Inocente e Prudente


Há uma frase que atribui-se à Jesus que sempre me foi um tanto intrigante, porque aparentemente são posições antagônicas. Ele disse:

“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas”. (Mateus 1:16)

Como conseguimos ser simples, puro, inocente como as pombas e ao mesmo tempo prudentes como as serpentes? Uma coisa exclui a outra. Se sou inocente e simples de coração, não sou prudente, mas confiante. Se confio na bondade que há em todo ser humano, não sou prudente. Se espero sempre que o outro seja bom, não sou prudente. Como ser as duas coisas ao mesmo tempo? Eu não sei.

Pensei, por isso, que ser prudente talvez seja nos guardar do mal, no sentido de não dar conseções à ele. Não abrir a porta para o mal dentro do nosso coração como se ele fosse inofensivo. Não dizer, diante do que nos faz mal, do que é vício e imperfeição moral, “ah, que tem demais fazer isso só hoje?”. Ou algo como “ah, não sou perfeita mesmo, então vou ser egoísta, tô nem aí!”. Ou até com aparentes “bobagens”: “ah, eu sei que essa música foi inspirada pelas trevas, mas eu gosto tanto dela, dane-se as energias!”. E assim com tudo que nos faz mal e que permitimos vivenciar como se o mal não fosse perigoso. Muitas vezes não vemos o perigo das coisas que fazemos e nos permitimos viver, e para essas coisas acredito mesmo que Deus nos guie e ajude à encontrar e ver a segurança. Mas quando nós sabemos que algo faz mal, quando sabemos dos perigos e mesmo assim nos permitimos, então penso que é quando precisamos aprender a sermos prudentes como as serpentes. Conhecer o mal não é necessariamente viver o mal. Podemos e devemos identificar os sinais do mal em todo lugar para que, prudentes, possamos evitá-lo. Mas identificar é diferente de procurar. Uma coisa é ter lucidez para perceber quando algo é mal, outra é ter malícia para procurar pelo mal…

Entendo como sendo a única forma de ser simples e inocente como as pombas e prudentes como as serpentes. Mantemos a nossa luta diária e constante pela melhora interior, pela auto-iluminação, mantemos a tentativa de manter a simplicidade, a inocencia e a pureza das pombas diante das pessoas, esperando sempre que a bondade delas se manifeste, ao mesmo tempo que vigiamo-nos constantemente para evitarmos que o mal se aloje em nós.

Ao mesmo tempo, pelo contexto da frase, parecia que Jesus referia-se à ser prudente com o mal alheio, com os lobos. Nisso que tenho dificuldade, porque como eu consigo manter a simplicidade e a pureza de alma diante do mal alheio e ao mesmo tempo buscar me precaver desse mal? Ser prudente dentro de uma alcatéia é fácil, até nosso instinto de sobrevivência fala mais alto e somos precavidos por defesa natural. Mas e quando o lobo se veste de ovelha? Como ser simples de coração e prudente ao mesmo tempo, diante de uma ovelha? Não vejo como… Ou entregamos o coração à ovelha correndo o risco dela ser um lobo e sofrendo as consequências acaso seja, ou então resguardamos sempre o nosso coração, para impedir que um lobo em pele de ovelha nos traga o mal.

Não consigo entender como conciliar as duas recomendações do Mestre diante do mal alheio. Essa sempre foi uma das minhas maiores dificuldades. Só consigo conciliar isso quando já sei que com aquela “ovelha” eu tenho que tomar cuidado, porque já vi o mal vindo de lá. Fora isso, não sei como ser as duas coisas ao mesmo tempo. Penso mesmo que “ser enganado” é natural e inevitável para quem tenta sempre ter esperança e confiança na bondade e na divindade que existe dentro de todo Filho de Deus. E diante disso temos apenas a escolha de reagir diante disso com o coração bondoso, perdoando sempre, ou seja, aprendendo a lidar com o “depois”, porque com o “antes” acho que não tem como. Como podemos entregar nosso coração e aceitar o coração dos outros, nos precavendo de sermos enganados? Não tem como. Amar as ovelhas de Deus é correr o risco constante de encontrar com lobos. E no fim acabamos aprendendo a amar os lobos também…

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3 comentários sobre “Inocente e Prudente

  1. Ah, Lu, acho que a resposta está mesmo na sua última frase:
    “E no fim acabamos aprendendo a amar os lobos também…”
    O resto é trabalhar para que não nos deixemos entregar as maldades que nos rodeiam, para que em nós elas não façam moradia!
    Sempre que passo por aqui, levo um aprendizado novo!!!!
    Grande abraço!

