Arte da Índia III


Não tem como falar em arte da Índia sem lembrar de Bollywood, a índústria cinematográfica dos indianos. Há filmes realmente maravilhosos sendo produzidos lá, e há um deles que é meu favorito, o Jodhaa Akbar. Sem dúvidas foi um dos filmes mais lindos e emocionantes que eu já vi. Tudo nesse filme é uma obra-de-arte, desde os atores até as paredes dos palácios, que hipnotizam por tamanha beleza! O figurino é apoteótico, os atores protagonistas são maravilhosos, com algumas cenas de expressão corporal tão perfeitas que dispensam diálogos de mil palavras. Os cenários são magníficos, a trilha sonora é por si só, uma obra-prima! O filme é épico e conta a história de um grande Imperador Mughal e de sua esposa Jodhaa. Um casamento arranjado, por motivos políticos, que se torna uma lindíssima história de amor. Um amor especial, que floresce nos detalhes do cotidiano. É perfeita a forma como eles se cortejam e se conquistam, no dia-a-dia. Delicadeza, admiração, companheirismo e uma cumplicidade implícita, que transcende todas as tradições e a política.

Ele era muçulmano, como era tradição dos Mongóis, e ela Hindu, ou seja, duas religiões rivais. A rivalidade histórica entre essas duas religiões é “afrontada” por ele, que deseja um reino igualitário, já que pretende conquistar todas as terras da região, predominantemente Hindu. Por isso ele decide-se pelo casamento, o que é mal visto por quase todos os seus políticos, especialmente pelos representantes maiores do Islamismo dentro do seu reino. A situação ainda piora quando Jodhaa impõe condições para o casamento. Ela diz ao Imperador que somente se casará com ele se ele permitir que ela continue seguindo o Hinduísmo e suas tradições, e que um templo à Krishna seja construído dentro de seus aposentos. Um templo hinduísta dentro do palácio de um Imperador muçulmano. A transgreções das transgreções. No entanto é naquele momento, quando ele sente toda a força da personalidade ímpar de Jodhaa, que ele começa a se apaixonar por ela. Ele aceita as condições e eles se casam seguindo os rituais das duas religiões.

Então tudo corre, e num dia ele está em uma reunião com aproximadamente uns 5oo políticos, resolvendo questões do reino, quando o principal representante do Islamismo lhe coloca toda a insatisfação com o casamento dele com a Hindu. Eles ponderam e debatem sobre o tema, quando ao longe eles começam a ouvir o canto de uma mulher… Todos ficam em silêncio para ouvir e percebem que é a voz de Jodhaa, cantando para Krishna, uma música devocional (algo como música “gospel” hindu). Nesse momento o imperador é tomado por uma forte emoção, e como se o mundo inteiro tivesse sumido ao seu redor, levanta-se e começa a caminhar em direção àquela voz hipnotizante… Passa em meio à todos os políticos como se eles nem existissem alí, apaixonado e rendido pelo canto da esposa (detalhe, até alí eles nunca tinham tido nada, era um casamento de fachada, e eles se conquistavam aos poucos).

Quando ele está quase acabando de passar por todos, hipnotizado de amor, ele lembra-se onde e com quem estava, então apenas dá um giro com o corpo e fala para as centenas de homens perplexos que apenas o fitavam, que eles podiam se dispersar, como à dizer-lhes que “naquele momento havia algo muito mais importante à fazer”. Detalhe… Ele estava dispensando os políticos que lhe diziam do quanto estavam desgostosos com o casamento dele com uma Hindu e especialmente com o fato de terem um templo hindu dentro dos domínios islâmicos, para ir admirar a esposa rendendo culto à Krishna! A força do amor transgredindo e unindo duas potências religiosas secularmente rivais…! Ao fim ele sai dos aposentos dela, suspirando paixão, com aquela expressão de quem se pergunta “que mulher é essa, meu Deus?!”. E vai andando sem rumo pelo palácio, tomado de amor e plenitude! Lindo, lindo, lindo!

Há um detalhe que não mostra no filme, mas que é contado pela História. Esse Imperador acabou criando dentro de seu reino, uma seita que era bem universalista, unindo conceitos morais de diversas religiões, mas que acabou morrendo com ele, já que seus descendentes não tiveram interesse de prosseguir com ela, retornando, infelizmente, à rivalidade que dura até hoje, e que foi responsável pela criação do Paquistão e pela morte de Gandhi nos dias mais atuais.

Deixo o vídeo dessa cena, com a música, que é perfeita! E a tradução dela abaixo. É a típica música de adoração à um Deus, exatamente como as que os cristãos de hoje fazem para Jesus. Linda!


Encantador de Corações (A.R. Rahman)

Ó encantador do coração
Meu Krishna amado, me atenda
Como terei paz sem Você?
Noite e dia que eu anseio por Você
Abandone Suas cidades sagradas
de Kashi e Mathura
Venha e more em meus olhos
Como terei paz sem Você?
Meu Krishna querido,
noite e dia que eu anseio por Você
O Divino dançarino que reside
em Gokul em Vrindavan
Radha, sua criada,
anseia pela visão de Você
O belo filho escuro de Nanda,
Krishna querido
Ó habitante da floresta,
beleza é Sua forma
Me rendi de corpo e alma por Você
Ó Encantador de coração!
Pertenço a Você,
minha vida pertence a Você.
Te vejo em todas as coisas.
Me tornarei Sua flauta
e pertencerei apenas aos Seus lábios.
Meu coração é inundado com sonhos…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s