Fé, Filha do Medo


Eu gosto muito dos textos de Max Lucado, um famoso orador evangélico americano, e acompanho sempre com muito prazer as mensagens que são postadas em sua página em português. Mas hoje li uma que me tocou profundamente, e muito pessoalmente. Como todos nós aqui na Terra, volta e meia estamos atravessando tempestades e precisamos ter a fé expandida e revigorada, deixo aqui a mensagem do Max e também uma delicada poesia que recebi de minha mãe espiritual, sintetizando de forma tão profunda e completa, todo o texto de Max. Que Deus abençoe suas almas, por terem nos trazidos tão belas expressões de suas próprias experiências.

Medo que se tranforma em Fé (Max Lucado)

“… viram Jesus caminhando sobre as águas e se aproximando do barco. Os discípulos ficaram com medo…”

A fé sempre foi a filha do medo. O medo impulsionou Pedro para fora do barco. Ele já tinha navegado entre aquelas ondas. Sabia do que essas tormentas eram capazes. Tinha ouvido outras histórias, visto naufrágios. Conhecia as viúvas. Ele sabia que a tempestade poderia matar e, então, sentiu vontade de sair dali.

Durante toda a noite ele quis escapar dali. Por nove horas, foi arrastado com o barco, lutou com os remos e buscou esperança em cada sombra que aparecia no horizonte. Estava ensopado até a alma e cansado do lamento de morte trazido pelo vento.

Olhe para os olhos de Pedro e você não conseguirá enxergar um homem de convicção.

Procure sua face e não encontrará um semblante forte. Mais tarde, sim, vai vê-lo com coragem no jardim, testemunhar sua devoção no Pentecostes e contemplar sua fé nas epístolas.

Mas não nessa noite. Olhe para seus olhos, agora, e veja o medo; um temor sufocante e trepidante de um homem que não tinha saída.

Mas desse medo nasceria um ato de fé, pois a fé é a filha do medo.

“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, escreveu o sábio.

Pedro poderia ter sido a ilustração do sermão acima.

Se Pedro tivesse visto Jesus caminhar sobre as águas durante um dia calmo e pacífico, você acha que ele teria andado até Jesus?

Nem eu.

Se caso o mar estivesse calmo, sem ondas, como se fosse um tapete, e a viagem agradável, você acha que Pedro teria implorado para que Jesus o tirasse dali e o fizesse passear sobre as ondas? Duvido.

Mas, dê a alguém uma opção de escolha entre a morte certa e uma oportunidade maluca, e verá que a oportunidade sempre será a escolhida.

Grandes atos de fé raramente nasceram de um planejamento ou de um cálculo frio.

Não foi a lógica que fez Moisés erguer seu cajado nas margens do Mar Vermelho.

Não foi uma pesquisa médica que convenceu Naamã a mergulhar sete vezes no rio.

Não foi o bom senso que fez Paulo abandonar a Lei e abraçar a graça.

E não foi um comitê secreto que orou numa pequena sala em Jerusalém para libertar Pedro da prisão. Foi um grupo de crentes temerosos, desesperados, que se sentiram pressionados contra a parede. Foi uma igreja sem opções. Uma congregação de joão-ninguéns pedindo por ajuda.

E mais do que nunca eles foram fortes.

No princípio de um ato de fé, há sempre uma semente de medo.

As biografias de discípulos corajosos sempre iniciam com capítulos de puro pânico.

Temor da morte, do fracasso, da solidão, de uma vida vã, de fracassar em conhecer a Deus.

A fé começa quando você vê Deus na montanha, mas você mesmo está no vale e sabe que está muito fraco para subir. Consegue enxergar o que está precisando… o que tem… e descobre que o que tem não é suficiente para realizar qualquer coisa.

Pedro deu o melhor de si. Porém, o seu melhor não era o bastante.

Moisés tinha um mar em sua frente e um inimigo nas suas costas. Os israelitas poderiam muito bem nadar ou lutar, mas nenhuma das opções era o bastante.

Naamã tinha experimentado outros métodos de cura e consultado adivinhos. Viajar uma longa distância para se meter em um rio de lama não tem muito sentido quando existem rios cristalinos em seu quintal. Mas, que opções ele tinha?