  2. Você tem o mesmo nome de uma amiga minha.
    Li o que você escreveu, com um nó na garganta; já apelidei esse nó de ” o nó na garganta da anta”. Deveria reler o que vc escreveu, e também as minhas frases – tenho a desagradável mania de invertê-las e não conseguir decidir qual é a forma correta. deixa quieto, pq dá para compreender o conteúdo. Fiquei pasma com as suas leituras!
    As serpentes são prudentes? Tendo a pensar no animal serpente… Verdade, são prudentes, ou talvez seja da natureza que sejam “na delas”. Penso nas serpentes enquanto símbolos da sabedoria… Sabedoria também é prudente.
    Detesto que me chamem de ingênua, de crédula, e não gosto de pombas; não compreendo pq são símbolo de tantas coisas bonitas.

    ” Se sou inocente e simples de coração, não sou prudente, mas confiante. Se confio na bondade que há em todo ser humano, não sou prudente. Se espero sempre que o outro seja bom, não sou prudente. Como ser as duas coisas ao mesmo tempo? Eu não sei.”

    Também não sei, e lá vem o nó na garganta da anta! Entretanto, penso que a simplicidade é uma das coisas mais complexas que existem. O “simples” é complexo, talvez pq o olhar do outro não esteja preparado para compreender e, consequentemente, fique a buscar algo mais que nunca vai encontrar pq não há nada para além daquilo que se vê. Também não sei! Interrupção para chorar muito!

    “Pensei, por isso, que ser prudente talvez seja nos guardar do mal, no sentido de não dar conseções à ele. Não abrir a porta para o mal dentro do nosso coração como se ele fosse inofensivo.”

    Seria necessário conseguir ver o mal. Como se faz para ver o mal, o mal que não é óbvio, pq o óbvio é relativamente fácil. Ver o mal? Mal não está vestido de mal, não tem cara de mal, nem cheiro de mal, talvez tenha, não sei. Sei que em tudo, e isso inclui o mal , existe uma centelha de luz divina, e é dificílimo não percebê-la, ou percebê-la e ignorá-la, ou conseguir reduzir o mal à simplicidade da visão do mal.

    Sei como caminhar através do mal sem me contaminar, mas não sem me machucar. talvez a resposta seja caminhar através do mal, conseguir fazer brilhar a sua centelha divina e não se machucar… Eu não consigo! Vejo as duas coisas e me conecto com o divino, mas percebi, só agora percebi, que para fazer isso ignoro o mal e por mais que ele se revele continuo a ignorá-lo até que algo de muito sério aconteça e como uma criança abro os olhos numa perplexidade que parece não ter fim.

    Eu mesma me repito constantemente: É da natureza do felino ser felino… Não se deve esperar que ele seja outra coisa, ou esquecer o que ele é, pois cedo ou tarde ele vai honrar a própria natureza.

    Chega, já nem sei o que era para ser: Serpente, ovelha, pomba, anta?
    Amar é fácil pra caramba! Amar o outro que não tem rosto, amar o outro que tem rosto, amar a humanidade em todas suas contradições; difícil mesmo é aprender a ser desconfiada. Difícil mesmo é não emprestar o seu olhar mágico, divino, crédulo e bobo, e ver o outro sem lhe separar a luz, da treva. Eu bem que tento, mas sou distraída demais e no caminho sempre esqueço de que tudo tende a honrar a própria natureza, e ainda assim não sentir essa tristeza de não acrescentar.

    Beijo-Joyce Mobley

  3. Boa Noite! Li a sua interpretação e analisando a frase posso dar uma sugestão minha sobre o ensinamento. A prudência a que se refere é ter vigilância com seus pensamentos e discernimento quanto às diversas situações distorcidas que nos deparamos ao longo do caminho. Seja maus conselhos ou mesmo ilusões da nossa personalidade. Realmente vivemos em um mundo infestado de “lobos” e devemos ter sabedoria para agirmos da melhor forma com humildade.

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