Humildade e Superação


“Ao ver-me diante de um paciente em processo psicoterápico ou diante de algum aluno, vai amadurecendo cada vez mais a minha certeza de que nós nos fazemos grandes a partir de nossas pequenezas. Uma pessoa equilibrada não é aquela que não tem conflitos e sim aquela que conseguiu superá-los e harmonizar-se. Uma pessoa normal não é alguém que nunca sofreu nenhuma patologia: é alguém que, tendo tomado consciência de sua patologia, trabalhou à si mesma pela normalidade. Portanto, um otimista não é um ingênuo: é alguém que ultrapassou o seu pessimismo, positiva e construtivamente”. (Dr. José Luiz Archanjo – Prefácio de “A Roca e o Calmo Pensar” – Gandhi)

Achei essa colocação fantástica! Na verdade achei todo o prefácio escrito por José Luiz Archanjo, para o livro “A Roca e o Calmo Pensar”, de Gandhi, de uma beleza e profundidades impecáveis! Mas essa colocação em especial me chamou a atenção, porque raramente vemos colocações engrandecendo as dificuldades pelas quais passamos. Por um movimento natural de busca pelo prazer de viver, nós colocamos sempre as nossas dificuldades como as grandes vilãs das nossas vidas, sem nunca bendizê-las ou dar-lhes tamanho valor ao ponto de colocá-las como as grandes responsáveis pelo nosso crescimento.

Mas refletindo como o autor, nós paramos para pensar na nossa vida e vemos o quanto de razão e sabedoria há nessa colocação. Realmente são as dificuldades que nos transformam em seres humanos mais maduros, mais capazes, mais consciêntes, mais grandiosos.  A nossa pequenez está constantemente nos convidando ao crescimento, e a cada momento que vemos o quão grande ela é, mais nos esforçamos para lhe superar, e como consequência natural, mais crescemos.

Podemos então dizer que, por esse raciocínio,  o nosso crescimento está umbilicalmente ligado ao grau de nossa humildade. Sim, porque aquele que se crê grande e sem dificuldades, não consegue se aprimorar, até porque não se crê necessitado de aprimoramento. E nisso o ser estaciona espiritualmente (embora possa crescer muito materialmente) e passa ano após ano, século após século, rodando em volta de sua própria pequenez, sem jamais ter a coragem de olhar para ela, e encarar o quão pequeno ainda é. O orgulho nos faz isso, até que um dia a Vida nos obriga a olhar para nossa imaturidade e pequenez, e junto com a dor da constatação dessa realidade, damos nossos primeiros passos na humildade. E então, nem que seja por um pouco de orgulho até, desejamos crescer, superar nossos problemas.

Às vezes não, porque às vezes a dor por ser pequeno é tão grande e devastadora, que o ser prefere crer-se vítima do mundo e das pessoas, prefere destruir o que está por fora em vez de transformar o que está por dentro. É menos dolorido crer-se injustamente irreconhecido, injustamente detestado, injustamente mal-amado. Nunca ele tem coragem de admitir que o problema está apenas com ele, que ele é mesmo muito pequenininho e cheio de defeitos à serem não só admitidos, mas sobretudo *superados*. Tal qual diz no texto, a pessoa é equilibrada porque superou-se acima de seus conflitos e se harmonizou. Ele não disse que ela perdeu os conflitos, mas que cresceu diante deles, e tornou-se maior que eles. Os conflitos foram a grande mola propulsora para seu crescimento. Foi da necessidade de busca pelo prazer e bem-estar, que o ser superou a sua dificuldade e cresceu.

É assim sempre, em toda a história, desde as cavernas até os grandes arranha-céus das cidades de hoje. Se há uma doença fazendo a população sofrer, busca-se a cura muitas vezes com descobertas inéditas. Se existe dificuldade, seja qual for, existe o impulso para a superação da dificuldade com consequente crescimento. Não adianta muito destruir a dificuldade, porque ela sempre pode voltar de outras mil formas. O ideal é se colocar acima dela, se superar, para que ela não seja mais uma dificuldade, embora continue sendo a mesma coisa de sempre. Uma doença continua sendo doença, mas a pessoa estará vacinada, e não será mais atingida pela doença. A fome continuará sendo fome, mas a pessoa terá encontrado um trabalho e terá como comprar comida. O frio continuará existindo, mas a pessoa terá encontrado um casaco para lhe resguardar.

Por isso não adianta se revoltar diante da dificuldade e desejar simplesmente a destruir, como se fôssemos crianças birrentas e agressivas, que destróem a bola que não entra no gol. Temos que aprender a jogar a bola, e não exigir que a bola entre, mesmo conosco sendo verdadeiros “pernas-de-pau”. O difícil é o jogador vaidoso e orgulhoso assumir que é um “perna-de-pau” e que, portanto, precisa aprender a jogar a bola. Diante disso podemos supor que a nossa maior dificuldade real de crescimento é o orgulho, na mesma proporção que o egoísmo nos impede de amar e doar, e não qualquer coisa que esteja fora de nós, sejam os obstáculos da vida, sejam as pessoas difíceis.

A humildade, portanto, é a nossa escada sem fim rumo ao aperfeiçoamente, porque sem nos reconhecermos verdadeiramente pequenos, falíveis e imperfeitos, jamais teremos o verdadeiro impulso de crescimento. Ficamos parados, esperando que algo ou alguém remova nosso foco de dificuldade, como um Rei orgulhoso espera que seus escravos limpem o tapete por onde ele quer passar. Ninguém vai remover a sujeira dos nossos tapetes, porque são justamente essas sujeiras as ferramentas de Deus para nos educar, nos amadurecer e nos fazer grandes! Enquanto nós mesmos não as ultrapassarmos, enquanto não assumirmos que elas são de responsabilidade apenas nossa, vamos ficar fingindo para nós mesmos que a sujeira não é da nossa conta e exigindo que a retirem, para que possamos “ser felizes”, quando a felicidade real está em andar pelo tapete sujo sem sujar os pés… Mas para isso precisamos ser, como Gandhi falou, menores que o pó onde pisamos.

Parafraseando Gandhi: “A Verdade não será alcançada por aquele que não tem em si compreensão extensa de humildade. Se quiser nadar no Oceano da Verdade será preciso reduzir-se à zero. O Ahimsa é o extremo limite da Humildade”.

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