Paulo tinha perfeito conhecimento da lei, era mestre do sistema. Mas um olhar para Deus o convenceu de que sacrifícios e símbolos não eram o bastante.

A igreja em Jerusalém sabia que não havia esperança de libertar Pedro da prisão. Eles tinham cristãos que poderiam lutar, mas eram poucos. Tinham armas, mas não eram potentes. Não precisavam de músculo, precisavam de milagre.

E Pedro também. Ele estava consciente de dois fatos: descia cada vez mais enquanto o Senhor Jesus se levantava. E sabia onde queria estar.

Não há nada errado com essa reação. A fé que se inicia com o temor terminará mais próxima ao Pai.

Já faz algum tempo que fui para o oeste do Texas falar no funeral de um grande amigo da família. Ele tinha criado cinco filhos. Um de seus filhos, Paul, contou uma história sobre uma das mais antigas memórias que tinha sobre seu pai.

Era primavera lá no Texas, ou seja, a estação dos tornados. Paul tinha somente três ou quatro anos de idade naquela época, mas se lembrava claramente do dia em que um tornado atingiu sua pequena cidade.

Seu pai arrastou as crianças para dentro da casa e as fez deitar no chão, enquanto ele mesmo deitava-se sobre um colchão em cima deles. Porém, o pai não estava protegido. Paul se lembrou de ter espiado por debaixo do colchão e visto seu pai de pé ao lado de uma janela aberta, assistindo a nuvem afunilada sacudir e destruir tudo ao longo da pradaria.

Quando Paul viu seu pai, sabia onde queria estar. Desvencilhou-se dos braços da mãe, engatinhou para fora do colchão e correu para abraçar as pernas do pai. — Algo me dizia, continuou Paul — que o lugar mais seguro para estar quando há uma tormenta era perto do meu pai. Algo havia dito a mesma coisa para Pedro.

— “Se é o senhor mesmo, Senhor, ” — Pedro disse “mande que eu vá andando em cima da água até onde está.”

Pedro não estava testando Jesus; ele estava clamando. Pisar sobre um mar agitado não é um gesto muito lógico; é um gesto de desespero.

Pedro agarrou-se na beirada do barco, colocou uma perna para fora… e depois a outra.

Alguns passos foram dados. Era como se existisse um caminho de rochas sob seus pés. No final do caminho estava a face luminosa do amigo que sempre o encorajava.

Nós fazemos a mesma coisa, não é verdade? Chegamos até Cris-to em horas de grande necessidade. Abandonamos o barco das boas obras. Descobrimos, assim como Moisés, que a força humana não pode nos salvar. Olhamos para Deus desesperadamente. Percebemos, assim como Paulo, que todas as boas obras do mundo são insignificantes quando colocadas diante do único Perfeito. Descobrimos, como Pedro, que transpor o buraco entre nós e Jesus é uma façanha muito grande para o nosso pequenino pé. Então, imploramos por ajuda. Ouvimos sua voz e damos o passo com medo, esperando que nossa pouca fé seja suficiente.

A fé não nasce ao redor de uma mesa de negociações, onde barganhamos nossos dons em troca da bondade de Deus. A fé não é uma recompensa dedicada para quem aprendeu melhor a lição. Não é um prêmio dado ao mais disciplinado. Não é um título herdado pelo mais religioso.

A fé é um mergulho desesperado para fora do barco do esforço humano, que está naufragando; é uma oração pedindo que Deus esteja lá para nos resgatar de dentro da água. Paulo escreveu sobre esse tipo de fé na carta aos Efésios:

“Pois é pela graça de Deus que vocês foram salvos, por meio da fé que vocês têm. Vocês não salvaram a si mesmos. A salvação vem de Deus como um dom, e não como o resultado das obras que alguém fez, para que assim ninguém se orgulhe”.

Paulo é bem claro. A força suprema da salvação é a graça de Deus. Não nossas obras, nem nossos talentos, muito menos nossos sentimentos e nossa força.

A salvação é a presença repentina e calma de Deus em meio ao mar agitado de nossas vidas.

