Desafios do Amor

jesus

Amar é sempre um desafio doloroso, e não é por menos que tanta gente foge desse sentimento tão intenso e tão complexo. Entrar em contato profundo com outra alma nos trás um prazer iniqualável, mas ao mesmo tempo nos faz visitar locais na nossa alma que não desejamos visitar.

Quando alguém, dotado de um poder inexplicável, consegue adentrar as portas das defesas e das couraças de proteção emocional que engendramos para proteger do sofrimento a nossa capacidade de amar, e se instala no nosso coração, inevitavelmente começam os desafios. Não temos tempo de analisar, de nos prepararmos, porque o amor sempre chega sem aviso prévio.

O que antes era escuro e aparentemente deserto, se enche de luzes e nos mostra que não era deserto. Havia alí, escondido na alma, muito caos que se mostra como sentimentos confusos, mal resolvidos, cicatrizes que ainda sangram, necessidades ignoradas… Nos vemos obrigados a olhar para tudo aquilo, com uma luz que nos ofusca e confunde. Não conseguimos analisar, só sentir a luz entrando, acabando com as sombras, deixando à mostra todas as nossas fragilidades.

Amar, me disseram uma vez, é estar diante de alguém sem defesas, sem reservas, com todas as fragilidades à tona. É ter a alma desnuda e vulnerável. Causa pavor…

Mas depois de um tempo, aprendemos que não podemos fugir para sempre de Deus… Um dia temos que assumir nossa capacidade de amar e enfrentar os desafios que isso trás. É a maturidade que chega e nos convida a crescer. Precisamos arrumar as confusões feitas pelas nossas necessidades e ilusões. Precisamos enfrentar os desafios do amor, o sofrimento inevitável que ele causa ao nosso ego, sempre tão orgulhoso e egoísta!

Amar incondicionalmente sem dúvidas é o maior de todos os desafios do amor. Amar sem esperar nada em troca, sem desejar nem mesmo ser correspondido, sem esperar que nosso afeto irá corresponder nossas expectativas até mesmo sobre o bem estar dele próprio. Amar com toda a força da alma, mas ainda assim mantendo a distância emocional necessária para amar e ser útil, para amar sem permitir que nosso ego prejudique quem amamos. Amar e ser capaz de lidar com as defesas do nosso ser amado. Defesas essas que nos afastam, quando gostaríamos de estarmos próximos. Defesas que rejeitam nosso amor mais sincero. Defesas que desprezam nossa presença, que se mostram indiferentes ao fato de existirmos no mundo.

Lidar com tantas defesas sem defender-se de volta é realmente muito desafiador.

Sim, nos defender é quase uma necessidade em alguns momentos. Porque antes, quando tentamos amar, sofremos muito, então para nos proteger de “cair na cilada do amor” outra vez, queremos esquecer tudo, queremos esquecer de quem somos, de onde pertencemos, e nos preparamos com todo arsenal possível para nos defender de possíveis ataques à nossa paz. Enregelamos o coração e o envolvemos com uma couraça resistente até àqueles que antes nos tocavam tão intesamente. Construímos uma indiferença segura e que aparentemente trás toda a paz do mundo para nós. Viver sem sentir nada? Nada melhor que isso, pensamos.

Mas então Deus mostra seu poder sobre nossa alma infantil, teimosa e assustada. Um dia, quando menos esperamos, as defesas são ultrapassadas com toda a facilidade, mostrando como somos um nada diante dessa força da natureza que chamamos de amor. O gelo derrete rapidamente, enquanto tentamos entender o que está acontecendo. A couraça se destrói e todas as feridas ficam à mostra.

Temos a opção de reconstruir todo nosso arsanal outra vez e seguir fugindo ou temos a opção de enfrentar os desafios, por mais doloridos que sejam e aproveitar a oportunidade de amadurecimento, de crescimento, de cura e de saúde espiritual. Uma decisão que parece tão simples, tão fácil, tão óbvia, mas que na prática é tão, tão difícil e complexa…

Amar os Inimigos, por Martin Luther King Jr.

Martin Luther King Jr., um Satyagrahi autêntico, sem dúvidas! Acho que nunca tinha lido um texto tão perfeito e completo sobre o tema “amar os inimigos”. Depois de ler esse texto, estou até em estado de êxtase! Primoroso! Se Martin Luther King Jr. tivesse nascido na Índia, teria sido um Mahatma também!

Amar os Inimigos

Martin Luther King, Jr.

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Mateus 5.43-48

Talvez nenhum ensinamento de Jesus seja, hoje, tão difícil de ser seguido como este mandamento do “amai os vossos inimigos”. Há mesmo quem sinceramente julgue impossível colocá-lo em prática. Consideramos fácil amar quem nos ama, mas nunca aqueles que abertamente e insidiosamente procuram prejudicar-nos. Outros ainda, como o filósofo Nietzsche, sustentam que a exortação de Jesus para amarmos os nossos inimigos prova que a ética cristã se destina somente aos fracos e aos covardes, e nunca se pode aplicar aos corajosos e aos fortes. Jesus – dizem eles – era um idealista sem sentido prático.

Apesar dessas dúvidas prementes e persistentes objeções, o mandamento de Jesus desafia-nos hoje com nova urgência.

Insurreições sobre insurreições demonstram que o homem moderno caminha ao longo de uma estrada semeada de ódios, que fatalmente o conduzirão à destruição e à condenação. O mandamento para amarmos os nossos inimigos, longe de ser uma piedosa imposição de um sonhador utópico, é uma necessidade absoluta para podermos sobreviver. O amor pelos inimigos é a chave para a solução dos problemas do nosso mundo. Jesus não é um idealista sem sentido prático; é um realista prático.

Estou certo de que Jesus compreendeu a dificuldade inerente ao ato de amar os nossos inimigos. Nunca pertenceu ao número dos que falam fluentemente sobre a simplicidade da vida moral. Sabia que toda a verdadeira expressão de amor nasce de uma firme e total entrega a Deus. Quando Jesus diz: “Amai os vossos inimigos”, não ignora a dificuldade dessa imposição e conhece bem o significado de cada uma das suas palavras. A responsabilidade que nos cabe como cristãos é a de descobrir o significado desse mandamento e procurar apaixonadamente vivê-lo toda a nossa vida.

Como Amar os inimigos?

