Deus e o Mundo


“Que o sábio não confunda a mente dos ignorantes que trabalham pelo ganho, procurando encorajá-los a abster-se de trabalhar. Ele só deve ensiná-los a servir com devoção”. (Bhagavad-Gita – 3:26)

Essa passagem da Bhagavad-Gita é tão explícita relativamente a importância do homem ser útil à harmonia social com seu trabalho, que fica difícil compreender porque muitos dos ditos santos da Índia deixam de trabalhar para buscarem Deus. Vivem de esmolas que nunca lhes falta, porque esse comportamento, estranhamente é muito respeitado e tido como renúncia mundana, mesmo com Krishna tendo sido tão claro em sua recomendação. Aliás, a Bhagavad-Gita começou justamente porque o Príncipe Arjuna estava desgostoso diante de seus deveres perante o reino, e Krishna, também da realeza, que se fizera cocheiro de Arjuna para lhe ajudar em seus deveres diante do contexto em que vivia, começa a lhe instruir. E em cima desse ponto central, Krishna dá todas as orientações sobre dever e espiritualidade, que se transformaram nessa escritura. Então ver pessoas, que seguem essa escritura, a divulgam e interpretam, e são respeitados por isso, abandonando todos os seus deveres no mundo para viverem como ascetas itinerantes, vivendo de esmolas, é um tanto… contraditório. Tudo bem que para eles os deveres espirituais estão acima dos deveres do mundo. Realmente estão, mas colocar um dever acima de outro, não quer dizer abandonar o outro, mas priorizar. Se assim fosse, Krishna não teria dito para Arjuna lutar, mas para abandonar o campo de batalha e ir viver em alguma floresta como eremita.

Então fica mais fácil de compreender porque Babaji preparou para seu discípulo mais nobre – Lahiri Mahasaya – uma reencarnação inteira para servir de exemplo aos homens que buscam Deus. Ele deveria, não largar o mundo pela busca de Deus, mas viver em família e em sociedade normalmente, ter esposa, filhos, trabalho e vida social, ao mesmo tempo que vivia com e para Deus em cada passo que desse. Que suas atitudes no mundo fossem extensões da Vontade de Deus. E disse que sua missão era essa: mostrar ao mundo que um homem pode se auto-realizar em Deus, seguindo todos os seus deveres como cidadão. Que a renúncia ao mundo poderia ser feita vivendo no mundo. Que o homem, em suma, deveria levar Deus para o mundo através de suas atitudes santificadas dentro do seio doméstico e social, e não deixar o mundo para encontrar com Deus à sós.

E foi então que Lahiri sentiu o desejo que ensinar à qualquer pessoa como se auto-realizar, tirando de um grupo seleto de pessoas esse conhecimento e divulgando-o à qualquer homem de boa-vontade que desejava Deus. Babaji percebeu que no desejo de seu discípulo estava a Vontade de Deus, e o autorizou. E então muitas outras almas renasceram para lhe ajudar na divulgação dessa sua verdade, entre elas Paramahansa Yogananda, que trouxe para nós ocidentais, não só o conhecimento sobre Kriya Yoga, como também o exemplo do grande Mestre Indiano. Trabalhar e ser útil à sociedade e à família, encontrando Deus em si e extendendo-o em todas as suas atitudes perante o mundo e as criaturas.

Termino com uma frase de Paramahansa Yogananda, de seu livro Autobiografia de um Iogue, que “para variar”, estou relendo:

“Um homem verdadeiro é o que vive com retidão entre seus companheiros, o que compra e vende e, todavia, nem por um instante esquece Deus!”


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