Ouvimos sua voz e, então, damos o passo.

Nós, assim como Paulo, estamos cientes de duas coisas: somos grandes pecadores e precisamos de um grande Salvador.

Nós, assim como Pedro, estamos cientes de dois fatos: estamos afundando enquanto Deus está se levantando. E assim, começamos a escalar, deixamos para trás o Titanic da autocorreção e nos firmamos no caminho sólido da graça de Deus.

E, surpreendentemente, somos capazes de caminhar sobre as águas. A morte está desarmada, os fracassos são perdoáveis, a vida tem um propósito real. E Deus não está apenas à nossa vista, mas ao nosso alcance.

Com passos direcionados, porém trêmulos, nos aproximamos dele. Por um momento de força surpreendente, nós nos firmamos sobre suas promessas. Não faz sentido sermos capazes de realizar isso. Não pedimos para sermos dignos de tal dom incrível. Quando as pessoas perguntam como mantemos nosso equilíbrio durante tempos de tormenta, não nos gabamos. Não nos vangloriamos. Apontamos, sem nenhuma vergonha, para Aquele que torna tudo isso possível.

Nossos olhos estão nele.

E assim é como cantamos: “Nem trabalho, nem penar pode o pecador salvar; só tu podes, bom Jesus, dar-me vida, paz e luz”.

Declaramos também: “Em nada ponho a minha fé, senão na graça de Jesus; no sacrifício remidor, no sangue do bom Redentor.”

E, explicamos: “Foi a graça que ensinou o temor ao meu coração, e aliviou os meus medos.”

Alguns de nós, diferentemente de Pedro, nunca olhamos para trás.

Outros, assim como Pedro, sentem o vento e se assustam.

Talvez estejamos enfrentando o vento do orgulho: “Afinal de contas, eu não sou um pecador tão mau assim. Olhe para o que eu posso fazer.”

Ou pode ser o vento do legalismo: “Eu sei que Deus está tomando conta de parte disso, mas eu tenho que cuidar do resto.”

A maioria de nós, no entanto, encara o vento da dúvida: “Eu sou muito ruim para Deus me tratar desse jeito. Não mereço ser resgatado.”

E para baixo nós vamos. Com o peso do reboque da mortalidade, afundamos. Arquejando e nos debatendo, caímos num mundo escuro e úmido. Abrimos os olhos e vemos somente a escuridão. Tentamos respirar, mas não existe ar. Batemos mãos e pés para conseguirmos voltar à superfície.

Com as cabeças quase para fora da água, temos de tomar uma decisão.

Os orgulhosos perguntam: “Devemos esconder nossa face e nos afogar no orgulho? Ou devemos gritar por ajuda e pegar na mão de Deus?”.

Os legalistas questionam: “Devemos afundar sob o peso da Lei? Ou devemos abandonar os códigos e implorar por graça?”.

Os duvidosos perguntam: “Devemos alimentar nossas dúvidas com murmurações do tipo, `Eu realmente o desprezei dessa vez?’ ou esperamos que o mesmo Cristo que nos chamou para fora do barco, nos chamará também para fora do mar?”.

Sabemos qual foi a decisão de Pedro.

“… e começou a afundar e gritou: Salve-me, Senhor!”
“E Jesus imediatamente estendeu a sua mão, o segurou…”

Também conhecemos a escolha de um outro marinheiro numa outra tempestade.

Embora separado por dezessete séculos, esse marinheiro e Pedro se aproximam muito por várias notáveis semelhanças:

• Ambos ganharam a vida no mar.
• Ambos encontraram o Salvador após uma longa batalha em meio a tempestade.
• Ambos, temerosos, encontraram o Pai e seguiram-no com fé.
• Ambos saíram do barco e se tornaram pregadores da Verdade.

Você conhece a história de Pedro, o primeiro marinheiro. Deixe-me contar sobre o segundo, cujo nome é John.

Ele serviu nos mares desde que tinha onze anos. Seu pai, um comandante inglês de navio mercante, no Mediterrâneo, levou-o para o exterior e treinou-o para uma vida na Marinha Real.