Agora sejamos práticos e formulemos a pergunta: Como devemos nós amar os nossos inimigos?

Temos, primeiro, de desenvolver e manter a capacidade de perdoar. Aquele que não perdoa, não pode amar. É mesmo impossível iniciar o gesto de amar o inimigo sem a prévia aceitação da necessidade de perdoar sempre a quem nos faz mal ou nos injuria. Também é preciso compreender que o ato do perdão deve partir sempre de quem foi insultado, da vítima gravemente injuriada, daquele que sofreu tortuosa injustiça ou ato de terrível opressão. É quem faz o mal que requer o perdão. Deve arrepender-se e, como o filho pródigo, retomar o caminho do regresso de coração ansioso pelo perdão. Mas só o ofendido, seu próximo, pode realmente derramar as águas consoladoras do perdão.

O perdão não significa ignorância do que foi feito ou imposição de um rótulo falso em uma má ação. Deve significar, pelo contrário, que a má ação deixe de ser uma barreira entre as relações mútuas. O perdão é o catalisador que cria a atmosfera necessária para de novo partir e recomeçar; é alijar um fardo ou cancelar uma dívida. As palavras “perdôo-te, mas não esqueço o que fizeste” não traduzem a natureza real do perdão. Nunca ninguém, decerto, esquece, se isso significar varrer totalmente o assunto do espírito; mas quando perdoamos, esquecemos, no sentido em que a má ação deixa de constituir um impedimento para estabelecer relações. Da mesma maneira, nunca devemos dizer: “Perdôo-te, mas já não quero nada contigo”. Perdão significa reconciliação, um regresso a uma posição anterior; sem isso, ninguém pode amar os seus inimigos. O grau da capacidade de perdoar determina o da capacidade de amar os inimigos.

Em segundo lugar, temos de reconhecer que a má ação de um nosso próximo, inimigo, – ou seja, aquilo que magoa, – nunca exprime a sua completa maneira de ser. É sempre possível descobrir um elemento de bondade no nosso inimigo. Existe algo de esquizofrênico em cada um de nós, que divide tragicamente a nossa própria personalidade, e trava-se uma persistente guerra civil dentro das nossas vidas. Há em nós alguma coisa que nos obriga a lamentarmo-nos com o poeta latino Ovídio: “Vejo e aprovo o que é melhor, mas sigo o que é pior”, e ou como Platão, que comparava a pessoa humana a um cocheiro que guiasse dois cavalos possantes, e cada um deles puxasse o carro em direções opostas. Também podemos repetir o que disse o Apóstolo Paulo: “Pois não faço o que prefiro e sim o que detesto”.

Isso significa muito simplesmente que naquilo que temos de pior há sempre algo de bom, assim como no melhor existe algo de mau. Quando percebemos isso, sentimo-nos menos prontos a odiar os nossos inimigos. E quando olhamos para além da superfície ou para além do gesto impulsivo de maldade, descobrimos em nosso próximo um certo grau de bondade, e percebemos que o vício e a maldade dos seus atos não traduzem inteiramente aquilo que ele de fato é. Observamo-lo a uma nova luz. Reconhecemos que o seu ódio foi criado pelo medo, orgulho, ignorância, preconceito ou mal-entendido, mas vemos também que, apesar disso tudo, a imagem de Deus se mantém inefavelmente gravada no seu ser. Amamos os nossos inimigos porque sabemos então que eles não são completamente maus, nem estão fora do alcance do amor redentor de Deus.

Em terceiro lugar, não devemos procurar derrotar ou humilhar o inimigo, mas antes granjear a sua amizade e a sua compreensão. Somos capazes, por vezes, de humilhar o nosso maior inimigo: há sempre, inevitavelmente, um momento de fraqueza em que podemos enterrar no seu flanco a lança vitoriosa, mas nunca deveremos fazê-lo. Todas as palavras ou gestos devem contribuir para um entendimento com o inimigo e para abrir os vastos reservatórios onde a boa vontade está retida pelas paredes impenetráveis do ódio.

Não devemos confundir o significado do amor com desabafo sentimental; o amor é algo de mais profundo do que verbosidade emocional. Talvez que o idioma grego nos possa esclarecer sobre este ponto. O Novo Testamento foi escrito em grego; e em sua versão original há três palavras que definem o amor. A palavra eros traduz uma espécie de amor estético ou romântico. Nos diálogos de Platão, eros significa um anseio a alma dirigido à esfera divina. A segunda palavra é philia, amor recíproco e afeição íntima, ou amizade entre amigos. Amamos aqueles de quem gostamos e amamos porque somos amados. A terceira palavra é ágape, boa vontade, compreensiva e criadora, redentora para com todos os homens. Amor transbordante que nada espera em troca, ágape é o amor de Deus agindo no coração do homem. Nesse nível, não amamos os homens porque gostamos deles, nem porque os seus caminhos nos atraem, nem mesmo porque possuem qualquer centelha divina: nós os amamos porque Deus os ama. Nessa medida, amamos a pessoa que pratica a má ação, embora detestemos a ação que ela praticou.

Podemos compreender agora o que Jesus pretendia quando disse: “Amai os vossos inimigos”. Deveríamos sentir-nos felizes por Ele não ter dito: “Gostai dos vossos inimigos”. É quase impossível gostar de certas pessoas; “gostar” é uma palavra sentimental e afetuosa. Como podemos sentir afeição por alguém cujo intento inconfessado é esmagar-nos ou colocar inúmeros e perigosos obstáculos em nosso caminho? Como podemos gostar de quem ameaça os nossos filhos ou assalta as nossas casas? É completamente impossível. Jesus reconhecia, porém, que o amar era mais do que o gostar. Quando Jesus nos convida a amar os nossos inimigos, não é ao eros nem à philia que se refere, mas ao ágape, compreensiva e fecunda boa vontade redentora para com todos os homens. Só quando seguimos esse caminho e correspondemos a esse tipo de amor, ficamos aptos a ser filhos do nosso Pai que está nos céus.
POR QUE Amar os Inimigos?

Saltemos agora do prático como para o teórico porquê.

