Cristãos de Facebook

cristaos_martires_coliseu_leoesEstava lendo o livro “Vivendo com Jesus” da autora espiritual Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Franco, e veio na minha mente a dificuldade que os primeiros cristãos enfrentaram ao trabalharem para o Cristo. Imediatamente pensei nas questões trabalhistas da atualidade e comecei a pensar: por que os primeiros cristãos sofreram tanto e tão superlativamente ao trabalharem para Jesus, se o próprio mercado de trabalho protege o bem-estar do trabalhador? E como podemos colocar isso na nossa vida presente, nos dias atuais com tecnologia e comunicação virtual? Tive que parar e vir escrever as reflexões que vieram rápidas na minha mente, antes que elas se perdessem.

A resposta parece meio óbvia, mas muitos de nós esquecemos constantemente e estamos sempre nos sentindo “abusados” por Jesus quando algum trabalho que façamos para Ele de ajuda à necessitados, começa a nos exigir mais que nosso tempo livre de lazer. Geralmente, quando nos achamos “iluminados”, trocamos o lazer (a novela, o cinema, o teatro, etc) por algum trabalho na organização religiosa à qual pertençamos. Alguns de nós, nem mesmo precisamos nos deslocar à algum lugar, “trabalhamos” pelo Cristo em casa mesmo, indo aos grupos de debates do facebook ou nas listas de discussão do yahoo grupos, e então nos sentimos plenos de “nós mesmos”, por sermos tão “caridosos” ao abrirmos mão da novela, para ficarmos debatendo temas religiosos com outras pessoas pela internet, no aconchego da nossa casa.

Um belo dia, porém, o marido/esposa ou os filhos e amigos começam a “sentir nossa falta”, porque afinal, em vez de estarmos lá no sofá assistindo novela juntos, ou estarmos lá falando mal do vizinho com a amiga, estamos indo à um grupo de ajuda à necessitados e até mesmo doando o mínimo no aconchego do lar pela internet mesmo. E eles reclamam. E o tempo para família e vida social começa a ficar um pouco menor, e eles reclamam mais a nossa presença, chamam-nos irresponsáveis, dizem que se estamos na terra, temos que cuidar dos assuntos da terra e deixar que os assuntos do céu fiquem com os santos/anjos/espíritos, que o problema dos outros não é da nossa conta, que cada qual que carregue sua cruz. E nós que já estávamos mesmo cansados de tanto trabalharmos “de graça”, gastando o tempo da nossa família/amigos/vida pessoal com pessoas cheias de problemas e às vezes até desagradáveis, que não tinham nada a ver com nossa vida ou se tinham, estavam abusando da amizade, acabamos por ceder e abandonar tudo pra seguirmos nossa vida comum, nos sentindo abusados pelo Senhor e Seus necessitados.

Afinal, pensamos, nas Leis Trabalhistas que regem o país, dizem que o trabalho deve fazer bem ao trabalhador, se ele é abusivo, pode até se enquadrar em Assédio Moral, e definitivamente aquele trabalho assistencial não estava fazendo bem ao convívio familiar, à nós mesmos e ao ambiente particular à nossa volta. Sentimos, então (mas sem expressar, porque não temos coragem de assumir isso nem para nós mesmos) que o Cristo está praticando assédio moral conosco e abandonamos Sua vinha. Obviamente continuamos nos dizendo cristãos, trabalhadores da última hora, de vez em quando pegamos o celular com acesso à internet e enquanto estamos utilizando o toialete, digitamos um texto falando sobre situações da nossa vida, muito bem escrito sempre, com palavras rebuscadas, para colocarmos nos facebook ou blog, ou onde seja, comparando nossas vidas com passagens de Jesus e dizendo o quanto O seguimos, ou o quanto tentamos segui-Lo sem conseguirmos, porque também temos que ser modestos para disfarçar nosso orgulho. Dalí à algumas horas entramos outra vez rapidinho para vermos quantas curtidas e comentários tivemos, quantos aplausos para nossa alma iluminada e nossas palavras tão bonitas. Nossa auto-estima fica elevada, e sentimos que agora sim estamos “fazendo a coisa certa”, porque as pessoas estão nos tratando com respeito, estão nos admirando, estão alí todo dia para curtir nossas publicações, ao mesmo tempo que estamos com tempo para cuidarmos do nosso pequeno núcleo familiar, para ouvirmos música, lermos um livro, vermos um filme, conversarmos com os amigos, debatermos assuntos de nosso interesse particular, etc. Finalmente, depois de tanto sofrimento vão naqueles trabalhos assistenciais que nos sugavam todo o tempo livre e as energias, estamos nos sentindo plenos e felizes, afinal, estamos trabalhando ativamente pelos nossos interesses particulares e usando o tempo do banheiro para evangelizar as pessoas com passagens da nossa vida cristã (que claro, é um exemplo e deve ser sempre exposta ao mundo para ajudar as pessoas).

