ao estudarmos as vidas dos grandes Instrutores, vemos que cada um deles esteve destinado a desempenhar somente uma parte da grande obra de educar e instruir. A harmonia consiste no perfeito acorde de todas as notas e não em uma só nota. Assim como ninguém se atreveria a dizer que um só povo tem direito de desfrutar do mundo, pois cada povo tem que desempenhar uma parte na divina harmonia das nações, sendo o conjunto total uma grandiosa sinfonia.

Portanto, nenhum Instrutor nasceu para reger perpetuamente o mundo. Nenhum conseguiu nem conseguirá dominar o mundo por completo.

A maioria dos povos nasce e cresce sob a influência de uma religião dogmática e embora falem de princípios e teorias, só os aceitam se procedem de determinado instrutor. Só compreendem o preceito por meio do exemplo.

Ao contrário, os homens mais evolucionados não necessitam de exemplos, nem que o ensinamento proceda de determinado instrutor, como fazem os homens comuns que adoram a um profeta, a um instrutor, a uma encarnação de Deus. Assim, os cristãos se prosternam aos pés do Cristo, os budistas aos pés de Buda e os hinduistas aos pés de Vishnu, Shiva ou Brama.

Os maometanos, desde o princípio, manifestaram-se contrários a semelhantes adorações, embora venerem uma multidão de santos.

Não é possível opor-se aos fatos e não é nocivo adorar aos Instrutores. Recordemos a resposta de Cristo ao apóstolo Felipe que lhe pedia: “Mostra-nos o Pai”. Cristo respondeu: “Quem vê a mim vê o Pai”.

Entretanto só podemos ver o Instrutor em seu aspecto humano, porque estamos atualmente constituídos de um modo que só nos é possível ver e sentir a Deus, encarnado em fôrma humana, embora esteja em toda parte.

A Luz vibra em toda a parte e, entretanto somente a vemos, quando irradia de um foco. Assim, quando Deus encarna em um foco humano, o povo vê a Luz Divina.

Todavia, os Instrutores vêm de modo diferente do nosso, porque nós vimos como mendigos e eles como imperadores. Vimos como órfãos, como quem perdeu seu caminho. Desconhecemos a finalidade da vida e perguntamos o que viemos fazer neste mundo. Hoje fazemos uma coisa e amanhã praticamos ato contrário. Somos como palha arrastada pela água ou como pena envolvida num furacão.

Na história do mando, entretanto, vemos que esses Instrutores, cuja missão está determinada desde seu nascimento, jamais se afastam sequer uma linha do plano traçado.

Vêm com uma missão, uma mensagem e, portanto, não necessitam oferecer razões. Jamais os Instrutores discutiram seus ensinamentos. Falaram diretamente porque viam a verdade. Para que discutir? Além de verem a verdade, mostraram-na e demonstravam-na.

Se alguém me perguntar se há Deus, dir-lhe-ei que sim, mas logo me pedirá provas do que afirmo. Então terei de responder como disse Cristo: “Contempla a Deus!”

Os Instrutores percebem a Verdade intuitiva e diretamente e não i discutem. Não vacilam porque tem a força convencedora da visão direta.

Quando vejo uma mesa, não há argumento algum que me convença de que não a vejo. É uma percepção direta. Tal é a fé dos Instrutores. Fé em seus ideais, fé em sua missão e sobretudo fé em si mesmos.

Os homens perguntam uns para os outros: “Crês em Deus? Crês na vida futura? Crês neste ou naquele dogma -” Porém, falta-lhes a base, a crença firmíssima no Eu individual.

Como pôde crer em outra coisa o homem que não crê em si mesmo?

Não temos certeza de nossa existência real. Às vezes, cremos que existimos e que nada nos pode prejudicar, mas no mesmo instante somos atacados pelo temor da morte. Às vezes temos convicção da nossa imortalidade e outras vezes ficamos abatidos, porque perdemos a fé em nós mesmos.

Os grandes Instrutores têm tanta fé em si mesmos, que não podemos compreendê-lo e por isso, procuramos explicar de mil modos o que os Instrutores disseram de si mesmos. Portanto, quando os Instrutores falam, os homens são obrigados a ouvi-los, pois cada uma de suas palavras está carregada de energia mental e explode como uma bomba. De que serve a palavra se não encerra energia mental? Que importa o idioma ou a concordância das palavras? Que importa se falam ou não em perfeito estilo gramatical ou com flores de retórica? O que importa é se há algo de proveitoso que dizer. As palavras são o veículo da mensagem. Aliás, às vezes é possível comunicá-la sem palavras.

Diz um versículo sânscrito:

“Vi o Instrutor sentado sob uma árvore. Era um adolescente de dezesseis anos e o discípulo era um velho de oitenta. O Instrutor pregava silenciosamente e as dúvidas do discípulo desapareceram”.

Assim é que, às vezes, o Instrutor não pronuncia palavra alguma e transmite sua mensagem mentalmente.