Por que devemos amar os nossos inimigos? A principal razão é perfeitamente óbvia: retribuir o ódio com o ódio multiplica o ódio e aumenta a escuridão de uma noite já sem estrelas. A escuridão não expulsa a escuridão, só a luz o pode fazer. O ódio não expulsa o ódio: só o amor o pode fazer. O ódio multiplica o ódio, a violência multiplica a violência e a dureza multiplica a dureza, numa espiral descendente que termina na destruição. Quando, pois, Jesus diz: “amai os vossos inimigos”, é uma advertência profunda e decisiva que pronuncia. Não chegamos nós, em nosso mundo moderno, a uma encruzilhada onde nada mais resta do que amar os nossos inimigos? A cadeia de reação ao mal, – ódios provocando ódios, guerras gerando guerras – tem de acabar, sob pena de sermos todos precipitados no abismo sombrio do aniquilamento.

Outro motivo por que devemos amar os nossos inimigos são as cicatrizes que o ódio deixa nas almas e a deformação que provoca na nossa personalidade. Conscientes de que o ódio é um mal e uma força perigosa, pensamos muitas vezes nos efeitos que exerce sobre a pessoa odiada e nos irreparáveis danos que causa nas suas vítimas. Podemos avaliar as suas terríveis conseqüências na morte de seis milhões de judeus, ordenada por um louco obcecado pelo ódio, cujo nome era Hitler; na inqualificável violência exercida por turbas sanguinárias sobre os negros, ou ainda nas terríveis indignidades e injustiças perpetradas contra milhões de filhos de Deus por opressores sem consciência.

Mas há ainda outro aspecto que não podemos omitir. O ódio é também prejudicial para a pessoa que odeia. É como um cancro incurável que corrói a personalidade e lhe desfaz a unidade vital. O ódio destrói no homem o sentido dos valores e a sua objetividade. Faz com que ele considere bonito o que é feio ou feio o que é bonito, confunda o verdadeiro com o falso, ou vice-versa.

O Dr. E. Franklin Frazier, no seu interessante ensaio “The Pathology of Race Prejudice” cita vários exemplos de pessoas brancas normais, simpáticas e acessíveis no seu trato do dia-a-dia com outros brancos, e que reagem com inconcebível irracionalidade e anormal descontrole quando alguém alude à igualdade dos negros, ou ao problema da injustiça racial. Ora, isso acontece quando o ódio invadiu o nosso espírito. Os psiquiatras afirmam que muitas coisas estranhas passadas em nosso subconsciente e grande parte dos nossos conflitos íntimos são criados pelo ódio. Dizem eles: “ama ou morrerás”. A psicologia moderna reconhece a doutrina que Jesus ensinou há muitos séculos: o ódio divide a personalidade, e o amor, de maneira espantosa e inexorável, restabelece-lhe a unidade.

Um terceiro motivo por que devemos amar os nossos inimigos é que o amor é a única força capaz de transformar o inimigo em um amigo. Nunca nos livraremos de um inimigo opondo o ódio ao ódio – só o conseguiremos, libertando-nos da inimizade. O ódio, pela sua própria natureza, destrói e dilacera; e também pela sua própria natureza, o amor é criador e construtivo: a sua força redentora transforma tudo.

Lincoln experimentou o caminho do amor e legou à História um drama magnífico de reconciliação. Quando da sua campanha eleitoral para Presidente, um dos seus mais acérrimos inimigos era um homem chamado Stanton que, por qualquer razão, odiava Lincoln. Todas as suas energias eram empregadas para o diminuir aos olhos do público e tamanho era o ódio que sentia, que chegava a usar expressões injuriosas sobre o seu aspecto físico, procurando ao mesmo tempo embaraçá-lo com as mais azedas diatribes. Mas, apesar de tudo, Lincoln foi eleito Presidente dos Estados Unidos. Chegou então a hora de constituir o seu gabinete e nomear as pessoas que, mais de perto, teriam de participar na elaboração do seu programa. Começou por escolher um ou outro para as diversas pastas e, por fim, foi preciso preencher a mais importante, que era a da Guerra. Imaginai agora quem ele foi buscar: nada menos do que o tal homem chamado Stanton. Houve imediatamente grande agitação lá dentro quando a notícia começou a espalhar-se, e vários conselheiros vieram dizer-lhe: “O Senhor Presidente está laborando num grande erro. Sabe quem é esse Stanton? Está lembrado do que ele disse a seu respeito? Olhe que ele é seu inimigo e vai tentar sabotar a sua política. Pensou bem no que vai fazer?” A resposta de Lincoln foi nítida e concisa: “Sei muito bem quem é Stanton, e as coisas desagradáveis que tem dito de mim. Considerando, porém, o interesse da nação, julgo ser o homem indicado para este cargo”. Foi assim que Stanton se tornou Secretário da Guerra do governo de Abraão Lincoln e prestou inestimáveis serviços ao país e ao seu Presidente. Alguns anos mais tarde, Lincoln foi assassinado e grandes elogios lhe foram feitos. Ainda hoje milhões de pessoas o veneram como a maior homem da América. H. G. Wells considerava-o um dos seis maiores vultos da História. Mas de todos os elogios que lhe fizeram, os maiores são constituídos, decerto, pelas palavras de Stanton. Junto do corpo do homem que ele odiara, Stanton a ele se referiu como um dos maiores homens que jamais tivesse existido, e acrescentou: “agora pertence à História”. Se Lincoln tivesse retribuído o ódio com ódio, ambos teriam ido para a sepultura como inimigos implacáveis, mas, pelo amor, Lincoln transformou um inimigo num amigo. Foi essa mesma atitude que tornou possível, durante a Guerra Civil – e quando os ânimos estavam mais azedos – uma palavra sua a favor do Sul. Abordado então por uma assistente escandalizada, Lincoln retorquiu: “Minha Senhora, não será fazendo deles meus amigos que destruirei os meus inimigos?” Este é o poder do amor que redime.

Apressemo-nos a dizer que não são esses os supremos motivos para amar os nossos inimigos. Há uma outra razão muito mais profunda para explicar por que somos intimados a fazê-lo e essa está claramente expressa nas palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste”. Somos chamados para essa difícil incumbência com o fim de realizarmos um parentesco único com Deus. Somos, em potência, filhos de Deus e, através do amor, essa potencialidade torna-se realidade. Temos a obrigação de amar os nossos inimigos, porque somente amando-os podemos conhecer Deus e experimentar a beleza da Sua santidade.

