Skip to content

Cristãos de Facebook

30/10/2013

cristaos_martires_coliseu_leoesEstava lendo o livro “Vivendo com Jesus” da autora espiritual Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Franco, e veio na minha mente a dificuldade que os primeiros cristãos enfrentaram ao trabalharem para o Cristo. Imediatamente pensei nas questões trabalhistas da atualidade e comecei a pensar: por que os primeiros cristãos sofreram tanto e tão superlativamente ao trabalharem para Jesus, se o próprio mercado de trabalho protege o bem-estar do trabalhador? E como podemos colocar isso na nossa vida presente, nos dias atuais com tecnologia e comunicação virtual? Tive que parar e vir escrever as reflexões que vieram rápidas na minha mente, antes que elas se perdessem.

A resposta parece meio óbvia, mas muitos de nós esquecemos constantemente e estamos sempre nos sentindo “abusados” por Jesus quando algum trabalho que façamos para Ele de ajuda à necessitados, começa a nos exigir mais que nosso tempo livre de lazer. Geralmente, quando nos achamos “iluminados”, trocamos o lazer (a novela, o cinema, o teatro, etc) por algum trabalho na organização religiosa à qual pertençamos. Alguns de nós, nem mesmo precisamos nos deslocar à algum lugar, “trabalhamos” pelo Cristo em casa mesmo, indo aos grupos de debates do facebook ou nas listas de discussão do yahoo grupos, e então nos sentimos plenos de “nós mesmos”, por sermos tão “caridosos” ao abrirmos mão da novela, para ficarmos debatendo temas religiosos com outras pessoas pela internet, no aconchego da nossa casa.

Um belo dia, porém, o marido/esposa ou os filhos e amigos começam a “sentir nossa falta”, porque afinal, em vez de estarmos lá no sofá assistindo novela juntos, ou estarmos lá falando mal do vizinho com a amiga, estamos indo à um grupo de ajuda à necessitados e até mesmo doando o mínimo no aconchego do lar pela internet mesmo. E eles reclamam. E o tempo para família e vida social começa a ficar um pouco menor, e eles reclamam mais a nossa presença, chamam-nos irresponsáveis, dizem que se estamos na terra, temos que cuidar dos assuntos da terra e deixar que os assuntos do céu fiquem com os santos/anjos/espíritos, que o problema dos outros não é da nossa conta, que cada qual que carregue sua cruz. E nós que já estávamos mesmo cansados de tanto trabalharmos “de graça”, gastando o tempo da nossa família/amigos/vida pessoal com pessoas cheias de problemas e às vezes até desagradáveis, que não tinham nada a ver com nossa vida ou se tinham, estavam abusando da amizade, acabamos por ceder e abandonar tudo pra seguirmos nossa vida comum, nos sentindo abusados pelo Senhor e Seus necessitados.

Afinal, pensamos, nas Leis Trabalhistas que regem o país, dizem que o trabalho deve fazer bem ao trabalhador, se ele é abusivo, pode até se enquadrar em Assédio Moral, e definitivamente aquele trabalho assistencial não estava fazendo bem ao convívio familiar, à nós mesmos e ao ambiente particular à nossa volta. Sentimos, então (mas sem expressar, porque não temos coragem de assumir isso nem para nós mesmos) que o Cristo está praticando assédio moral conosco e abandonamos Sua vinha. Obviamente continuamos nos dizendo cristãos, trabalhadores da última hora, de vez em quando pegamos o celular com acesso à internet e enquanto estamos utilizando o toialete, digitamos um texto falando sobre situações da nossa vida, muito bem escrito sempre, com palavras rebuscadas, para colocarmos nos facebook ou blog, ou onde seja, comparando nossas vidas com passagens de Jesus e dizendo o quanto O seguimos, ou o quanto tentamos segui-Lo sem conseguirmos, porque também temos que ser modestos para disfarçar nosso orgulho. Dalí à algumas horas entramos outra vez rapidinho para vermos quantas curtidas e comentários tivemos, quantos aplausos para nossa alma iluminada e nossas palavras tão bonitas. Nossa auto-estima fica elevada, e sentimos que agora sim estamos “fazendo a coisa certa”, porque as pessoas estão nos tratando com respeito, estão nos admirando, estão alí todo dia para curtir nossas publicações, ao mesmo tempo que estamos com tempo para cuidarmos do nosso pequeno núcleo familiar, para ouvirmos música, lermos um livro, vermos um filme, conversarmos com os amigos, debatermos assuntos de nosso interesse particular, etc. Finalmente, depois de tanto sofrimento vão naqueles trabalhos assistenciais que nos sugavam todo o tempo livre e as energias, estamos nos sentindo plenos e felizes, afinal, estamos trabalhando ativamente pelos nossos interesses particulares e usando o tempo do banheiro para evangelizar as pessoas com passagens da nossa vida cristã (que claro, é um exemplo e deve ser sempre exposta ao mundo para ajudar as pessoas).

