Autobiografia de Gandhi – Introdução


Eu realmente nunca me canso de ler a introdução da Autobiografia de Gandhi. É tão perfeita que só ela já bastaria para o livro ter um valor incalculável. Mas não satisfeito em nos presentear com obra tão rara, ele ainda escreveu mais 420 páginas adiante! Agora um detalhe que não passa despercebido. Se Yogananda não estivesse, ao mesmo tempo que Gandhi, lá nos EUA, escrevendo sua autobiografia também, poderia dizer que um leu o livro do outro, porque essa introdução tem tanto, mas tanto das idéias de Yogananda! A tal da universalidade das idéias íntimas dos espíritos francamente superiores que nos visitam de vez em quando! Deixo aqui o trecho que leio sem cansar:

Introdução

(…) Mas um amigo religioso questionou-me a respeito:
-O que o leva a embarcar nessa aventura? – perguntou-me. – Escrever autobiografias é uma prática típica do Ocidente. Não conheço ninguém no Oriente que as tivesse escrito, com excessão dos que se ocidentalizaram. Além do mais, sobre o que escreveria? Suponha que amanhã o senhor rejeite os princípios que o orientam hoje, ou então que suas intenções presentes não sejam as mesmas no futuro. Não é provável que as pessoas que se espelham em sua palavra, escrita ou falada, se sintam desorientadas? Não acha que é melhor não escrever nada parecido neste momento?

A argumentação de meu amigo causou-me impacto. Não é minha intenção escrever propriamente uma autobiografia. Apenas desejo contar a história de minhas várias experiências com a verdade. Uma vez que minha vida está repleta delas, pode-se dizer que a história tomará a forma autobiográfica. Mas nada disso importa, contanto que cada página do livro relate apenas essas experiências. Embora possa parecer um auto-elogio, acredito que um relato pessoal delas será benéfico ao leitor. Minha atuação no campo político é do conhecimento de todos, não apenas na Índia, mas de uma certa maneira no mundo “civilizado”. Não a considero de grande valor, e muito menos o título de Mahatma, que me foi concedido. Na verdade, o título causou-me muito sofrimento e não consigo lembrar de um único momento em que tenha me agradado. Contudo, acredito que terei imenso prazer em narrar minhas experiências no campo espiritual, que são do meu conhecimento apenas e de cuja força me alimento para conseguir trabalhar na política. Se sua natureza for verdadeiramente espiritual, não há espaço para o auto-elogio. Elas apenas tornam-me mais humilde. Quanto mais reflito sobre o passado, mais minhas limitações se fazem presentes.

O que pretendo alcançar, o que na verdade venho tentando ansiosamente alcançar nos últimos trinta anos, é a auto-realização, encontrar-me frente a frente com Deus, atingir o moksha [liberação, redenção espiritual – o bem humano definitivo]. Minha vida e meu ser caminham em função deste objetivo. Tudo o que faço, falo e escrevo, todas as minhas incursões no campo político, têm essa finalidade. Como sempre acreditei que aquilo que é possível para mim é possível para todos, minhas experiências não acontecem às escondidas e sim abertamente, o que em nada diminui o seu valor espiritual. Há coisas a nosso respeito que só Deus e nós mesmos sabemos. O que narrarei aqui não são dessa natureza. São acima de tudo vivências de natureza espiritual e também moral, pois a essência da religião é a moralidade.

Incluirei nesta história somente os aspectos da religião que possam ser compreendidos por todos, inclusive crianças e idosos. Creio que ao narrar minhas vivências com o espírito desprendido e humilde, as pessoas poderão encontrar subsídios para seguir seu caminho por meio das suas próprias trajetórias. Com isso, não estou absolutamente insinuando que minhas experiências sejam perfeitas. Dispenso-lhes a mesma importância que um cientista, cujos experimentos são conduzidos com precisão, intuição e minúcia, mas que jamais chega a um resultado absoluto e sempre mantém a cabeça aberta. Passei por vários estágios de introspecção, vasculhei meu interior e analisei cada aspecto psicológico das situações. Mesmo assim, estou longe de qualquer conclusão final ou infalível a respeito do que vivi.

Esses experimentos me parecem absolutamente corretos e por enquanto definitivos. Do contrário, não basearia minhas ações neles. No processo de aceitação ou rejeição de cada estágio de minhas experiências, tenho agido com responsabilidade. à medida que minhas ações satisfizerem razão e coração, irei, sem dúvida, manter-me fiel às minhas conclusões.