É claro que nada disso é prático. A vida é uma questão de desforra, de desagravo, de “quem mais faz paga mais”. Quererei eu dizer que Jesus nos manda amar quem nos magoa e oprime? Não serei eu como a maioria dos pregadores idealista e pouco prático? Talvez que numa utopia distante – direis vós – a idéia possa ser realizável, mas nunca neste mundo duro e hostil em que vivemos.

Queridos amigos, seguimos já há muito esses caminhos que consideramos práticos e que nos conduzem inexoravelmente a uma confusão e a um caos cada vez maiores. Vêem-se, acumuladas através dos séculos, as ruínas das comunidades que sucumbiram à tentação do ódio e da violência. Para salvar o nosso país e para salvar a humanidade, temos de seguir outro caminho. Isso não significa o abandono dos nossos retos esforços; devemos continuar a empregar toda a energia para libertarmos este país do pesadelo da injustiça social. Mas nesta emergência nunca podemos esquecer o nosso privilégio e a nossa obrigação de amar. Ao mesmo tempo em que detestamos a injustiça social, devemos amar os que praticam tais injustiças. Será a única forma de criar uma comunidade de amor.

Aos nossos mais implacáveis adversários, diremos: “Corresponderemos à vossa capacidade de nos fazer sofrer com a nossa capacidade de suportar o sofrimento. Iremos ao encontro da vossa força física com a nossa força do espírito. Fazei-nos o que quiserdes e continuaremos a amar-vos. O que não podemos, em boa consciência, é acatar as vossas leis injustas, pois tal como temos obrigação moral de cooperar com o bem, também temos a de não cooperar com o mal. Podeis prender-nos e amar-vos-emos ainda. Assaltais as nossas casas e ameaçais os nossos filhos, e continuaremos a amar-vos. Enviais os vossos embuçados perpetradores da violência para espancar a nossa comunidade quando chega a meia-noite, e, quase mortos, amar-vos-emos ainda. Tendes, porém, a certeza de que acabareis por ser vencidos pela nossa capacidade de sofrimento. E quando um dia alcançarmos a vitória, ela não será só para nós; tanto apelaremos para a vossa consciência e para o vosso coração que vos conquistaremos também, e a nossa vitória será dupla vitória”. O amor é a força mais perdurável do mundo. Este poder criador, tão belamente exemplificado na vida de nosso Senhor Jesus Cristo, é o instrumento mais poderoso e eficaz para a paz e a segurança da humanidade. Diz-se que Napoleão Bonaparte, o grande gênio militar, recordando a sua anterior época e conquistas, teria observado: “Tanto Alexandre como César, Carlos Magno ou eu próprio, criamos grandes impérios. Mas onde se apoiaram eles? Unicamente na força. Jesus, há séculos, iniciou a construção de um império fundado no amor, e vemos hoje ainda milhões de pessoas que morrem por Ele”. Ninguém pode duvidar da veracidade dessas palavras. Os grandes chefes militares do passado desapareceram, os seus impérios ruíram e desfizeram-se em cinza; mas o império de Jesus, edificado solidamente e majestosamente nos alicerces do amor, continua a progredir. Começou por um punhado de homens dedicados que, inspirados pelo Senhor, conseguiram abalar as muralhas do Império Romano e levar o Evangelho ao mundo todo. Hoje, o reino de Cristo na terra compreende mais de um bilhão de pessoas e reúne todas as nações ou tribos. Ouvimos hoje de novo a promessa de vitória:

Jesus há de reinar enquanto o sol

fizer sua viagem cada dia;

o seu Reino irá de costa a costa

até que a lua deixe de mudar.

A que outro coro, alegremente, responde:

Não há em Cristo Leste ou Oeste,

n’Ele não há Norte nem há Sul,

mas a grande unidade do Amor

por toda a vasta terra inteira.

Jesus tem sempre razão. Os esqueletos das nações que o não quiseram ouvir enchem a História. Que neste século vinte, nós possamos escutar e seguir as suas palavras antes que seja tarde demais. Possamos nós também compreender que nunca seremos verdadeiros filhos do nosso Pai do céu sem que amemos os nossos inimigos e oremos por aqueles que nos perseguem.

Este sermão foi escrito pelo Pastor Martin Luther King, Jr., prêmio Nobel da Paz em 1964, nascido em Atlanta, Estado da Geórgia, no dia 15 de janeiro de 1929, e assassinado no dia 4 de abril de 1968, com apenas 39 anos de idade, em Memphis, no Estado de Tennessee. O autor formou-se em Teologia no Seminário Teológico de Crozer, em Chester, em 1955. Logo depois foi consagrado pastor e empossado como pastor-auxiliar da Igreja Batista da Avenida Dexter, de Montgomery, no Alabama. Depois assumiu o pastorado da Igreja Batista Ebenézer de Atlanta, sua cidade natal. O pastor King Jr. foi o maior líder dos movimentos contra a segregação racial nos Estados Unidos e seu nome figura na galeria das maiores personalidades do Século XX.

Renúncia e Paciência

Em muitos momentos é difícil para nós termos o exato momento em que a resignação é a única estrada possível, sobretudo quando o que está em jogo são nossos maiores tesouros, pelos quais jamais temos limites para a luta. É com esse sentimento de luta incansável e obstinação ilimitada que muitos doentes terminais lutam pela vida até seu último segundo na Terra, ou que mães lutam pela vida de seus filhos ao ponto de darem suas próprias vidas quando nenhum outro recurso existe.

Para aqueles que amam não há impedimentos que se lhes afigure fortes o suficientes para lhe serem motivos de resignação. Enquanto houver como lutar, luta-se, e isso é inegociável. Enquanto houver meios, usa-se, e quando não mais houver, encontra-se novos. Desistir da luta? Nunca. O sentimento de impotência lhes é a mais penosa e desesperadora provação, e para vencê-la um coração que ama é capaz de absolutamente tudo que seja ético, e em alguns casos, renuncia-se até da ética e das mais profundas convicções, afim de amparar e ajudar os seres mais amados. Uma mãe que mente descaradamente para conseguir, por exemplo, um exame importante para o filho. Uma esposa que paga propina para um político para conseguir uma cirurgia urgente para seu esposo, ou até uma pessoa que se humilha entrando de ônibus em ônibus afim de pedir dinheiro para alimentar e medicar os filhos. Não há limites para a renúncia, nem mesmo a renúncia da própria dignidade e moral. Muitas prostitutas estão precisamente nessa condição, enfrentando renúncias que muito poucas mulheres suportariam, para que consigam ao fim da noite, levar o suficiente para nada faltar à seus filhos.

