Naturalmente…

Adorei essa frase de Allan Kardec contida no Livro dos Médiuns:

“A Natureza é mais prudente do que os homens. A Providência, aliás, tem seus planos e a mais humilde criatura pode servir de instrumento aos Seus mais amplos desígnios (…)”

Sim, a Natureza é mais prudente do que os homens, porque toda ela é harmonia com Deus, enquanto nós estamos quase todo o tempo em harmonia com Maya, com a ilusão dos nossos sentidos. A Natureza não se ilude com as coisas do mundo, ela apenas cumpre seu dever, seu destino dentro da criação. Nós estamos sempre em busca de satisfazer nossos sentidos, nossas vontades e expectativas, e raramente estamos simplesmente à disposição de Deus para sermos seus instrumentos.

Na maioria das vezes sequer achamos que temos alguma chance de ajudar Deus, porque ou somos soberbos de orgulho e egoísmo, ou não damos valor à nós mesmos enquanto filhos de Deus que somos. Ou nos cremos grandes demais para perdermos tempo nos ocupando dos assuntos de Deus, já que temos tantos assuntos particulares precisando de nossa atenção, ou nos achamos tão pequenos e insignificantes, que nem cogitamos a possibilidade de Deus se servir de nós.

Mas Deus se serve, mesmo quando não queremos… Ele sempre se serve de nós, até mesmo dos nossos erros, para promover a harmonia e a ordem em toda a criação. Na verdade Ele tem recursos e meios que nos escapam, com os quais nem mesmo podemos imaginar. Ele sempre dá-nos chance, sempre se ocupa de nós, mesmo quando não queremos nos ocupar Dele ou quando nem queremos que Ele se aproxime. Somos seus instrumentos nos momentos mais diversos, e obramos por Seu intermédio sempre que é necessário. Às vezes nos damos conta disso, às vezes não…

E assim é com todos, por isso mesmo que não podemos dizer que determinada pessoa foi culpada disso ou daquilo de ruim que nos aconteceu, porque se aconteceu é porque, por algum motivo, ela foi intrumento de Deus para nos educar. A responsabilidade do ato dela recai apenas sobre ela, porque se fomos atingidos é porque um dia, num passado de erros e desenganos, plantamos aquela semente ruim que germinou pelas mãos de alguém que se fez instrumento das Leis de Deus.

E é justamente por isso que não temos motivos para nos ofender ou magoar quando nos atingem, apenas devemos abençoar e agradecer a Deus que Ele nos achou dignos de nos harmonizarmos com as Leis e fortes o suficiente para sofrermos as consequências de nossos erros pretéritos. Mas sim, mesmo assim é difícil trazer esse conceito para nosso emocional e vivenciá-lo em plenitude. Volta e meia estamos nos ofendendo, magoando, tendo dificuldades para perdoar. É nessa hora que temos que ter paciência conosco também, lutando para não nos acomodarmos aos sentimentos ilusórios do nosso ego, mas sem nos exigir pressa demais, porque como diz o conceito da frase de Kardec, tudo que é Natural é mais sábio, e isso inclui nosso tempo íntimo de absorver emocionalmente os conceitos que já vislumbamos no intelectual.

Geralmente quando nos obrigamos a sentir o que naturalmente ainda não conseguimos, estamos nos agredindo e desejando sermos mais fortes que a nossa Natureza. Não nos respeitamos e nem nos damos a chance de sermos o que somos: seres em crescimento, em constante evolução, imperfeitos e ignorantes de muita coisa. Quando nos forçamos a um modelo idealizado de “moralmente ideal”, na maioria das vezes apenas nos tornamos hipócritas e mascarados. Quando finalmente o conceito for absorvido naturalmente por nós (o que pode demorar várias vidas), nós sentimos a paz daqueles que não sentem necessidade alguma de se auto-imolar, pois que estão em harmonia com Deus, e isso também significa se amar e se respeitar inclusive como um imperfeito Filho de Deus.