Simplicidade no Complexo


Às vezes eu me pergunto como consigo gostar tanto da Arte Indiana, se ela tem traços fortes de requinte em complexidade. Acho que é por ela ser muito detalhista. Muito, muito adorno, mas tão detalhista, que o detalhe em si, já é Arte por si mesmo. Penso que é o que mais me atrai na Arte e em tudo: o detalhe, a sutileza, o singelo, o simples. E da *união do simples*, constrói-se o que, olhando de longe, é complexo. Como a Humanidade. Nós somos únicos, cada um de nós é um “detalhe”, no entanto, imprescindível para a harmonia do todo complexo. Há muito, mas nada é supérfluo. Não gosto quando é supérfluo, portanto. O problema não é exatamente a quantidade, mas a falta de necessidade da quantidade. Acho que é por isso que, embora a Arte Indiana seja quantitativa, ela me atrai tanto, porque a quantidade dela não é supérflua, mas fundamental. Como exemplo há o Taj Mahal, que é uma obra arquitônica complexa, mas que nada nele é supérfluo. Se tirar algo, não fica tão perfeito! E o detalhe de não ser apenas uma obra-de-arte, mas uma declaração de amor, faz toda a diferença no conjunto da obra.

No modo geral, eu gosto do simples na Arte, não aquele simples que é apenas mistura de bases, mas aquele simples que contém o complexo. Eu gosto de tudo simples, mas não gosto do abstrato. Como o simples consegue ser complexo? Quando ele contém mil coisas em uma. Quando uma frase singela e sutil, por exemplo, encerra um conceito complexo e completo. O sânscrito, por exemplo, tem nesse ponto a sua maior beleza, para mim. Uma palavra pode conter um conceito completo. Você diz uma palavra e o outro te entende. Posso usar o nome desse blog como exemplo. A palavra Satya, quando é dita, já compreende-se que se trata daquela verdade interior, daquela verdade que é buscada por todos os seres divinos, aquela verdade que é a lealdade da alma, a virtude de Deus. Quando se fala Agraha, a mesma coisa, compreende-se que fala-se daquela firmeza de ideais, firmeza de carácter, daquela virtude do homem de bem em ser firme em seus propósitos. E quando se fala a palavra Satyagraha, compreende-se que o outro está referindo-se àquela firmeza virtuosa na vivência da verdade que habita o interior de todos os Filhos de Deus. Um conceito complexo e completo, numa única palavra. Isso me enternece, me encanta realmente.

Ao contrário é a Língua Portuguesa, uma das mais requintadas e empoladas que existe no globo. Nada na Língua Portuguesa é simples. Nada nela é completo e singelo. Tudo nela é complexo e prolixo. É o meu idioma nato, porque sou brasileira, e como fui uma aluna interessada, eu entendo e escrevo mais ou menos bem em português, mas gostaria de conseguir expor minhas ideias de forma mais simples. Simples, não vulgar. Nada como “internetês”, que não simplifica, só subtrai. Subtrair não é simplificar, é deixar incompleto. No simples o complexo é sutil, compreendido objetivamente e de forma completa, sem precisar de muito, nem de enfeites em demasia. No simples o pouco é completo ou o muito é essencial.

Continuando na Literatura, não gosto de textos com palavras enfeitadas, como colocações tão complexas que precisa-se recorrer à gramática para compreender o conceito. Ou de textos tão enfeitados, que pode até ser belo, mas transparece uma imensa vaidade do escritor, como a mulher que faz um monte de plásticas, fica mais bonita e perfeita, mas tão artificial e exagerada. Gosto de coisas mais objetivas, claras e singelas, e acho que por isso sou tão apaixonada pela Arte dirigida ao público infantil. Todo artista que se dedica às crianças têm os traços que me atraem. O livro “O Pequeno Príncipe” é um exemplo do que digo. Simples, singelo, com conceitos complexos e completos, que tocam a alma tanto das crianças, como dos adultos de todas as idades. Gosto do que as crianças conseguem entender, e ao mesmo tempo do que consiga fazer um adulto aprofundar.

Essa simplicidade pode extender-se para todos os pontos da Vida. O menos com sabedoria. O menos com qualidade. Seja no falar, no agir, no trabalhar, no estudar, no relacionar, no presentear, na religiosidade, em tudo. Para mim, uma única coisa com qualidade vale mais que mil coisas com a mesma qualidade. E não raras vezes, mil coisas não tem a qualidade de uma.

Anúncios

Um comentário sobre “Simplicidade no Complexo

  1. Pingback: Simplicidade e Caridade « Satyagraha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s