Deus vê tudo isso. Vê sob óticas que à nós é vedada. Vê a profundeza do coração de cada um de nós, e o quanto de amor estamos colocando em cada um dos nossos gestos, mesmo os mais errados e reprochados pela sociedade. Vê a nossa nudez espiritual muito mais do nós próprios somos capazes, porque não raras vezes nos escondemos atrás de mil artifícios para nos protegermos da dor. É assim que Deus nos vê: pelo quanto de amor estão impregnadas nossas atitudes, pensamentos e intensões.

Nos momentos da luta que somos chamados à renunciar, não há limites para a renúncia. Mas nos momentos que somos chamados à nos resignar, é quando mais necessitamos de forças para lutar. Não a luta que estávamos acostumados. Não aquela luta que damos tudo que temos, cada um dos vinténs que possuímos, todo o sangue e suor até a última gota. Mas uma luta infinitamente mais difícil para quem ama: a espera. Para essa luta não precisamos renunciar ou nos permitir a destruição se for necessário. Precisamos apenas de paciência. A mesma obstinação ilimitada para a paciência que tínhamos para a renúncia.

A paciência que permite à um cientista passar anos a fio numa mesma experiência para encontrar a cura de uma doença que assola os humanos. A paciência que permite à uma mãe passar anos e anos cuidando carinhosamente do filho que vive em coma num hospital. A paciência que permite que uma esposa espiritual passe séculos e até milênios esperando seu companheiro que vive ainda em zonas inferiores da Vida.

Acredito que muito do progresso que vemos hoje no mundo ocorreu graças à obstinação do homem em lutar contra as adversidades, independente delas terem início em nós ou nos desígnos divinos. E em todas as lutas pelo progresso, pelos nossos amores, pela própria humanidade, e sobretudo pelo nosso próprio progresso íntimo, nós precisamos ser obstinadamente firmes e ilimitados nessas duas virtudes: renúncia e paciência. Ora uma, ora outra, mas sempre as duas.

Não há como progredirmos sem renunciarmos à nós mesmos enquanto ego, sem renunciarmos à prazeres materiais, ou à muitas das coisas que julgamos importantes quando vemos pela visão temporal e limitada, de seres imperfeitos que somos. Da mesma forma que não há como progredirmos sem paciência. Paciência para errar e recomeçar incansavelmente. Paciência com os erros alheios. Paciência com os próprios desígnos de Deus, que muitas vezes não pode atender nossos pedidos, anseios e desejos imediatamente. Paciência com o tempo das pessoas, com o tempo da coletividade, que avança lenta, mas indubitavelmente. Paciência com as diversas formas de pensar, de perceber e de viver das outras pessoas. Paciência para esperar o tempo de Deus, mesmo quando temos que renunciar a nossa desesperadora pressa pelo nosso tempo. Como disse-me um amigo espiritual muito querido: “Nós temos o nosso tempo, mas só o tempo de Deus é o da sabedoria”.

E das coisas mais díficeis para os corações que amam é terem paciência para esperar, renunciando ao tempo de lutar, até que o tempo de Deus se cumpra…

União com Deus

Hoje penso que não há outra Lei de Justiça além da Lei do Amor. A única que reje o destino das almas e dos mundos. E o quanto ela vai demorar para nos alcançar, depende apenas de nós e de Deus que coloca em nossos destinos as ocasiões que nos despertarão o amor, mas ainda assim nós podemos recusar, então no fim continua dependendo de nós. O resto é o caos gerado pelo nosso livre-arbítrio, religiosamente respeitado por Deus. Não consigo mais ver justiça tal qual a entendemos, como mérito ou demérito. Vejo apenas aprendizado e misericórdia, mas ainda isso depende de nós. E o tempo da misericórdia? Só Deus o sabe. Um dia ela chega, inevitavelmente, mas só Ele sabe pelo que teremos que passar até que estejamos prontos para a receber.

A maldade – ou ignorância – existe, atua, escolhe e tem liberdade. Nós, que já aceitamos Deus dentro de nós, conforme nosso grau de amor e possibilidades, atuamos para amenizar-lhes os efeitos, mas acabar com ela depende dos envolvidos estarem ou não em sintonia com a Lei de Amor. Não importa as possibilidades ou nível de compreensão, se somos crianças ou adultos na arte da Vida e do Amor, importa apenas que nunca deixemos de olhar para o amor.

Acreditar no amor e ser fiel à ele é nossa única proteção contra a maldade, se vivemos no meio dela. Olhar sempre para o amor, nunca para as imperfeições que ainda o maculam nas almas, é nossa garantia de imunidade à maldade – e aqui não digo de não sermos atingidos por ela, mas de não nos tornarmos parte dela, em maior ou menor grau. E a única garantia da Vida é que no fim o amor sempre vencerá, haja o que houver. Não há garantia de tempo, de forma, de meios, apenas do fim. Sobre o tempo, a forma, o meio e demais processos, só Deus sabe. Podemos ter probabilidades e planejamentos, mas nunca garantias além do que é Lei: A Harmonia do Amor sempre é o fim de todo caos.

E aprender sobre isso dói, porque somos homens, e como homens pensamos e erigimos nossas Verdades. Quando a ineroxabilidade da Vida destrói nossas Verdades para nos mostrar que a única Verdade é o Amor, nos sentimos perdidos, desamparados e injustiçados. Precisamos de tempo para nos adaptarmos à viver sem o orgulho de termos a Verdade nas mãos, uma Verdade construída por nossas necessidades e possibilidades. Não a temos. Nunca a teremos nas mãos. Só o que podemos ter é a opção de viver essa Verdade e sempre optar por ela, cada vez um pouco mais, até que ela seja nossa própria verdade. Mas só há um ser que a tem nas mãos, e à Ele todos nós estamos submetidos, e nos entregar à Ele verdadeiramente exige muito de nós, saídos do lamaçal do caos e do sofrimento, pequenos aspirantes da Ventura do Amor e da Plenitude.