Nesse momento, precisaríamos realmente sairmos da letargia que se encontra nosso espírito. Nossa perda é quase total… Pensamos então nos primeiros cristãos que sofreram todo tipo de abuso físico, moral, emocional e psicológico para trabalharem na vinha de Jesus. Se pensamos que nossa esmola ao Cristo é abuso, imaginemos então o que não poderiam dizer Pedro que foi crucificado, Paulo que sofreu todo tipo de sofrimento (literalmente apedrejado muitas vezes, abandonado por todos que amava, tido como louco pela família, tratado como lixo humano pela sociedade), Bartolomeu que foi esfolado vivo, muitos outros que foram tochas humanas em orgias, alimento para leões, que sofreram todo tipo de dificuldade para que o evangelho chegasse vivo até nós hoje, e nos beneficiasse ao longo dos séculos nas nossas muitas vidas…

Podemos pensar nos novos cristãos, se ao pensarmos nos primeiros, ficar muito difícil por começarmos a justificar questões sociais da época em que eles viveram. Pensemos então em trabalhadores como Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, a dona Maria que ninguém conhece, mas que cuida de uma casa para crianças com problemas mentais, tendo-as todas como seus filhos amados, ou o senhor José anônimo, pai de 7 filhos, que além de cuidar da esposa, dos filhos, de trabalhar para sustentá-los, ainda preside uma instituição religiosa, participando de todas as atividades assistenciais e de esclarecimento à encarnados e desencarnados. Sua esposa e filhos, no início reclamaram, mas a força e a determinação do seu exemplo na prática do bem e seu amor à Jesus e ao próximo, acabou por arrastar toda a família para o trabalho assistencial junto com ele.

O trabalho para Mamon realmente precisa nos fazer sentir bem como pessoas materiais, porque ele visa justamente o retorno financeiro e material. Se o trabalho físico, remunerado e com fins lucrativos não estiver fazendo bem, não estiver nos dando lucro e não estiver zelando pela sustentação da nossa família, tem alguma coisa errada, é fato. Mas o trabalho para o Cristo é Caridade, é doação, não temos que receber nada em troca além da satisfação de servir, além de benesses puramente espirituais, e ainda estaremos no lucro, porque na verdade estamos trabalhando para quitar dívidas, e mesmo assim a misericórdia de Deus ainda nos beneficia com a paz de espírito, algo que não tem sequer preço de tão valioso que é! Não temos que receber nada dos necessitados (e aqui falamos não só de matéria, mas de emocional também) e nem temos que receber nada do nosso Chefe, embora Ele sempre nos dê, sempre nos presenteie, sempre nos encha de bônus imerecidos, de assistência e amor incondicional!

Hoje o Cristo não nos pede mais o sacrifício das torturas físicas, mas ainda necessita de alguns sacrifícios sim, sobretudo do sacrifício que é para nós abrirmos mão do nosso ego e dos nossos interesses privados, para doarmos um pouco da nossa vida para Ele e para aqueles que Ele trás à nós necessitando de alguma ajuda. Em alguns momentos com certeza vai ser difícil, porque inimigos do bem encontramos em toda parte, e alguns deles são realmente ferozes e poderosos, conseguem mesmo nos desequilibrar e nos derrubar, mas pensemos naqueles cristãos da primeira e da segunda hora que sofreram muito mais e enfrentaram as feras de ontem para que hoje a mensagem evangélica pudesse estar à nosso dispor. Eles próprios continuam trabalhando na vinha e nos pedem ajuda… Não podemos negar com a desculpa de termos uma vida particular para cuidar. Não podemos ser tão fracos e covardes para praticar o bem, porque certamente no passado, em vidas recuadas, éramos bastante firmes, fortes e corajosos para praticar o mal. Temos que ter aquela mesma determinação que tínhamos no passado quando fazíamos o próximo sofrer, ao trabalharmos hoje para o Cristo e fazermos o bem, aliviando as dores de quem sofre. Temos que suportar espinhos de todas as matizes (dores piores infringimos à outros no passado) se quisermos ser minimamente dignos de dizermos que somos cristãos como alardeamos às pessoas que aplaudem nossas máscaras de bondade… Temos é que termos vergonha de usarmos e abusarmos da mensagem cristã para promovermos nossa imagem junto à sociedade, e realmente aproveitarmos nossa vida na terra trabalhando! Não estamos aqui à passeio, estamos à trabalho, e o trabalho para o Cristo pode ser sim muito árduo, porque árduas são as dores do nosso próximo, porque árduo é voltar sobre nossos passos errados de antes, porque árduo é abandonarmos nossas fugas e ilusões de segurança, mas no fim não será árduo nosso retorno para a Pátria Espiritual, pelo contrário, será com Paz que olharemos para nossas cicatrizes de trabalho e que nos sentiremos verdadeiramente dignos!

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s