Os Instrutores são mensageiros que expedem a mensagem de modo imperativo; com voz de coroando disse Cristo: “Ide e dizei a todas as gentes que observem as coisas que eu mande!.” Em todas as palavras de Cristo, resplandece a profunda fé que tinha em sua mensagem. A mesma fé encontramos em todos os demais instrutores, que são como Deus vivo neste mundo e muito superiores a qualquer conceito particular que um indivíduo possa formar de Deus, pois não é possível formar conceito daquilo que se não experimentou e por isso não podemos ainda ter cabal conceito da misericórdia, da pureza e do amor. Por conseguinte, não é estranho que os homens adorem e venerem como deuses aos homens em quem vêem resplandecer, sem sombra, a pureza, a misericórdia e o amor.

É lícito discorrer sobre os conceitos pessoal e impessoal de Deus, Porém, falar e discorrer não e agir e os Instrutores são os verdadeiros deuses de todas as nações e de todas as raças. Esses homens divinos têm sido e serão adorados enquanto existir a humanidade. Neles está nossa fé, nossa esperança e nossa ardente e íntima realidade.

Para mim tem sido possível reverenciar a todos os Instrutores que já vieram e a todos os que eventualmente apareçam. Uma mãe reconhece seu filho em qualquer traje com que o veja; se não o reconhece forçosamente não é sua mãe.

Quanto aos que imaginam que a verdade e a divindade estão exclusivamente encarnadas no Instrutor a quem adoram, lhes direi que realmente não as reconhecem em ninguém, mas que se limitam a engolir palavras e se identificam com esta ou aquela seita, como se filiassem num partido político, por questão de idéias; isto, de modo algum pode ser religião.

Há quem prefira a água salobra à água doce, porque dizem que seu pai cavou o poço e saiu aquela água. Por experiência, estou convencido de que a religião não é culpada pelas maldades de que é acusada. A religião não perseguiu ninguém, nem queimou bruxas ou hereges. Culpados foram os homens, que encobriram seus intuitos políticos, sob a capa da religião.

Portanto, quando alguém diz que o Instrutor, ou Fundador de sua religião é o único verdadeiro, denota com isso ser completamente analfabeto em matéria de religião, porque a religião não é palavrório, nem teoria, nem aprovação intelectual. É o reconhecimento de nossa riqueza divina, é a união com Deus, é o convencimento de que o espírito humano está relacionado com o Espírito Universal e todas as suas manifestações.

Quem entrou na casa do Pai, como deixará de reconhecer seus filhos?

Se observarmos a vida dos grandes Instrutores de toda época e todo país, veremos que há apenas pequena diferença, entre eles.

Onde quer que a religião seja praticada, quando a alma se põe em contato direto com Deus, sua mente se dilata e então pode ver a luz em toda parte.

Os maometanos são os mais reacionários neste conceito, os mais sectários e fanáticos. Seu lema é: “Só há um Deus e Maomé é seu profeta”. Tudo que disto se afastar ou transcender é mau para os maometanos, deve ser imediatamente destruído e todo livro que ensine outra coisa deve ser queimado. Durante cinco séculos, os maometanos derramaram rios de sangue, do Atlântico ao Pacífico.

Não obstante, há entre eles quem sempre deplorou tamanhas crueldades, porque estavam em contato com Deus e reconheciam parte da verdade. Não expunham sua religião, nem falavam da religião de seus pais, mas sim da verdade direta.

Semelhança com a teoria da evolução nos oferece a biologia do atavismo, que também se manifesta na tendência que tem o homem de remontar às antigas Idéias religiosas; porém vale mais pensar algo novo, embora seja pior, do que estacionar no antigo, porque os erros e fracassos nos ensinam e o tempo é infinito. Uma parede Jamais nos dirá uma mentira. É sempre parede. O homem mente e com o tempo alcança a perfeição. Fazer algo, embora resulte em erro é melhor do que nada fazer. De que serve a vida, se não temos convicções e idéias próprias a respeito de religião?

Os cépticos podem adiantar algo porque embora difiram uns dos outros, pensam com seu cérebro, ao passo que quem jamais pensa por si mesmo, nada sabe de religião e vive como as ostras.

Se alguém diariamente nos pusesse o alimento na boca, perderíamos o uso das mãos. A atrofia espiritual é o resultado de seguir a opinião alheia, como um cordeiro atrás do pastor.

A diversidade é a beleza da vida e não devemos assustar-nos por causa dela, nem pretender uma uniformidade monótona.

Os que se relacionaram com Deus, verificaram que no mesmo instante “se desvaneceram suas dúvidas, os desvirtuamentos do coração se transmudaram e se romperam todos os laços da escravidão, porque viram Quem está mais perto daquilo que está ao alcance de nossas mãos e mais longe do que é longínquo.”

Isto é religião e nisto consiste toda religião. O demais são teorias, dogmas ou vários meios de alcançar a direta percepção da verdade; agora porém, lutamos ferozmente pela posse do cesto, sem notar que os frutos caíram no fosso.

Os Instrutores foram grandes e verdadeiros, porque cada um deles legou ao mundo uma idéia grandiosa. Eles surgiram como notas de uma grandiosa e harmônica sinfonia espiritual.

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