As feridas da maldade doem, a cura dói, e depois de tanta dor, como não sentir medo? Com Ele sempre estaremos seguros de estarmos caminhando para o equilíbrio, mas quanta dor mais teremos que enfrentar até chegarmos à Ele? Como não temer caminhar de mãos dadas com o Que, não obstante seja todo Amor, permite o sofrimento e a maldade, quando tudo que desejamos é a inocência da felicidade de amar e ser amado, sem desejar mal à ninguém?

Se Ele permite tais coisas como meio de aprendizado, então como acreditar que conhecer o amor, desejar amar e caminhar no amor é garantia de ser feliz? Como ter certeza de alguma felicidade por desejá-la, se acima de nosso desejo por amor e felicidade está nossa necessidade de aprender sobre as coisas da Vida e evoluir nas diversas escolas de Virtudes? Quanto mais nos vemos pequenos diantes de Deus, quanto mais reconhecemos nossa condição de tão, tão pequenos aprendizes, mais vemos que à nossa frente há apenas o desconhecido. O desconhecido que está nas mãos de apenas um Ser, que é incógnita para almas como nós. Confiar no Amor Dele? Sempre, indubitavelmente. Mas como confiar que nosso entendimento de necessidade é o mesmo que o Dele? Nós não podemos lhe sondar os desígnos, mas Ele pode nos sondar toda a imortalidade. Nós não podemos ver de onde Ele vê e nem saber o que só Ele sabe. Então como podemos nos guiar às escuras?

*Pausa para reflexão e prece*.  Talvez a resposta esteja no fato de que Deus atua através de nós, e quando o buscamos, quando entramos em comunhão com Ele, quando oramos e elevamos a alma à Ele com o amor que há em nós e o desejo de servir, nós sentimos a vontade Dele e um impulso irresistível, que nasce do amor. Continuamos sem saber o que Ele sabe e ver de onde Ele vê, mas sentimos no próprio coração, em forma de amor, a vontade Dele, e assim Ele se serve de nós como seus instrumentos, e assim, formamos com Ele uma imensa teia de amor à atuarmos, todos juntos, pela harmonia do Universo. Ele não está em algum lugar, vendo-nos agindo e apenas respeitando nossas escolhas. Ele está dentro de nós, guiando nossas ações amorosas, como o Pai guia seus filhos para o caminho que lhe trará mais crescimento. Ele está no coração da mãe, que sabe exatamente o que seu filho precisa quando chora desta ou daquela forma. Ele está no instinto de todos os animais, que os faz se harmonizarem tão perfeitamente. Ele está na união dos átomos, que os faz se ligarem em formas tão perfeitas. Ele está no amor dos seus filhos, quando esses O buscam e se deixam serem guiados por Ele. Está no amor dos anjos e nos anseios mais sagrados e santos que o amor de nossas almas faz brotar de nossos seres.

Deus está em nós e não em qualquer lugar, distante de nós, nos dando liberdade para fazer tudo por nossa conta, enquanto suas Leis arrumam nossa bagunça. Ele está conosco, dentro de cada um de nós, esperando a hora que escolheremos e Lhe permitiremos viver também através de nós. Nisso consiste o respeito Dele à nosso arbítrio. Ele nunca nos constrange à Lhe aceitar vivo através de nós. No nosso momento, quando permitirmos e ansiarmos, Ele nos acolhe nos braços e não podemos mais olhar para trás. Podemos até tentar, por medo, mas chega um momento que sua força é irresistível. Há quem resista à Ele por muitas eras, mas um dia, por misericórdia, Ele reune a ocasião de mostrar toda sua força e “nos conquistar”, porque resistir à Ele estava nos fazendo mal demais, e Ele quer nossa felicidade, acima de tudo.

Não nos constrange, nos conquista. Podemos, ainda assim resistir, e Ele respeitará e continuará esperando para viver por nós. Nesse caso sofreremos, não por punição, mas porque é resistir à Ele que dói tanto e tanto, e trás tantas feridas e marcas. Temê-Lo, tentar destruí-lo dentro de nós, fugir Dele, escondê-Lo para fingir que Ele não existe em nós, tudo isso que nos destrói, que nos corrói, que nos estraçalha pouco a pouco. E a única cura para todo esse mal é aceitá-Lo, é deixar que Ele viva por nós, é libertá-Lo das prisões que construímos para Ele à fim de que sua força e seu poder nos cure, alivie e nos dê a tão necessária paz. A única forma de não sofrermos com revolta e dor as consequências de nossas escolhas equivocadas, geradas pela ignorância e resistência à Deus, é permitindo que Ele, enfim, viva por nós. E é dessa união perene com Ele que encontramos a tão desejada felicidade, e com Ele, mesmo sofrendo, rendemos graças. Estar com Ele é nossa garantia de felicidade, porque Ser Feliz é viver com e para Deus.

Só Ele pode nos guiar para a cura da nossa loucura. E deixar que Deus viva através de nós é amar. Amar perdidamente, intensa e plenamente. Amar à todos, à tudo, deixar que o amor nos invada, nos consuma, nos envolva e estravaze de nós, e então Deus se mostrará e guiará os nossos passos, vivendo através de nós, por nós e por nossos amores. E Deus nunca erra. Tudo sabe e tudo pode. Nada lhe é impossível.

Gandhi e o Ahimsa

Ontem comprei um livro maravilhoso de Mahatma Gandhi. Estou devorando-o, de tão bom, simples e profundo. É o “Cartas a Ashram”, um conjunto de cartas que ele escreveu à seus colaboradores do Ashram Satyagraha, durante uma de suas prisões. Logo no segundo capítulo, eu me impressionei com o texto “Amor (Ahimsa)”. Poucas vezes na vida li conceitos tão elevados, sublimes, profundos e incondicionalmente altruístas, colocados de forma tão simples, completa e encantadora. Um texto que contém um roteiro para uma vida inteira! Ao lermos essas cartas, que são mais íntimas e ao mesmo tempo universais, conseguimos ver claramente a elevação de sua Grande Alma. Tive que transcrever o texto e publicar aqui, de tão encantada que fiquei!

AMOR (AHIMSA)

Na semana passada vimos que o atalho da Verdade é tão estreito quando certo. podemos dizer o mesmo com relação ao ahimsa. É como se nos equilibrássemos na lâmina de uma espada. Um acrobata, concentrando-se em suas faculdades, pode dançar sobre uma corda suspensa. Mas é necessária uma concentração muito maior agora para seguir a vereda da Verdade e do ahimsa. A mais ligeira distração traz queda. Não é senão através de um esforço incessante que podemos chegar a realizar em nós a Verdade e o ahimsa.

