Quando a Dignidade é Orgulho


Quando o auto-respeito é orgulho e quando é realmente auto-respeito? Essa é uma das perguntas que sempre tive dificuldade de demarcar uma linha de separação. Não é fácil identificarmos o orgulho ferido quando muitas vezes o confundimos com a palavra “dignidade”.

Nosso orgulho é traiçoeiro e está tão misturado à nossa essência, que passamos quase todo o tempo sem percebê-lo em nossas ações, mesmo naquelas em que agimos após refletirmos e tomamos o cuidado de sermos “humildes”. Quantas, mas quantas vezes nós confundimos o orgulho com humildade e com a tão falada dignidade!

O que é ser digno? Digno é todo aquele que busca o bem de si mesmo, do próximo e da sociedade. É aquele que vive retamente como acredita ser eticamente e moralmente bom, e além disso, respeita à todos. Sobretudo o homem é digno quando, apesar de seus defeitos e suas limitações, busca sempre se esforçar e superar para ser cada vez mais digno.

Se um ser-humano é explorado por poderosos ganaciosos, para ser digno ele tem que lutar para sair dessa situação, porque ao se permitir ser explorado, ele falta com o direito ao bem-estar próprio e é conivente com o egoísmo do poderoso. Então sim, lutar para não ser explorado, para ter o direito de viver com saúde e pela saúde do próximo é lutar pela sua dignidade, constituindo com isso um dever do homem de bem.

Quando Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela e outros ativistas dos direitos-humanos lutaram, sem ferir, pela dignidade de seus representados, estavam de fato, cumprindo um dever humano perante a Justiça Social e a Dignidade do Ser-Humano. Nos deixaram exemplos belíssimos do verdadeiro auto-respeito e do respeito pelo próximo.

Nos auto-respeitamos quando não nos permitimos a indignidade, ou seja, quando lutamos pelo nosso direito à sermos pessoas de bem, seres criados para o Amor.

Mas muitas vezes, como tentativas de se auto-preservar, e pela linha que separa um conceito do outro ser ainda muito pouco clara para nós, pequenos aprendizes do Amor, nosso orgulho veste a capa da dignidade, como os lobos experientes vestem a capa das frágeis ovelhas. Pensamos que lutamos pelo nosso auto-respeito, quando apenas encontramos um meio de não sentirmos o golpe no nosso orgulho.

Na maioria das vezes confundimos a humilhação com a indignidade, como se o termômetro para medir nosso auto-respeito fosse não se permitir a humilhação. Mas se assim fosse, Jesus, nosso maior Modelo e Guia, seria então o maior dos indignos e aquele que nos legou o maior de todos os exemplos de falta ao auto-respeito. Ele, mesmo tendo todo o poder, toda a glória e o cargo de Governador do Planeta, se permitiu ser açoitado e crucificado com uma coroa de espinhos (o gesto supremo de desdém e sarcasmo à sua condição de Reis dos reis), entre dois ladrões vulgares.

Nunca houve alguém que tenha se permitido humilhar tanto, ao mesmo tempo que dava o mais comovente exemplo de dignidade, respeito e auto-respeito!

O que nosso orgulho mais teme é a humilhação, porque é através dela que Deus o tranforma em humildade. Num movimento de auto-preservação ele tenta sempre nos enganar, nos dizendo que ser digno é não se permitir o rebaixamento, reagindo para nos manter num posto “digno de nós”. E se observarmos, a linha tênue que separa um conceito do outro está justamente nesse ponto, porque de fato, a indignidade vem quando nos permitimos o rebaixamento, só que na maioria das vezes nós invertemos os nossos verdadeiros valores e trocamos o verdadeiro bem-estar pelos falsos ícones do mundo, colocamos sempre a satisfação do ego e suas conquistas ilusórias e efêmeras acima do espírito e suas conquistas reais e permanentes. É precisamente nesse ponto que nosso orgulho nos confunde, e que faz com que a humilhação seja vista por nós como a grande vilã, quando na verdade a grande vilã é nossa constante queda do posto de “filhos de Deus” para o posto de “filhos do Ego”. Nós nos rebaixamos todas as vezes que nos permitimos humilhar os outros, não quando somos humilhados, todas as vezes que praticamos um ato contrário ao bem, ao amor e à Verdade que abraçamos como ideal de boa conduta. Se Jesus, naquele dia inolvidável, tivesse humilhado os romanos e os fariseus com todo o seu poder e glória celeste, lutando, dessa forma, para manter seu justo e merecido posto de Messias, Ele teria sido indigno da mensagem que veio nos passar, teria faltado com seu auto-respeito verdadeiramente.

Nós nos auto-respeitamos todas as vezes que agimos de acordo com nossos ideais éticos e morais, todas as vezes que abrimos mão de nossas mazelas (dentre elas o orgulho) em prol de fazer o bem à nós mesmos, ao próximo e à sociedade, e se a condição para que façamos o bem é sermos humilhados, então a humilhação é um ato de dignidade, não o contrário, como nosso orgulho nos faz sentir. Nos auto-respeitamos e somos dignos, quando nos mantemos firmes aos nossos ideais de amor, bondade, fraternidade e igualdade, mesmo que para isso tenhamos que sofrer alguma limitação ou perda, mesmo a perda do corpo físico, como foi o caso do nosso Rabi e de inúmeros que seguiram seu exemplo.

Nosso Mestre, mais uma vez, é nosso melhor exemplo de dignidade e auto-respeito: mesmo sendo humilhado à posição humana mais abjeta, preservou seu direito à se manter fiel à mensagem da qual era portador até o fim, quando à exemplo do que pregou, foi verdadeiramente humilde (tendo o poder em mãos, voluntariamente aceitou a humilhação para não humilhar seus algozes), perdoou seus malfeitores no momento fatal, e sem se intimidar, continuou (e continua) mansamente seu ministério, tal qual era e é a vontade de Deus, independente do que pensem, façam ou deixem de fazer seus inimigos, aos quais nunca cansa de convidar, amar e esperar pacientemente.

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