Nesse momento, precisaríamos realmente sairmos da letargia que se encontra nosso espírito. Nossa perda é quase total… Pensamos então nos primeiros cristãos que sofreram todo tipo de abuso físico, moral, emocional e psicológico para trabalharem na vinha de Jesus. Se pensamos que nossa esmola ao Cristo é abuso, imaginemos então o que não poderiam dizer Pedro que foi crucificado, Paulo que sofreu todo tipo de sofrimento (literalmente apedrejado muitas vezes, abandonado por todos que amava, tido como louco pela família, tratado como lixo humano pela sociedade), Bartolomeu que foi esfolado vivo, muitos outros que foram tochas humanas em orgias, alimento para leões, que sofreram todo tipo de dificuldade para que o evangelho chegasse vivo até nós hoje, e nos beneficiasse ao longo dos séculos nas nossas muitas vidas…

Podemos pensar nos novos cristãos, se ao pensarmos nos primeiros, ficar muito difícil por começarmos a justificar questões sociais da época em que eles viveram. Pensemos então em trabalhadores como Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, a dona Maria que ninguém conhece, mas que cuida de uma casa para crianças com problemas mentais, tendo-as todas como seus filhos amados, ou o senhor José anônimo, pai de 7 filhos, que além de cuidar da esposa, dos filhos, de trabalhar para sustentá-los, ainda preside uma instituição religiosa, participando de todas as atividades assistenciais e de esclarecimento à encarnados e desencarnados. Sua esposa e filhos, no início reclamaram, mas a força e a determinação do seu exemplo na prática do bem e seu amor à Jesus e ao próximo, acabou por arrastar toda a família para o trabalho assistencial junto com ele.

O trabalho para Mamon realmente precisa nos fazer sentir bem como pessoas materiais, porque ele visa justamente o retorno financeiro e material. Se o trabalho físico, remunerado e com fins lucrativos não estiver fazendo bem, não estiver nos dando lucro e não estiver zelando pela sustentação da nossa família, tem alguma coisa errada, é fato. Mas o trabalho para o Cristo é Caridade, é doação, não temos que receber nada em troca além da satisfação de servir, além de benesses puramente espirituais, e ainda estaremos no lucro, porque na verdade estamos trabalhando para quitar dívidas, e mesmo assim a misericórdia de Deus ainda nos beneficia com a paz de espírito, algo que não tem sequer preço de tão valioso que é! Não temos que receber nada dos necessitados (e aqui falamos não só de matéria, mas de emocional também) e nem temos que receber nada do nosso Chefe, embora Ele sempre nos dê, sempre nos presenteie, sempre nos encha de bônus imerecidos, de assistência e amor incondicional!

Hoje o Cristo não nos pede mais o sacrifício das torturas físicas, mas ainda necessita de alguns sacrifícios sim, sobretudo do sacrifício que é para nós abrirmos mão do nosso ego e dos nossos interesses privados, para doarmos um pouco da nossa vida para Ele e para aqueles que Ele trás à nós necessitando de alguma ajuda. Em alguns momentos com certeza vai ser difícil, porque inimigos do bem encontramos em toda parte, e alguns deles são realmente ferozes e poderosos, conseguem mesmo nos desequilibrar e nos derrubar, mas pensemos naqueles cristãos da primeira e da segunda hora que sofreram muito mais e enfrentaram as feras de ontem para que hoje a mensagem evangélica pudesse estar à nosso dispor. Eles próprios continuam trabalhando na vinha e nos pedem ajuda… Não podemos negar com a desculpa de termos uma vida particular para cuidar. Não podemos ser tão fracos e covardes para praticar o bem, porque certamente no passado, em vidas recuadas, éramos bastante firmes, fortes e corajosos para praticar o mal. Temos que ter aquela mesma determinação que tínhamos no passado quando fazíamos o próximo sofrer, ao trabalharmos hoje para o Cristo e fazermos o bem, aliviando as dores de quem sofre. Temos que suportar espinhos de todas as matizes (dores piores infringimos à outros no passado) se quisermos ser minimamente dignos de dizermos que somos cristãos como alardeamos às pessoas que aplaudem nossas máscaras de bondade… Temos é que termos vergonha de usarmos e abusarmos da mensagem cristã para promovermos nossa imagem junto à sociedade, e realmente aproveitarmos nossa vida na terra trabalhando! Não estamos aqui à passeio, estamos à trabalho, e o trabalho para o Cristo pode ser sim muito árduo, porque árduas são as dores do nosso próximo, porque árduo é voltar sobre nossos passos errados de antes, porque árduo é abandonarmos nossas fugas e ilusões de segurança, mas no fim não será árduo nosso retorno para a Pátria Espiritual, pelo contrário, será com Paz que olharemos para nossas cicatrizes de trabalho e que nos sentiremos verdadeiramente dignos!

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Sucesso e Fracasso

Há um tempo atrás estava lendo o lindíssimo livro “Luz do Mundo”, do espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, quando me deparei com essa passagem, que segundo a autora, foi dita por Jesus:

“Meu Pai dispõe de recursos que nos escapam e como é o Autor de tudo e de todos, cumpra cada um irrestritamente com o seu dever, transferindo para Ele, o Senhor de todos nós, os resultados do nosso trabalho”.

Foi impossível não notar nas palavras escritas pela autora cristã, um trecho praticamente idêntico ao Bhagavad Gita, escritura sagrada do Hinduísmo. Nesta jóia da Espiritualidade indiana podemos ver esse trecho, onde Krishna diz a Arjuna:

“Aquele que executa seu dever sem apego, e entrega os resultados ao Deus Supremo, não se afeta pela ação pecaminosa, tal como a pétala da flor de lótus que nunca é tocada pela água”.