Mas, o que John tinha ganhado em experiência, tinha perdido em disciplina. Ele desafiava as autoridades, andava com pessoas erradas, metia-se em caminhos tortuosos. Embora seu treinamento o houvesse qualificado para servir como um oficial, seu comportamento fez com que ele fosse punido e rebaixado.

Quando tinha cerca de vinte anos de idade, John viajou para a África, onde se envolveu com o lucrativo comércio de escravos. Aos vinte e um anos, ganhava a vida com o Greyhound, um navio negreiro que cruzava o oceano Atlântico.

John ridicularizava a moral e zombava de assuntos religiosos. Até fazia piadas sobre um livro que, no final de tudo, remodelaria sua vida: A imitação de Cristo. Na verdade, ele estava desprezando aquele livro poucas horas antes do navio entrar no meio de uma grande tempestade.

Naquela noite, o mar agrediu o Greyhound, levando o navio, em prazo de minutos, para o topo de uma onda e baixando-o de volta para o fundo das águas.

John foi desperto entre as águas que enchiam sua cabine. Um lado do Greyhound tinha colidido. Era comum de se esperar que tal dano teria levado o navio para o fundo em questão de minutos. Porém, o Greyhound foi carregado como uma carga flutuante e permaneceu na superfície.

John trabalhou durante toda a noite para consertar o estrago. Por nove horas, ele e os outros marinheiros lutaram para não deixar que o navio afundasse. Mas ele sabia que era uma causa perdida. Finalmente, quando as esperanças estavam mais danificadas que a embarcação, ele se atirou no convés cheio de água salgada e clamou:

— Se isso não funcionar, então que o Senhor tenha misericórdia de nós.

John não merecia misericórdia, mas mesmo assim a recebeu. O Greyhound e sua tripulação sobreviveram.

John nunca se esqueceu da misericórdia demonstrada por Deus naquele dia tempestuoso, em meio ao feroz oceano Atlântico. Ele retornou à Inglaterra onde se tomou um grande compositor.

Você já ouviu algumas de suas músicas.

Esse traficante de escravos, que se tornou compositor, era John Newton, o autor de uma das músicas mais famosas mundialmente: Amazing Grace.

Amazing grace! how sweet the sound,
That saved a wretch like me!
I once was lost, but now am found,
was blind, but now I see.

[Ó Graça maravilhosa! Quão doce o som
Que salvou um desaventurado como eu
Eu estava perdido, mas, agora salvo
Fui cego, mas agora vejo.]

Ao longo de suas composições, ele também se tornou um poderoso pregador. Por quase 50 anos, encheu os púlpitos e as igrejas com a história do Salvador que nos encontrou no meio de uma tempestade.

Um ou dois anos antes de sua morte, as pessoas insistiam para que parasse de pregar por causa de sua visão deficiente.

— O quê??? — e então explicava — O blasfemo africano também vai parar enquanto puder falar?

Ele não pararia. Não poderia parar. O que tinha começado com uma oração temerosa resultou numa vida inteira de fé. Durante os seus últimos anos, alguém lhe perguntou sobre sua saúde. Ele confessou que suas forças já estavam enfraquecidas.

— Minha memória já quase se foi. — ele disse Mas ainda me lembro de duas coisas: sou um grande pecador e Jesus é um grande Salvador.

Do que mais precisamos nos lembrar?

Dois marinheiros e dois mares. Duas embarcações em duas tempestades. Duas orações temerosas em duas vidas de fé. Como união dessas duas histórias, está o Salvador, um Deus que caminhará através do inferno ou sobre as águas a fim de estender a mão auxiliadora para um filho que clama por socorro.

Fé (Carla Fontaneli)

Fé é o que resta quando tudo mais falta.

Fé é o que faz alguém perdido em um deserto dar mais um passo apesar da imensidão arenosa.

Fé é o que modifica os paradigmas e evolui os povos, o que dá ao imóvel, horizontes novos.

É dar de si mais que o que possa.

Fé é a semente que desafia com tenras folhagens, o solo em que nada mais brota.

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Um comentário sobre “Fé, Filha do Medo

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