É-nos impossível realizar a Verdade perfeita enquanto formos prisioneiros deste envoltório mortal. Não podemos senão representá-lo pela imaginação. Nosso corpo efêmero não é um instrumento com o qual possamos ver face à face a Verdade, que é eterna. Por essa razão somos levados, finalmente, a contar com nossa fé.

Parece que a impossibilidade de realizar plenamente a Verdade com nosso corpo mortal dá, entretanto, a oportunidade a qualquer ansião que com prudência busca a Verdade, de avaliar o ahimsa. O problema dianto do qual nos defrontamos é o seguinte: “Suporto os que me trazem dificuldades ou os destrui”? Compreende-se, então, que aquele que persiste em destruir os outros seres não vai avante, mas fica simplesmente, onde está, enquanto que aquele que suporta as criaturas que lhe criam entraves vai avante, e leva mesmo, às vezes, outras pessoas consigo. Consequentemente, quanto mais se recorre à violência, mais longe se está da Verdade. Pois lutando contra o inimigo que se procura, no exterior, negligencia-se o inimigo interior.

Castigamos os ladrões porque nos cremos perseguidos por eles, mas se eles nos deixassem tranquilos seria unicamente para atacar algum outro indivíduo. Ora, a outra vítima é também um ser humano, isto é, nós mesmos sob forma diferente, e assim caímos num círculo vicioso. O problema criado pelos ladrões continua a crescer, pois eles consideram o roubo como seu trabalho. Por fim, não percebemos que é preferível suportar os ladrões a persegui-los. Talvez nossa paciência os amenize nos sentimentos. Suportando-os, poderemos compreender que eles não são diferentes de nós, que são nossos irmãos, nossos amigos, e que não devemos puní-los. Mas enquanto suportamos os ladrões, não é preciso que nos resignemos ao que está errado. Isto seria indigno! É então que descobrimos um novo dever. Se consideramos os ladrões como membros de nossa família, é preciso mostrar-lhes tal parentesco. Devemos nos esforçar para encontrar os meios de fazê-los vir até nós. Eis o caminho da ahimsa. Este caminho pode provocar sofrimentos contínuos, e nos obriga a cultivar uma paciência infinita, mas se tais condições forem aceitas, o ladrão será forçado a renunciar a sua vida errada. E assim, passo a passo, chegaremos a estabelecer relações de amizade com o mundo inteiro; compreenderemos a grandeza de Deus, da Verdade. A paz de nosso espírito será mais profunda, apesar dos sofrimentos; tornar-nos-emos mais corajosos e empreendedores; compreenderemos mais claramente a diferença entre o que é eterno e o que não o é; aprenderemos a distinguir entre o que é nosso dever e o que não o é. Nosso orgulho cederá e nos tornaremos humildes. Nossos laços terrestres se relaxarão e o mal que há em nós diminuirá dia a dia.

O ahimsa não é uma coisa simples e grosseira que possa ser descrita. Não fazer o mal a nenhum ser vivente é, sem dúvidas, uma parte do ahimsa, mas isto não é mais que um pequeno aspécto. O princípio do ahimsa é uma luta contra todo pensamento mau, toda precipitação, injustificada, contra a mentira, o ódio, o fato de desejar o mal a qualquer pessoa. Violaremos tal princípio se retivermos conosco o que o mundo tem carência. O mundo precisa do que comemos a cada dia! Há milhões de microorganismos aos quais o lugar que ocupamos pertence, e nossa presença os faz sofrer. Então, que fazer? Suicidar-nos? Esta não é a solução, pois nós admitimos que o espírito, que é ligado à carne, torna-se um corpo novo assim que o antigo é destruído. O corpo somente cessará quando não tivermos com ele nenhuma relação. Esta libertação de todos os laços é a realização de Deus como Verdade. Tal realização não pode ser feita antes do seu tempo. O corpo não nos pertence. Enquanto durar, devemos servir-nos dele como uma coisa que nos foi confiada e da qual somos responsáveis. Considerando também o que pertence à carne, podemos esperar, um dia, a libertação do corpo. Compreendendo as limitações às quais a carne está sujeita, devemos, cotidianamente, esforçar-nos em direção ao ideal, com toda força que temos em nós.

O que foi dito terá, talvez, feito compreender que sem o ahimsa é impossível procurar e encontrar a Verdade. O ahimsa e a Verdade estão tão estreitamente ligados que é impossível separar um do outro. São como duas faces de uma medalha, ou de um disco de metal liso e sem impressão alguma. Quem poderá saber qual é o verso e qual o reverso? Entretanto, o ahimsa é o meio e a Verdade é o fim. Os meios, para serem meios, devem estar ao nosso alcance; o ahimsa é nosso dever supremo. Se aplicarmos os meios com prudência, estejamos certos de que, mais cedo ou mais tarde, chegaremos ao fim. Uma vez que compreendamos isto não pode haver dúvida quanto à vitória final. Quaisquer que sejam as dificuldades a defrontar, quaisquer que sejam as derrotas a que aparentemente nos submetemos, não nos é permitido abandonar a procura da Verdade, que somente é, pois que ela é Deus Ele-mesmo.

Mahatma Gandhi
(Cartas a Ashram – Capítulo 2)

Ser Amado por Deus

Meditar e nos entregar à Deus e ao Cristo é muito mais que encontrar respostas aos nossos problemas e senões, é muito mais que agradecermos ou cultuarmos o Criador e nosso Mestre. Meditar é também conhecer Deus e Sua Vontade. É agradecermos pelo Amor, assistência e devoção com que nosso Mestre, consciência Crística, nos cuida e guia, e ouvir nos recônditos da Alma a resposta de Seu coração humilde, amoroso e devotado, Divino-puro, porém Irmão-íntimo: “- Apenas permita que eu vos ame e vos sirva, e eu que vos terei que agradecer”.