São muitas, muitas passagens na Bhagavad Gita que fala sobre executar o dever sem apego, entregando o resultado nas mãos de Deus, de tal forma que essa é, sem dúvidas, a mensagem mais marcante dessa escritura. Segundo Krishna, nessa outra passagem, é a essência da Yoga:

“Você tem o direito de cumprir seu dever prescrito, mas não aos frutos da ação. Nunca se considere a causa dos resultados de suas atitudes, nem jamais se apegue ao não cumprimento de seu dever. Seja firme no yoga, ó Arjuna! Execute seu dever e abandone todo apego por êxito ou fracasso. Semelhante estabilidade mental se chama yoga”.

Já escrevi sobre essa reflexão aqui algumas vezes, porque ela me parece a maior de todas as mensagens de caridade absoluta, existente na nossa História. Foi difícil até para os santos que viveram aqui, seguirem essa recomendação de Krishna, porque trabalhar como uma plena extensão de Deus no mundo é dificílimo, mais ainda quando estamos imersos na matéria. Como cumprir nossos diversos deveres do mundo sem esperar qualquer resultado das nossas ações? Como trabalhar, viver, interagir, amar e construir, sem esperar jamais que tudo isso resulte na satisfação dos nossos desejos? Como renunciar completamente à satisfação dos nossos desejos, mesmo os nobres e puros? Como ter a consciência plena de que, acima de qualquer desejo que possamos ter, está o Desejo Absoluto de Deus?

É muito difícil, porque se cumprimos um dever, se estamos imersos na realização de algo, se estamos nos dedicando, nos empenhando em uma tarefa, naturalmente nós desejamos que ela seja bem sucedida *segundo a forma como conseguimos entender o sucesso de algo*. É muito difícil para nós entendermos que, muitas vezes, o fracasso é o resultado que Deus deseja, porque ele será mais útil para nós ou para o contexto no qual vivemos, que a vitória. É muito difícil para nós abrirmos mão de um resultado sempre satisfatório das nossas ações, afinal, se trabalhamos é para dar certo, não é? Mas como podemos ter certeza que o nosso “dar certo” é o mesmo “dar certo” de Deus? Não podemos saber, porque “Nosso Pai dispõe de recursos que nos escapam”. Só o que podemos fazer é cumprirmos os nossos deveres, entregando sempre à Deus o resultado das nossas ações. Cabe à Ele guiar para o sucesso, e ele *sempre* guia para o sucesso, mesmo quando aos nossos olhos parece um fracasso.

A Ordem e a Harmonia sempre se fazem… Nós é que temos muito caos interior, e não conseguimos ver que Deus, haja o que houver, está no leme do Universo inteiro, fazendo tudo funcionar com perfeição. Não adianta chorarmos pelo aparente fracasso de algo, só adianta sermos firmes e jamais desistirmos do cumprimento dos nossos deveres, não importando se no fim, aparentemente deu tudo errado, tendo sempre a consciência de que, quando cumprimos com nosso dever, estaremos trabalhando para Deus, não para nós.

Muitas vezes nós não podemos saber porque algo pelo qual batalhamos tanto, deu “errado”, mas Ele sempre sabe…

Humildade X Baixa-Estima

Há um tempo atrás eu comprei um livro que nas resenhas me chamou muito a atenção. Seria a publicação de várias cartas pessoais e íntimas de Madre Teresa de Calcutá. Eu adoro ler esse tipo de literatura, quando conseguimos sempre observar um grande ícone sob a sua própria ótica, despida dos louros que os títulos trazem. Numa biografia comum, geralmente é mostrado o ícone, mas numa autobiografia, ou em escritos pessoais, vemos muito mais que o ícone, vemos o ser-humano, o Filho de Deus por trás de toda a realização. Eu sou fascinada por leituras assim, porque aprendo sempre a respeitar muito mais a alma que se superou e se destacou em dedicação à Humanidade, não porque era mais Filho de Deus que qualquer um de nós, mas porque teve a coragem, a determinação e a entrega que nós não temos… Acima de serem ícones, são grandes exemplos de vida!

Mas fiquei um tempo, quase 2 anos sem terminar a leitura do livro. Não sei porque me desinteressei por ele na época. Lembro que parei de lê-lo para me concentrar numa biografia de Santa Clara, que se tornou um dos meus livros favoritos. Meu sonho era ter uma autobiografia de Santa Clara! Tantas atitudes que ela teve que para mim são mistérios insondáveis! Por que se auto-imolar sendo ela tão lúcida? Por que pedir esmolas, se Jesus – exemplo máximo – teve um ofício? Enfim, muitas perguntas que ficamos quando lemos biografias, por isso gosto tanto das autobiografias.

Mas isso fica para outra hora. Queria refletir sobre um trechinho do livro de Madre Teresa. O livro chama-se “Madre Teresa, venha, seja minha luz” e foi organizado por Brian Kolodiejchuk.

“Por que foi que tudo isso chegou à mim – a mais indigna das Suas criaturas – não sei – e tentei tantas vezes convencer Nosso Senhor a procurar outra alma, uma mais generosa – uma mais forte, mas Ele parece gostar da minha confusão, da minha fraqueza”. (trecho de uma carta de Madre Teresa à Madre Gertrudes, Superiora do Convento onde ela vez seus votos na Índia)

Isso é algo que sempre me intriga quando leio relatos de santos, grande ícones de virtudes e pessoas que se destacaram por fazer o bem e amar. Todos sempre se acham as piores criaturas, as mais pecadoras e mais fracas. Fico tentando imaginar o quanto disso é humildade e o quanto é baixa-estima. Pode ser apenas uma humildade imensa, mas tem toda a cara de baixa-estima, e confunde à nós, reles mortais.

