Gandhi e o Ahimsa


Ontem comprei um livro maravilhoso de Mahatma Gandhi. Estou devorando-o, de tão bom, simples e profundo. É o “Cartas a Ashram”, um conjunto de cartas que ele escreveu à seus colaboradores do Ashram Satyagraha, durante uma de suas prisões. Logo no segundo capítulo, eu me impressionei com o texto “Amor (Ahimsa)”. Poucas vezes na vida li conceitos tão elevados, sublimes, profundos e incondicionalmente altruístas, colocados de forma tão simples, completa e encantadora. Um texto que contém um roteiro para uma vida inteira! Ao lermos essas cartas, que são mais íntimas e ao mesmo tempo universais, conseguimos ver claramente a elevação de sua Grande Alma. Tive que transcrever o texto e publicar aqui, de tão encantada que fiquei!

AMOR (AHIMSA)

Na semana passada vimos que o atalho da Verdade é tão estreito quando certo. podemos dizer o mesmo com relação ao ahimsa. É como se nos equilibrássemos na lâmina de uma espada. Um acrobata, concentrando-se em suas faculdades, pode dançar sobre uma corda suspensa. Mas é necessária uma concentração muito maior agora para seguir a vereda da Verdade e do ahimsa. A mais ligeira distração traz queda. Não é senão através de um esforço incessante que podemos chegar a realizar em nós a Verdade e o ahimsa.

É-nos impossível realizar a Verdade perfeita enquanto formos prisioneiros deste envoltório mortal. Não podemos senão representá-lo pela imaginação. Nosso corpo efêmero não é um instrumento com o qual possamos ver face à face a Verdade, que é eterna. Por essa razão somos levados, finalmente, a contar com nossa fé.

Parece que a impossibilidade de realizar plenamente a Verdade com nosso corpo mortal dá, entretanto, a oportunidade a qualquer ansião que com prudência busca a Verdade, de avaliar o ahimsa. O problema dianto do qual nos defrontamos é o seguinte: “Suporto os que me trazem dificuldades ou os destrui”? Compreende-se, então, que aquele que persiste em destruir os outros seres não vai avante, mas fica simplesmente, onde está, enquanto que aquele que suporta as criaturas que lhe criam entraves vai avante, e leva mesmo, às vezes, outras pessoas consigo. Consequentemente, quanto mais se recorre à violência, mais longe se está da Verdade. Pois lutando contra o inimigo que se procura, no exterior, negligencia-se o inimigo interior.

Castigamos os ladrões porque nos cremos perseguidos por eles, mas se eles nos deixassem tranquilos seria unicamente para atacar algum outro indivíduo. Ora, a outra vítima é também um ser humano, isto é, nós mesmos sob forma diferente, e assim caímos num círculo vicioso. O problema criado pelos ladrões continua a crescer, pois eles consideram o roubo como seu trabalho. Por fim, não percebemos que é preferível suportar os ladrões a persegui-los. Talvez nossa paciência os amenize nos sentimentos. Suportando-os, poderemos compreender que eles não são diferentes de nós, que são nossos irmãos, nossos amigos, e que não devemos puní-los. Mas enquanto suportamos os ladrões, não é preciso que nos resignemos ao que está errado. Isto seria indigno! É então que descobrimos um novo dever. Se consideramos os ladrões como membros de nossa família, é preciso mostrar-lhes tal parentesco. Devemos nos esforçar para encontrar os meios de fazê-los vir até nós. Eis o caminho da ahimsa. Este caminho pode provocar sofrimentos contínuos, e nos obriga a cultivar uma paciência infinita, mas se tais condições forem aceitas, o ladrão será forçado a renunciar a sua vida errada. E assim, passo a passo, chegaremos a estabelecer relações de amizade com o mundo inteiro; compreenderemos a grandeza de Deus, da Verdade. A paz de nosso espírito será mais profunda, apesar dos sofrimentos; tornar-nos-emos mais corajosos e empreendedores; compreenderemos mais claramente a diferença entre o que é eterno e o que não o é; aprenderemos a distinguir entre o que é nosso dever e o que não o é. Nosso orgulho cederá e nos tornaremos humildes. Nossos laços terrestres se relaxarão e o mal que há em nós diminuirá dia a dia.

O ahimsa não é uma coisa simples e grosseira que possa ser descrita. Não fazer o mal a nenhum ser vivente é, sem dúvidas, uma parte do ahimsa, mas isto não é mais que um pequeno aspécto. O princípio do ahimsa é uma luta contra todo pensamento mau, toda precipitação, injustificada, contra a mentira, o ódio, o fato de desejar o mal a qualquer pessoa. Violaremos tal princípio se retivermos conosco o que o mundo tem carência. O mundo precisa do que comemos a cada dia! Há milhões de microorganismos aos quais o lugar que ocupamos pertence, e nossa presença os faz sofrer. Então, que fazer? Suicidar-nos? Esta não é a solução, pois nós admitimos que o espírito, que é ligado à carne, torna-se um corpo novo assim que o antigo é destruído. O corpo somente cessará quando não tivermos com ele nenhuma relação. Esta libertação de todos os laços é a realização de Deus como Verdade. Tal realização não pode ser feita antes do seu tempo. O corpo não nos pertence. Enquanto durar, devemos servir-nos dele como uma coisa que nos foi confiada e da qual somos responsáveis. Considerando também o que pertence à carne, podemos esperar, um dia, a libertação do corpo. Compreendendo as limitações às quais a carne está sujeita, devemos, cotidianamente, esforçar-nos em direção ao ideal, com toda força que temos em nós.

O que foi dito terá, talvez, feito compreender que sem o ahimsa é impossível procurar e encontrar a Verdade. O ahimsa e a Verdade estão tão estreitamente ligados que é impossível separar um do outro. São como duas faces de uma medalha, ou de um disco de metal liso e sem impressão alguma. Quem poderá saber qual é o verso e qual o reverso? Entretanto, o ahimsa é o meio e a Verdade é o fim. Os meios, para serem meios, devem estar ao nosso alcance; o ahimsa é nosso dever supremo. Se aplicarmos os meios com prudência, estejamos certos de que, mais cedo ou mais tarde, chegaremos ao fim. Uma vez que compreendamos isto não pode haver dúvida quanto à vitória final. Quaisquer que sejam as dificuldades a defrontar, quaisquer que sejam as derrotas a que aparentemente nos submetemos, não nos é permitido abandonar a procura da Verdade, que somente é, pois que ela é Deus Ele-mesmo.

Mahatma Gandhi
(Cartas a Ashram – Capítulo 2)

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