Veracidade e Não-Violência


Relendo o livro “Cartas à Ashram” de Gandhi, uma frase me chamou a atenção, o que na primeira leitura não tinha acontecido: “As únicas virtudes que pretendo são a veracidade e a não-violência”.

Fiquei refletindo que uma alma tão elevada como ele, que provavelmente só reencarna em planetas como a Terra para missões coletivas, tenha pretendido para essa vida apenas duas virtudes. Todas duas dificílimas, diga-se de passagem, e que ele vivenciou à risca, nos mínimos detalhes.

Para nós, ainda afinizados com um planeta de provas e expiações, fica difícil imaginar até o que seja vivenciar essas duas virtudes em sua máxima como ele o fez. Imaginem o que seria para nós dizer sempre a verdade, em todos os detalhes. É impossível não lembrar de uma comédia americana estrelada por Jim Carey, chamada “O Mentiroso”, onde um advogado (Jim) à pedido de seu filho, não consegue dizer nenhuma mentirinha durante um dia inteiro. Como tudo ficou de pernas para o ar no dia dele! E Gandhi vivia assim, mesmo sendo advogado também, durante 24 horas, *todos os dias*.

Jamais dizia uma mentira, independente do prejuízo ou sacrifício que significasse para si próprio. Qual de nós teria tamanha força de caráter, e tamanho desprendimento do ego, para cultivar a veracidade em todos os lances da vida? Nós ainda fazemos pior. Além de contarmos uma mentirinha ou outra eventualmente, para nos resguardarmos da bronca do chefe, ou da cobrança de um cliente importante, nós também pedimos que outras pessoas mintam por nós. Pedimos sempre que alguém diga à outra pessoa que não estamos, quando estamos. Que um funcionário diga ao cliente que o trabalho está todo pronto, quando não está. Que um filho diga ao pai que acabou o dinheiro, quando não acabou. São tantas as mentirinhas que dizemos ao longo do dia, que os especialistas dizem que, em média,  um ser-humano *normal* (que não tem nenhuma patologia que o faça mentir, embora nesses casos o que conta é mais a motivação – e falta dela -, e não a quantidade) conta em torno de 200 mentiras por dia.

Imaginemos então, que quando Gandhi escolheu a veracidade como uma das duas virtudes que iria se concentrar totalmente, ele não estava fazendo pouco, e sem dúvidas estava muito à nossa frente.

E com relação à não-violência, que ele também vivia à risca, ao ponto de ter se tornado ícone e exemplo nessa virtude, ele também devia encontrar muita dificuldade de viver isso aqui na Terra, porque ele não se restringia a ser pacífico só com os seres-humanos, mas com toda a Criação, até as plantas. Se alimentava apenas de frutas, porque elas caem das árvores, e isso quer dizer que não matamos a planta e nem a prejudicamos para nos alimentarmos de fruta. Ele vivia intensamente todos os pormenores da não violência, e agia apenas depois de constatar que sua ação e até palavra, não iria violentar o que quer que fosse. Há uma parte do seu livro “A Roca e o Calmo Pensar” que ele conta de quando compraram o terreno onde foi construído seu Ashram. O local estava infestado de cobras, e ele proibiu que qualquer um, à qualquer pretexto, matasse uma só cobra. Que morressem, mas não matassem. Ele disse que todos tinham medo, inclusive ele, mas que violar o ahimsa estava fora de cogitação. E assim foi por anos, e durante todo o tempo, embora as cobras tenham continuado lá, nenhuma delas fez mal à qualquer um deles, e que no fim ele atribuíra isso à Deus, que retribuiu o respeito que eles tiveram pela vida das cobras, protegendo a vida deles.