Jesus, até onde se tem notícia, foi o Ser mais humilde que pisou nesse mundo. E Ele verdadeiramente *é* humilde. O maior de todos, sem dúvidas. Mas não se tem notícia de Jesus ter se menosprezado, de ter-se rebaixado como o pior dentre os piores. Pelo contrário, Ele sempre se valorizou como Filho de Deus. Claro que ele não tinha mais os defeitos que todos nós – até os Santos – temos, mas se Ele veio até nós para nos servir de exemplo máximo, então por que nos ensinou à nos valorizarmos tal qual Ele se valorizava?

Muitas vezes ele reerguia os pecadores, e mostrava à eles o quanto eles tinham valor como Filhos de Deus, e que tinham que fazer juz à esse valor! Convidava os mais pecadores à obrar em nome de Deus, à se auto-respeitaram abandonando o crime e buscando uma vida digna. Tirou a prostituda de Magdala de uma vida regada à todo tipo de devassidão, e transformou-a num dos maiores exemplos de renúncia, caridade e superação que se tem notícias. Fez de Mateus, um cobrador de imposto desonesto, um dos evangelistas mais lidos de todos os tempos.

Ele não era só um Mestre perfeito, era também um Psicólogo Sublime, porque trazia as almas da escuridão total de si mesmas, para a busca incessante da sua Luz Íntima, onde o Pai brilha e reluz sempre. Ele nunca quis que nos rebaixássemos e desvalorizássemos, mas quis sim, que cientes dos nossos pecados, abríssemos mão da prática deles, passando a nos auto-respeitar como criaturas dignas de serem instrumentos de Deus no mundo, em vez de instrumentos do mal.

Claro que Madre Teresa era digna da tarefa que à ela foi confiada, tanto quanto todos nós somos dignos das pequeninas tarefas que Deus nos confia, mesmo a mais insignificante. Claro que Madre Teresa era forte, porque só uma alma forte como ela seria capaz de abrir mão de seu ego para se dedicar inteiramente à Humanidade simplesmente porque essa era a Vontade de Deus. Eu, por exemplo, tão cedo na minha evolução não serei capaz disso, porque ainda sou muito apegada à meus problemas, à meus sentimentos, dores, alegrias, desejos e sonhos. Minha força e dignidade está limitada à tarefas bem pequenininhas, cotidianas e mundanas, por isso mesmo que Ele não me chama ainda para cuidar da Humanidade, só da minha filha mesmo já tá bom. Ainda nem tô perto de abrir mão de mim, então imaginem que à começar por mim, há gente muito mais indigna e fraca que ela, portanto não é justo que ela pensasse isso de si mesma, que ela se desvalorizasse assim.

Aí que penso estar a pedra de toque entre a humildade e a baixa-estima. Ela era verdadeiramente humilde por reconhecer que toda a obra era de Deus, não dela. Que ela era apenas instrumento Dele, e nenhuma nesga de vaidade ou orgulho saía de suas palavras, todo o tempo ela era só um instrumento, por mais que ela precisasse se superar e se esforçar pessoalmente para que a obra tivesse andamento, nunca depositava em si os louros das vitórias. Todo o tempo era Deus atuando através dela. Agora penso que a baixa-estima vinha da sua desvalorização enquanto Filha de Deus, porque se Ele a estava utilizando como instrumento, era porque ela tinha condições para tal. Nós não somos objetos que Deus usa sem que tenhamos nenhuma participação nisso.

Se assim fosse, então para que nos esforçarmos tanto para evoluirmos, para melhorarmos, para nos tornarmos instrumentos mais capazes, mais hábeis, mais úteis. O mérito da obra é de Deus, mas o mérito do nosso aprimoramento é nosso. Se fôssemos meros objetos inúteis que Deus, em Sua misericórdia, desse alguma utilidade, então por que Ele não chama um egoísta total para obras como a de Madre Teresa? Porque o egoísta ainda não se aprimorou suficientemente para ser instrumento de Deus em tarefas que exigem desprendimento do ego. Deus chama o egoísta para outras tarefas.

Nossa utilidade para Deus e sua Obra está sempre de acordo com nossas conquistas, com nosso próprio mérito. Se Ele a chamou para realizar tal obra, claro que era porque ela tinha méritos e possibilidades, e ela devia se sentir feliz consigo mesma por isso, se amar e respeitar como uma criatura valorosa, sem nunca achar que a obra era sua, como os vaidosos e orgulhosos acham, mas ciente também de suas possibilidades, não só de suas fraquezas. Ela não era tão ruim como pensava, tanto que Deus, o único que pode nos ver com perfeição, a achou digna e pronta.

Temos que aprender a nos valorizar, sem pecarmos pelo orgulho e vaidade, como geralmente fazemos. Acho essa uma das tarefas íntimas mais difíceis de serem realizadas, porque temos o hábito de nos valorizarmos pelas nossas supostas realizações, não pelas nossas vitórias sobre nosso ego. Achamos que somos o máximo porque fazemos caridade, quando na verdade é Deus que nos aproveita para socorrer quem precisa. Nós não fazemos caridade, nós nos pré-dispomos à sermos instrumentos de Deus, e temos o dever de nos aprimorarmos cada vez mais, para que possamos ser melhores e mais capazes instrumentos.