Se fosse discutir apenas princípios acadêmicos, certamente não estaria tentando escrever uma autobiografia. Como meu objetivo é fazer um relato das aplicações práticas desses princípios, dei-lhes o título de A História de Minhas Experiências com a Verdade. É claro que aqui estarão incluídos meus experimentos com a não-violência, o celibato e outros princípios de conduta considerados distintos da verdade. Para mim, a verdade é um princípio soberano, que engloba vários outros. Ela não é apenas a autenticidade da palavra, mas também a do pensamento. Não é a verdade relativa de nossa percepção, mas a Absoluta, o Princípio Eterno, que é Deus. Há inúmeras definições de Deus, porque são inúmeras as Suas manifestações, que inundam meu ser de admiração e respeito e, ao mesmo tempo, me atordoam. Venero a Deus como sendo a Verdade Única.

Ainda não O encontrei, mas continuo a procurá-Lo. Sinto-me preparado para sacrificar o que tenho de mais valioso em função dessa busca. Se for necessário, espero estar pronto para oferecer até minha própria vida. Mas, enquanto não assimilar a Verdade Absoluta, devo ater-me à relativa, da forma como a concebo, para que me ilumine e proteja. Embora o caminho seja penoso e arriscado, para mim tem sido o mais fácil e rápido de seguir. Até mesmo meus desatinos, grandes como os Himalaias, parecem-me insignificantes, pois tenho me mantido resoluto no caminho. Esse caminho impediu-me de entrar em desespero e ajudou-me a ir de encontro à minha luz.

Nessa jornada, tive pequenos vislumbres da Verdade Absoluta, de Deus, e a cada dia cresce minha convicção de que só Ele é real e tudo mais é irreal. Para os que se interessarem, exponho aqui como cresceu em mim esta convicção. Outra certeza inabalável é que o que é possível para mim o é até para uma criança, e tenho motivos para fazer tal afirmação. Os instrumentos de busca da verdade são ao mesmo tempo simples e complexos. Podem parecer impossíveis para uma pessoa orgulhosa, mas acessíveis a uma criança inocente. Aquele que busca a verdade deve, antes de tudo, ser tão humilde quanto o pó. O mundo pisa sobre o pó, mas quem persegue a verdade deve ser tão humilde que mesmo o pó poderia pisá-lo. Somente assim, vislumbraremos a verdade. O diálogo entre Vasishtha e Vishvamitra ilustra maravilhosamente essa experiência, assim como os preceitos do cristianismo e do islamismo.

Se o que escrevo nessas páginas parecer vaidade aos olhos e sentimentos do leitor, minha busca deverá ser então questionada, e meus vislumbres terão sido apenas uma miragem. A verdade deve prevalecer sempre, mesmo que para isso centenas de pessoas tenham de morrer. Portanto, ao julgar as palavras de um simples mortal como eu, não deixem que a verdade se enfraqueça nem por um milésimo de segundo.

Rezo para que ninguém considere definitivas as opiniões deste livro. As experiências aqui descritas devem ser tomadas apenas como ilustrações pessoais, da mesma forma que todos os indivíduos trazem em si vivências próprias, segundo sua inclinação e capacidade. Espero que, nesse contexto, minhas ilustrações possam ser úteis. Não esconderei ou omitirei qualquer coisa que deva ser dita a meu respeito, mesmo as ruins. Pretendo revelar ao leitor todos os meus defeitos e erros. O propósito maior é narrar o que vivi à luz do satyagraha e não vangloriar-me dos meus feitos. Na minha autocrítica, tentarei ser tão duro quanto a verdade, que é o que espero dos outros. Vendo-me por esse ângulo, devo esclamar, juntamente com Surdas:

Existirá um ser tão pérfido
e desprezível quanto eu?
De tão descrente de tudo,
abandonei meu Criador!

É muito doloroso e torturante perceber-me tão distante do Criador, aquele que é meu Pai e governa cada sopro de minha vida. Sei muito bem que são os sentimentos primários que carrego dentro de mim que me mantêm tão afastado d’Ele. Mesmo assim, não consigo evitá-los.

Devo encerrar esta introdução por aqui. Minha história começa no próximo capítulo.

M. K. Gandhi
Ashram de Sabarmati
26 de Novembro de 1925

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3 comentários sobre “Autobiografia de Gandhi – Introdução

  1. Nunca havia lido tão simples e tão eficaz pensamentos. Cada vez que leio alguma coisa lque me toca o coração, descubro e avalio o quanto somos pequenos diante de almas tão nobres. Deus o9 tenha no seu aprisco e os seus escritos continuem a iluminar aquels que tem sede de saber e justiça.

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