Quem de nós consegue viver assim, se quase todos os dias nós violentamos até à nós mesmos? E mesmo quando cuidamos de nós, e  somos pacíficos uns com os outros, nós violentamos a Natureza todo o tempo. Uma vez, pensando nisso, eu cheguei a ter um pensamento tragicômico, mas que foi uma dúvida honesta que me ocorreu: “como será que Gandhi fazia se um de seus filhos pegasse piolho, por exemplo? O que não deve ser difícil num país como a Índia, que tem sérios problemas com a higiene. Será que ele deixava o menino cheio de piolhos? Mesmo que raspasse a cabeça, ele iria decretar a morte dos piolhos e das lêndias, não é?” Eu não consigo conceber uma vida num mundo como a Terra, sem que haja qualquer tipo de violência, mesmo aquelas que praticamos inconscientemente. Mas ele conseguia.

Não foi em vão que por muitos anos os ocidentais consideraram Gandhi um louco estravagante. Mas ele não era louco, ele só não era desse mundo, e aqui veio apenas para nos ajudar, mas tentando viver a vida de quem já habita esferas e mundos onde a não-violência é comum, e toda a sociedade é adaptada à viver de forma pacífica em todos os seus pormenores. Imagino o sacrifício que ele teve que empregar para viver dessa forma aqui na Terra. Mas penso também que se almas como ele nunca viessem aqui nos mostrar na prática que é possível, nós nunca sairíamos do lugar.

E pensar que nós, tão pequeninos, ainda não conseguimos praticar nenhuma virtude em todos os pormenores, e quando conseguimos avançar um pouco em uma delas, já saímos vitoriosos da vida. Para vermos como ainda estamos distantes. É nas horas que nos deparamos com essa nossa pequenez, que somos obrigados à cultivar a humildade, e orar para encontrarmos forças e robustez espiritual para prosseguirmos na nossa caminhada de auto-iluminação. Precisamos mesmo orar e vigiar muito, para avançarmos um pouco que seja nas virtudes, que ainda nos são tão difíceis de praticar.  Cada vez mais constato que a vigilância e a oração devem ser uma das nossas maiores e prioritárias preocupações. Aliás, o próprio Gandhi disse muitas vezes que só conseguia viver essas duas virtudes de forma tão intensa, porque das coisas que mais fazia na vida era orar e vigiar cada um de seus atos, palavras e especialmente pensamentos.

E nós que vivemos a vida concentrados em juntar bens, pagar contas, comprar coisas, receber pagamentos de tudo, e mais mil interesses que dizem respeito apenas à matéria ou ao ego (sim, porque muitas vezes nós cultuamos o ego muito mais que a matéria, e vivemos para satisfazê-lo, mesmo vivendo no desprendimento material), ainda temos a pretenção de dizermos que somos seres espiritualizados, só porque buscamos algum conhecimento sobre a vida espiritual. Acho mesmo que nós ainda nem conseguimos conceber o que seja viver espiritualmente num mundo como a Terra. E todos aqueles que tentaram e conseguiram, foram tidos como loucos, exagerados e visionários por muitos de nós. Mas se Deus permite que eles reencarnem para nos ensinar, é porque já temos condições, e falta-nos apenas a coragem e a determinação de nos despojarmos do nosso egoísmo, orgulho e falsa noção de necessidade da matéria para sermos felizes. A matéria é nossa ferramenta de progresso, não o motivo dele. E nós passamos a vida toda tendo os bens e o conforto material como motivo de luta, para no fim não levarmos daqui nem mesmo o nosso corpo.

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4 comentários sobre “Veracidade e Não-Violência

  1. Rap dos racionais!? :)))
    Bem, ele é daqueles ícones da humanidade, que onde quer que se viva, um dia há de se ouvir falar nele das formas mais diversas! :)))

    Abração!

  2. He sim rap dos racionais eh mais ou menos assim…

    …”gente que acredito, gosto e admiro, brigava por justiça e paz levou tiro. Malcom X, Gandhi, Lennon, Marvin Gaye, Che Geuvara, 2 Pac, Bob Marley”…

    Há por ai vai! rsrs

    Muito obrigado Lu pelo seu comentario no meu blog =D vc complementou e foi alem do meu raciocinio!

    Vlw

    Bjus

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