E como nos aprimoramos? De muitas formas, mas uma das favoritas de Deus é o sofrimento. Por que o sofrimento? Porque é quando sofremos que conseguimos entender o sofrimento das outras pessoas. É quando sofremos que aprendemos a nos sensibilizar com o sofrimento dos outros. Antes de sofrermos, estamos sempre centrados em nós. Depois que sofremos, passamos a ver o sofrimento dos outros com mais compaixão, com mais empatia, e por isso mesmo ficamos mais *dispostos* à trabalhar junto com Deus para minorar as misérioas do mundo. Enquanto estamos distraídos com nossa felicidade e bem-estar, Deus tem dificuldades de nos sensibilizar para o trabalho de Amor e Misericórdia que há para fazer em toda a parte.

Temos muitos planos, muitos sonhos, muitas coisas à realizar por nós mesmos, e quanto mais felizes e vitoriosos no mundo, menos nos dispomos aos planos, sonhos e realizações de Deus. Por isso às vezes Ele nos faz sofrer e até nos tira tudo, para que paremos de nos distrair e aprendamos a valorizar o sofrimento dos outros e a termos disposição para minorá-los, tanto quanto desejamos que o nosso fosse minorado, quando foi a nossa vez de sofrer.

Madre Teresa, sem dúvidas, em algum momento de sua evolução, sofreu bastante (como acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde), e agora veio ao mundo para se dispor totalmente à Deus afim de minorar o máximo que suas forças permitissem, o sofrimento dos mais sofredores. Ela já nasceu vitoriosa, já nasceu disposta à Deus e desapegada de seu ego. E certamente nessa vida ela se superou em forças e em possibilidades, porque precisou crescer e realizar mais superações no decorrer da realização da obra de Deus, e por isso, em próximas oportunidades, será ainda mais digna e mais capaz do que foi nessa vida.

E assim é com todos nós, desde os mais ególatras até os Santos. Todos somos instrumentos de Deus, mas depende de nós sermos cada vez melhores e mais capazes instrumentos, com humildade para reconhecer que a obra não nos pertence, mas com auto-amor e auto-respeito para reconhecermos nossa parecela de mérito, dignidade e vitória pessoal em tudo que Deus realiza através de nós.

Reino de Deus em Nós

Ando refletindo muito sobre uma passagem do livro “Luz do Mundo” de Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo P. Franco. A passagem é a seguinte:

” – O Reino de Deus – concluiu o Mestre – está dentro de cada um que o deseje. Não é trabalho externo, antes resultado do excelente labor anônimo e sacrificial nas noites de silêncio, nos dias de angústia e dor libertadora. Ninguém o verá, e esse herói, aquele que o conseguir realizar, não receberá aplauso, passando entre os homens desconsiderado, incompreendido, malsinado, todavia em paz consigo mesmo e em harmonia com Deus…”.

Achei tão perfeita essa colocação! De uma sabedoria e profundidade tão grande! Geralmente temos a ilusão de que aqueles que se destacam no trabalho externo é que estão caminhando no Reino de Deus… Mas quem pode julgar o íntimo das pessoas? Até que ponto o trabalho externo é resultado do amor? Quem pode julgar se uma pessoa que se destaca entre as demais no labor evangélico, vive intimamente tal qual um verdadeiro seguidor do Cristo? Ninguém pode julgar isso além de Deus…

Muitas vezes aqueles que se destacam menos são justo os que mais paz íntima possuem. Muitas vezes alguém que sequer faz algum trabalho evangélico, está mais em harmonia consigo mesmo e com Deus do que um que se diz cristão. E isso nem é raro. Achei interessante a observação da passagem quando destaca-se que o Reino de Deus é conquista íntima, não externa. Que conquistamos o Reino de Deus após laboriar muito dentro de nós mesmos, de sofrermos todas as dores do autoconhecimento e auto-burilamento. É também sofrendo as consequências dos nossos atos, nos reajustando diante das Leis de Deus, e encontrando assim a paz da consciência livre.

Dói… Dói muito encontrar dentro de nós o Reino de Deus. É preciso dores atrozes, solidões escuras onde apenas o Mestre nos acompanha, para que reconheçamos Seu Augusto Amor, e solidifiquemos a nossa Fé e União com Ele. É na dor soberana que encontramos o Reino de Deus, aquele lugar indubitavelmente seguro dentro de nós, onde encontramos a paz. Uma paz que é só nossa, fruto da libertação da consciência e da reconquista de si mesmo. Uma paz que não foi dada, que não foi encontrada em templos, livros ou teorias, mas conquistada à custa de muito sofrimento, das provações mais singulares e penosas, de ter a alma inteira destruída e refeita. A força que vem dessa paz é inabalável, porque é resultado da união definitiva entre criatura e Criador. Haja o que houver, o Reino de Deus está estabelecido no nosso coração, e a Paz reina mesmo na tempestade…

Tal qual uma frase que li uma vez no livro “Paulo e Estevão”, numa ocasião em que Paulo é apedrejado sentindo aquela paz angélica e confiança irrestrita em Deus. Achei-a perfeita para descrever o encontro com o Reino de Deus: “Na prova rude e dolorosa, compreendeu, alegremente, que havia atingido a região de paz divina, no mundo interior, que Deus concede a seus filhos depois das lutas acerbas e incessantes, por eles mantidas na conquista de si mesmos”.