É perceber nos recônditos mais secretos da alma, a pureza espiritual de uma alma que é toda amor e entrega aos seus tutelados do coração, e sentir o júbilo e a paz proclamada pelos “místicos loucos” de todos os tempos. É sentir numa linguagem desconhecida pelos homens, o amor e a devoção da alma  pela qual nós mesmos somos devotos. É perceber pelo encontro de almas, cuja linguagem transcende o intelecto, que o maior de todos os prazeres Daquele à quem chamamos de Senhor, é ser nosso humilde e amoroso servo…

É ter certeza plena e absoluta sem nenhuma prova tangível. É ver além dos olhos, sentir além dos sentidos, compreender além da compreensão humana, é provar na alma o que não se pode provar com a matéria. É sentir a intimidade dos laços mais imperecíveis e concretos entre a nossa alma mundana e a alma divina do Mestre, e compreender que apesar da distância espiritual que nos separa, nós estamos tão próximos quanto próximas podem ser duas almas que se amam.

Como eu te amo, Senhor!

*Suspiro de enternecimento*

Lembrei-me de uma passagem do livro “epopéias da Índia antiga”, de Vivekananda. Ele contava-nos que muitas vezes seu Guru, Ramakrishna, era tido como louco por amar demais à Deus. Um dia, quando ele meditava na floresta, longe do mundo e de todos na esperança de encontrar Deus, apareceu-lhe uma mulher que acabou sendo sua instrutura filosófica. As suas primeiras palavras à ele foram as seguintes:

“Meu filho, bendito é o homem que desse modo enlouquece. Todos neste mundo estão loucos: uns pela riqueza, outros pela fama e por mil outras coisas. Enlouquecem pelo ouro, pelas mulheres, pelos homens, por ninharias, por tudo, menos por Deus. Quando um homem enlouquece pelo ouro, dizem que é honrado e o adulam; porém, se enlouquece pelo amor a Deus, como podem compreendê-lo? Por isso dizem que estás louco, porém tua loucura é a melhor sensatez. Bendito é aquele que enlouquece por Deus”.

Muitos dizem que quem medita ou conversa com Deus à sua maneira que seja, e acaba por comunhar com Ele de Seu Infinito amor por nós, é um louco, místico, sem juízo e muitas outras coisas. Penso que todos os místicos são unânimes em não se importar minimamente em pagar esse preço, o da teórica loucura que o mundo lhes atribui. Penso até que, felizes, construiriam hospícios para viverem como loucos, desde que pudessem continuar comungando com Deus de seu Amor, e tendo nesse encontro as forças espirituais para amar e servir aos semelhantes,  conseguindo viver intimamente com a felicidade e a paz que todos os “não loucos” buscam incansavelmente, sem jamais encontrarem, enquanto tentam comungar com a matéria e servir à si mesmos, porque a felicidade e a paz  perene não está na comunhão, no momento da meditação, mas em amar os semelhantes, como Deus nos ama. Sem isso, a felicidade e a paz daquele que comunga com Deus, dura apenas o tempo da sua meditação.

Amar à Deus

Não me canso de encontrar frases maravilhosas de Paramahansa Yogananda! Estava lendo alguns textos dele e me deparei com uma que tenho que destacar:

“Nosso amor é a única coisa que Deus não possui, a menos que nós o ofereçamos”.

Lemos uma frase como essa e é impossível não parar para meditar no significado dela… É o tipo de frase que nos toca lá no âmago do ser, que nos faz pensar *eu posso dar alguma coisa à Deus*. É como se sentir ao mesmo tempo tão importante e tão feliz! Nós sempre estamos na posição de sermos amados pelo nosso Pai Celeste, de recebermos, recebermos e recebermos. Mas quando, por um momento, nos damos conta de que apesar Dele ser Onipresente, Onisciente e Onipotente, há algo que Ele só tem se nós damos, é… tão pleno! O Amor que vem Dele mesmo, que é sua Assinatura e Dádiva dentro de nós. Nós podemos comungar com Ele do sentimento que move o Universo. Podemos partilhar com Ele da dádiva que Ele mesmo nos deu, como um filho que, feliz, brinca junto com seu pai, com o brinquedo que ele lhe deu. Nós podemos “brincar” de amor com Deus, e isso é tão maravilhoso! Amá-Lo e permitir que Ele nos ame é a maior de todas as alegrias que alguém pode ter. Sentir Seu Amor fluir através de nós e sentir nossa alma se expandindo desse sentimento e indo de encontro à Ele é a paz absoluta, a ventura suprema, a comunhão completa! É mergulhar num Amor, numa vibração, num halo de paz e plenitude que nada mais pode proporcionar igual. É desejar jamais sair desse estado, é desejar que o mundo páre alí, naquele momento, e se eternize naquele encontro entre Pai e Filho. É como dar um presente e receber infinitamente mais do que deu. Amar à Deus é acima de tudo, encontrar o eco infinito do nosso próprio Amor, que nada mais é, do que reflexo Dele em nós.

É *impossível* comunhar Amor com Deus uma única vez e não desejar fazer dessa comunhão  a meta suprema da Alma para o resto da Eternidade. Só encontra na matéria e nas sensações do mundo, o objeto de maior prazer, quem nunca amou à Deus verdadeiramente. Sentir a comunhão com Deus uma só vez, faz que todo o resto do mundo perca o sentido de prazer. Depois disso sobra apenas vício e condicionamento, não mais prazer. E quanto mais comunga-se com Deus, mais a alma implora e necessita se desvencilhar do que é mundano, do que serve apenas ao corpo físico. Quanto mais amamos à Deus e permitirmos sermos por Ele amados, mais puros desejamos ser, mais com Ele e menos com o mundo desejamos estar. Não é à toa que, por muitos milênios, milhares de almas viveram em contemplação absoluta por toda a vida. É um tipo de vida que não acho boa, porque o melhor da partilha é trabalhar juntos, e para trabalhar com Deus, temos que estar no mundo e entre as outras pessoas. Precisamos apenas viver no mundo, convivendo e servindo nossos irmãos, pertencendo à Deus, somente à Deus. E estaremos em paz e plenos de Amor, haja o que houver. Não é fácil, mas sentir a comunhão com Deus nos dá uma força e uma firmeza de alma, inéditas! A força dos que lutam por seus sonhos, mas multiplicadas, porque estaremos lutando não por sonhos de Vida, mas pela Realização Suprema da Alma Imortal!

Yogananda é uma alma extraordinária mesmo. Tem colocações primorosas, que fazem toda nossa alma meditar como por encanto!