Tem um momento da luta que os golpes já não surtem mais efeito, não porque não doam, mas porque estamos em paz. A segurança do Reino de Deus não nos permite temer ou revoltar, só nos permite confiar e prosseguir com Deus.

Penso que o trabalho externo acaba sendo consequência dessa conquista, não meio de conquistar. Há muitos de nós que buscam o trabalho externo afim de conquistar o Reino de Deus pelo “meio mais fácil”, mas com o passar dos anos, as experiências da vida vão nos ensinando que o meio mais fácil é aquele que julgamos mais difícil…

Não sou defensora do sofrimento, mas tenho que admitir que ele é um meio muito eficaz para encontrarmos Deus e a paz… Tenho que admitir a sabedoria de Deus ao permitir nosso sofrimento em determinado ponto da caminhada afim de nos conduzir à Seu Reino. Um sofrimento que só existe até que O encontremos dentro de nós… Depois que encontramos o Reino de Deus, não somos mais capazes de sofrer as dores que nos levaram àquele ponto de Encontro, justamente porque O encontramos. Os sofrimentos se modificam, mas todos são enfrentados com Paz e Harmonia com Deus.

Por tudo isso ando pensando muito naquela passagem… Na ilusão que temos de ver o exterior e julgar coisas e situações que apenas Deus é capaz de julgar. Nem sempre o exterior é reflexo do interior, e nem sempre alguém que prega a paz vive em paz. Da mesma forma que nem sempre aquele que julgamos o último, está perdido… Talvez estejamos mais perdidos que ele no fim…

Isso foi só uma breve reflexão pessoal, portanto desculpem se o texto estiver um tanto reflexivo demais e com lógica de menos… :)

Discrição de Deus

Deus é sempre um Pai Amoroso, isso todos sabemos, mas há uma outra “faceta” de nosso Pai que acho extremamente fascinante. A forma como Ele é discreto e soberano ao mesmo tempo. Muitas vezes nós, acostumados a ver a soberania trajada da exuberância dos grandes feitos, não conseguimos ver o discretíssimo convite que há na Obra do Senhor. Vemos as estrelas e nos encantamos. Vemos as fotos das galáxias e nos espantamos. Vemos a sincronia da Natureza e percebemos o quanto Deus é Soberano e Perfeito! Mas apesar de vermos sua soberania, raramente percebemos as discretas lições e chamados que Ele nos dá todo o tempo.

É linda a forma como Ele nos educa com lições discretas, porém firmes e inesquecíveis. Com as abelhas e as formigas, por exemplo, Ele nos ensina a importância do trabalho em equipe. Com os oásis em meio aos desertos nos ensina que, por mais longa e escaldante seja a nossa viagem, precisamos de pequenos períodos de refazimento entre trajetos longos, nos mostrando que é importante termos consciência de nossos limites e não ultrapassarmo-os nem nas viagens e trabalhos mais importantes, para que não morramos no caminho. Com a beleza artística das flores Ele nos mostra que a Arte, as cores, a harmonia das formas é tão importante quanto o fruto, que não precisamos deixar a beleza e a arte para encher a Vida dos frutos do Amor e da Caridade. Se Ele não gostasse de Arte e de beleza, não teríamos uma Natureza tão exuberantemente bela! Com os pequenos rios que enchem os imensos oceanos, Ele nos ensina que todos os trabalhos, por menores que sejam, são importantes para que o Todo exista. Nos ensina que, aos poucos, com paciência e perseverança, podemos alcançar os grandes oceanos de realizações. E poderíamos passar aqui todo o dia lembrando de lições importantíssimas que Deus nos dá de forma tão discreta e encantadora, todos os dias na Natureza que nos ronda e da qual fazemos parte!

E uma das mais belas lições que Ele nos dá é a da fé que precisamos ter em seu Amor e Sabedoria. Ele não chega para nós pessoalmente para dizer-nos imperiosamente: “Tenham fé em mim, meus filhos, pois que sou o Todo-Poderoso que à tudo governa e que tudo criou!” Penso que não há no Universo ser mais humilde e discreto do que Deus ao se dirigir à nós, suas criaturas e filhos tão amados… Ele nos fala das formas mais indiretas, discretas e humildes, para não ferir nunca nosso arbítrio e nosso direito de descobrí-Lo por nosso próprio mérito. Um dia, quando estamos cansados de achar que temos algum poder, quanto estamos cansados de achar que temos as situações em nossas mãos, que de alguma forma somos maiores que Ele, nós somos discretamente chamados a perceber a sua Soberania de uma forma mais profunda e intrínseca que a grandiosidade das estrelas e das galáxias.

Mosquitinho morador do box do meu banheiro. Foto tirada por mim usando uma Câmera Digital Samsung ES25

Nesse dia Ele nos convida, sem palavras, a ter fé em sua Perfeita Sabedoria. Aos poucos vamos olhando à nossa volta e percebendo como Ele está presente em tudo, todo o tempo, sem que déssemos conta! Nossa visão se expande, nossos olhos não vêm mais apenas com a retina, mas também com o coração. Olhamos uma flor e ela não é mais apenas uma flor, mas uma demonstração da perfeição do nosso Criador. Ou quando utilizando de nossos orgulhosos aparelhos tecnológicos conseguimos descobrir o mundo minúsculo que nos rodeia, e vemos espantados, a simetria perfeita, unida à beleza artística incomparável que há, por exemplo, nas asas de um mosquitinho que habita o box do nosso banheiro… E sentimos que aquela tecnologia toda não é nada, posto que ela em vez de nos deixar mais poderosos, só nos faz descobrir mais e mais a grandiosidade de Deus!

Pegamos uma conchinha de mar para realizarmos pesquisas, e fazendo os cálculos das proporções de suas formas, constatamos aterrados que naquela conchinha perdida na areia há uma intrincada e perfeita equação matemática. E ao pegarmos outra conchinha, e outra, e outra, e outra, vemos que em todas elas existe a mesma perfeição, provando-nos de forma incontestável que toda aquela simetria não foi obra do acaso, mas de cálculos matemáticos muito bem elaborados! E além do espanto pela perfeição da Criação, nós nos rendemos à Sabedoria óbvia que há nesse Ser que não vemos com os olhos, que não ouvimos com os ouvidos, que não tocamos com as mãos, mas que vemos, ouvimos e tocamos todo o tempo, em todo lugar, desde que saibamos transcender a matéria e buscar suas palavras, lições e chamados além dos sentidos.

E assim Deus nos convida a termos fé em sua Perfeição e Sabedoria… Nos fazendo enxergar, cada vez mais, que um Ser que é capaz de realizar tão perfeita, minuciosa, harmônica e soberana Obra, só pode merecer nossa mais irrestrita e permanente confiança… Que melhor que tentar ter a Vida e tudo sob nosso imperfeito e limitado controle, é deixarmos nas mãos Dele o controle de nossas Vidas… Não sabemos como e nem para onde Ele vai nos guiar, mas podemos ter a certeza de que, seja para onde e como for que Ele nos levará, será com as mesmas mãos amorosas com que Ele criou toda essa perfeita, harmônica e bela Obra Universal!

Meu Mantra

Há um tempo atrás eu comecei a ouvir mantras mais constantemente, e não encontrava “aquele” que fazia minha alma realmente se conectar com Deus, até que encontrei um cantado por Deva Premal, contido no CD Embrace, chamado “Om Namo Bhagavate”. Quando o ouvi pela primeira vez, foi como um encontro. Minha alma inteira sentiu-se plena, e comecei a chorar de tão intenso que foi para mim o sentimento de união com Deus. Eu leio sempre sobre o poder dos mantras, especialmente nos livros de Gandhi que era um defensor ferrenho da eficácia do Ramanama como método de cura e autopurificação. Dizia ele que quando uma palavra é repetida muitas vezes por muitas pessoas, ela se torna poderosíssima. E ele dizia que o nome de Deus (Rama), repetido muitas vezes com devoção sincera, independente da religião (Rama, Alá, Deus, Buda, etc) poderia efetuar curas magníficas. Ele tinha uma convicção absoluta sobre isso, e muitas experiências para comprovar sua fé total no Ramanama. Quem leu alguma coisa de Gandhi (eu já li 3 de seus livros) sabe que ele tinha uma mente bastante racional e ao mesmo tempo incrivelmente mística. Ouso dizer que ele era um adepto bastante fervoroso da fé que os espíritas chamam de “fé raciocinada”. Ele tinha um equilibro perfeito entre a razão e a fé, e isso se mostra também na questão da eficácia do Ramanama como um dos principais métodos de cura natural. Enfim, só sei que eu entendi no coração tudo que li ele escrever sobre o Ramanama quando ouvi esse mantra. Se eu passo o dia inteiro com esse mantra na cabeça, recitando-o todo o tempo, eu passo o dia na mais completa paz. Esse é o “meu” mantra.

No site do IPPB tem uma breve explicação sobre o significado desse mantra. Mais perfeito pra mim impossível, com a diferença de que sou mais tocada por Jesus do que por Krishna, mas em essência é o mesmo porque Jesus também viveu entre nós e sabe de cada uma de nossas dificuldades enquanto seres ainda tão humanos.

OM NAMO BHAGAVATE VASUDEVAYA (do sânscrito): é um dos mantras de evocação de Krishna. OM é a vibração interdimensional que interpenetra a tudo e a todos.
NAMO: Saudação ou reverência ao poder divino.
BHAGAVATE: Respeito ao Senhor.
VASUDEVAYA: Vasudeva é o nome da família carnal que criou Krishna. O Ya acrescentado no final significa a característica ativa (masculina) do mantra. Quando alguém faz esse mantra completo, evoca Krishna como homem que também viveu aqui na Terra e sabe das dificuldades enfrentadas por todos.

Mestre e Pastor

Em várias passagens Jesus disse que veio pelos perdidos, por aqueles de má vida, doentes do espírito. Isso nos leva à meditar na nossa quase natural presunção de sermos aqueles com quem Jesus mais se preocupa, já que nos decidimos, voluntariamente, nos juntar ao rebanho dos que tentam ficar perto Dele. Raramente lembramos que, quando Ele esteve por aqui fisicamente, Ele visitava constantemente as casas e lugares onde estavam aqueles que, aparentemente não estavam interessados nos seus ensinamentos morais.

Olha só como Jesus era mesmo uma quebra de paradigmas. Como Ele podia ver o fundo de nossos corações, podia ver o que escondíamos por trás de todas as máscaras e defesas que usávamos para nos proteger do mundo hostil, Ele nos ensinou uma lição inesquecível: tirou de alguns antros de perdição, algumas das almas que mais brilhariam entre as jóias de Seu tesouro. Da mesma forma que mostrava, sem medo ou cerimônia, o cheiro nauseabundo que exalava por trás de toda a pompa dos sacerdotes, tidos como os homens de Deus da época. Ele nos mostrou, de forma inequívoca, que tanto os bons como os maus usam máscaras de proteção. Nos mostrou que por trás de uma ovelha negra, pode estar um pequeno cordeiro perdido e apavorado, que pintou-se de negro para se proteger dos predadores, muitas vezes invisíveis. Igualmente nos mostrou que por trás de uma belíssima ovelha alva e de raça, existia um lobo rapace, capaz de levar à cruz o próprio Salvador.

Vemos muitos que se apresentam com a máscara da maldade, como inimigos não só nossos, mas do Cristo também, e então eis que Ele nos surpreende e em vez de nos proteger do mal e nos resguardar dos aparentes lobos como esperávamos, Ele nos convida à irmos em sua companhia resgatar o corderinho inofensivo que alí habita, e que está pronto para seguir-Lhe, sem no entanto saber como… Mas para isso inevitavelmente nós sofremos, porque o aparente lobo resiste com todas as suas forças a se despojar de sua fantasia que sempre causou medo e desespero em quem tentou se aproximar, protegendo-o eficazmente de invasores indesejados.

Ele nos ataca ferozmente, nos destrói e massacra. Tudo faz para não permitir que retiremos sua fantasia de lobo, descobrindo assim, o quão frágil e amedrontado ele é. Não é fácil, e é necessário uma força sobre-humana para nos mantermos na posição de ovelha, sem acabarmos como lobos também, num desesperado ato de sermos como ele para nos protegermos dos ataques. Essa força sobre-humana, sem dúvidas, vem do entrelace estável e inabalável entre a nossa alma e a Alma do Mestre. E esse entrelace se mantém sobretudo pela oração incansável e pela vigilância constante. Não se pode descansar um só minuto, porque um lobo apavorado se mantém em guarda e vigília perene, quando se sente ameaçado.

Não foi em vão que o Cristo nos pediu que orássemos e vigiássemos todo o tempo. Não foi em vão que Ele nos disse que, se quisermos estar com Ele, se quisermos realmente seguí-lo pelos vales de dor e desespero, tinhamos que ser trabalhadores incansáveis, daqueles que não podem conhecer um só dia de ócio, um só dia de invigilância, um só dia de fraqueza. Mas então nos perguntamos: como? Como podemos ser sempre fortes, se somos ainda tão fracos, tão pequenos, tão cheios de egoísmo ainda? Como suprir as necessidades do Cristo, sendo ainda tão insuficientes e despreparados para seguí-Lo verdadeiramente? Todos os seus apóstolos mais diretos descreveram essa dúvida, essa confissão de incapacidade para trabalhos tão exigentes. Pedro, Tiago, Paulo, João, Mateus… Nenhum deles se sentiu digno, menos ainda prontos para enfrentarem lobos rapaces, afim de encontrarem neles as ovelhas perdidas do Mestre.

E de fato nenhum deles era forte suficiente, como nenhum de nós o é. Nenhum deles tinha aquela força de carácter imbatível, característica das almas verdadeiramente elevadas que contribuem com o Mestre das esferas angélicas e felizes. Eram “gente como a gente”, no entanto tinham algo que muitos de nós ainda não temos: foram inesquecivalmente tocados pelo Cristo nos lugares mais recônditos de suas almas. E esse encontro que cada um deles teve com o Mestre, permitiu que eles tivessem uma fé inabalável na presença constante, ainda que humilde e discreta, do nosso querido e amado Pastor.

É nesse momento que entendemos que, apesar de sermos tão pequenos e fracos como realmente somos, podemos nos fazer grandes e incrivelmente fortes, se soubermos reconhecer humildemente, que por trás de toda nossa força, de toda nossa capacidade, está Ele. É sempre Ele que resgata, que toca, que cura, que sustenta… Nós somos apenas pequenos e frágeis aprendizes, titubeantes nas virtudes e na fé, que precisamos do sustento Dele diário, afim de aprendermos na prática como Ele faz, para aos poucos, um dia de cada vez, seguí-Lo em todos os passos e em plenitude.

Nosso Pastor e Mestre, aquele que primeiro nos resgata dos lugares mais escuros de nós mesmos, para depois nos convidar à irmos aprender com Ele como se ama e se trabalha com Deus, como precisamos de pouco mais que uma fé inabalável na vitória do Bem e na assistência incansável Daquele que tem toda a força e capacidade que nos falta. E então, mesmo insuficientes, conseguimos à duras provas, sermos um pouco úteis, mesmo tão pequenos e fracos. E é sempre com muita alegria que nos percebemos sendo úteis, seja à quem for e como for, nas tarefas mais singelas às mais exigentes. Jesus, por fim, consegue nos ensinar que, apesar de todo sofrimento que podemos enfrentar para sermos úteis à Sua Obra, não há nada mais perfeito e prazeroso que servir…