Sucesso e Fracasso

Há um tempo atrás estava lendo o lindíssimo livro “Luz do Mundo”, do espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, quando me deparei com essa passagem, que segundo a autora, foi dita por Jesus:

“Meu Pai dispõe de recursos que nos escapam e como é o Autor de tudo e de todos, cumpra cada um irrestritamente com o seu dever, transferindo para Ele, o Senhor de todos nós, os resultados do nosso trabalho”.

Foi impossível não notar nas palavras escritas pela autora cristã, um trecho praticamente idêntico ao Bhagavad Gita, escritura sagrada do Hinduísmo. Nesta jóia da Espiritualidade indiana podemos ver esse trecho, onde Krishna diz a Arjuna:

“Aquele que executa seu dever sem apego, e entrega os resultados ao Deus Supremo, não se afeta pela ação pecaminosa, tal como a pétala da flor de lótus que nunca é tocada pela água”.

São muitas, muitas passagens na Bhagavad Gita que fala sobre executar o dever sem apego, entregando o resultado nas mãos de Deus, de tal forma que essa é, sem dúvidas, a mensagem mais marcante dessa escritura. Segundo Krishna, nessa outra passagem, é a essência da Yoga:

“Você tem o direito de cumprir seu dever prescrito, mas não aos frutos da ação. Nunca se considere a causa dos resultados de suas atitudes, nem jamais se apegue ao não cumprimento de seu dever. Seja firme no yoga, ó Arjuna! Execute seu dever e abandone todo apego por êxito ou fracasso. Semelhante estabilidade mental se chama yoga”.

Já escrevi sobre essa reflexão aqui algumas vezes, porque ela me parece a maior de todas as mensagens de caridade absoluta, existente na nossa História. Foi difícil até para os santos que viveram aqui, seguirem essa recomendação de Krishna, porque trabalhar como uma plena extensão de Deus no mundo é dificílimo, mais ainda quando estamos imersos na matéria. Como cumprir nossos diversos deveres do mundo sem esperar qualquer resultado das nossas ações? Como trabalhar, viver, interagir, amar e construir, sem esperar jamais que tudo isso resulte na satisfação dos nossos desejos? Como renunciar completamente à satisfação dos nossos desejos, mesmo os nobres e puros? Como ter a consciência plena de que, acima de qualquer desejo que possamos ter, está o Desejo Absoluto de Deus?

É muito difícil, porque se cumprimos um dever, se estamos imersos na realização de algo, se estamos nos dedicando, nos empenhando em uma tarefa, naturalmente nós desejamos que ela seja bem sucedida *segundo a forma como conseguimos entender o sucesso de algo*. É muito difícil para nós entendermos que, muitas vezes, o fracasso é o resultado que Deus deseja, porque ele será mais útil para nós ou para o contexto no qual vivemos, que a vitória. É muito difícil para nós abrirmos mão de um resultado sempre satisfatório das nossas ações, afinal, se trabalhamos é para dar certo, não é? Mas como podemos ter certeza que o nosso “dar certo” é o mesmo “dar certo” de Deus? Não podemos saber, porque “Nosso Pai dispõe de recursos que nos escapam”. Só o que podemos fazer é cumprirmos os nossos deveres, entregando sempre à Deus o resultado das nossas ações. Cabe à Ele guiar para o sucesso, e ele *sempre* guia para o sucesso, mesmo quando aos nossos olhos parece um fracasso.

A Ordem e a Harmonia sempre se fazem… Nós é que temos muito caos interior, e não conseguimos ver que Deus, haja o que houver, está no leme do Universo inteiro, fazendo tudo funcionar com perfeição. Não adianta chorarmos pelo aparente fracasso de algo, só adianta sermos firmes e jamais desistirmos do cumprimento dos nossos deveres, não importando se no fim, aparentemente deu tudo errado, tendo sempre a consciência de que, quando cumprimos com nosso dever, estaremos trabalhando para Deus, não para nós.

Muitas vezes nós não podemos saber porque algo pelo qual batalhamos tanto, deu “errado”, mas Ele sempre sabe…

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Deus e o Mundo

“Que o sábio não confunda a mente dos ignorantes que trabalham pelo ganho, procurando encorajá-los a abster-se de trabalhar. Ele só deve ensiná-los a servir com devoção”. (Bhagavad-Gita – 3:26)

Essa passagem da Bhagavad-Gita é tão explícita relativamente a importância do homem ser útil à harmonia social com seu trabalho, que fica difícil compreender porque muitos dos ditos santos da Índia deixam de trabalhar para buscarem Deus. Vivem de esmolas que nunca lhes falta, porque esse comportamento, estranhamente é muito respeitado e tido como renúncia mundana, mesmo com Krishna tendo sido tão claro em sua recomendação. Aliás, a Bhagavad-Gita começou justamente porque o Príncipe Arjuna estava desgostoso diante de seus deveres perante o reino, e Krishna, também da realeza, que se fizera cocheiro de Arjuna para lhe ajudar em seus deveres diante do contexto em que vivia, começa a lhe instruir. E em cima desse ponto central, Krishna dá todas as orientações sobre dever e espiritualidade, que se transformaram nessa escritura. Então ver pessoas, que seguem essa escritura, a divulgam e interpretam, e são respeitados por isso, abandonando todos os seus deveres no mundo para viverem como ascetas itinerantes, vivendo de esmolas, é um tanto… contraditório. Tudo bem que para eles os deveres espirituais estão acima dos deveres do mundo. Realmente estão, mas colocar um dever acima de outro, não quer dizer abandonar o outro, mas priorizar. Se assim fosse, Krishna não teria dito para Arjuna lutar, mas para abandonar o campo de batalha e ir viver em alguma floresta como eremita.

Então fica mais fácil de compreender porque Babaji preparou para seu discípulo mais nobre – Lahiri Mahasaya – uma reencarnação inteira para servir de exemplo aos homens que buscam Deus. Ele deveria, não largar o mundo pela busca de Deus, mas viver em família e em sociedade normalmente, ter esposa, filhos, trabalho e vida social, ao mesmo tempo que vivia com e para Deus em cada passo que desse. Que suas atitudes no mundo fossem extensões da Vontade de Deus. E disse que sua missão era essa: mostrar ao mundo que um homem pode se auto-realizar em Deus, seguindo todos os seus deveres como cidadão. Que a renúncia ao mundo poderia ser feita vivendo no mundo. Que o homem, em suma, deveria levar Deus para o mundo através de suas atitudes santificadas dentro do seio doméstico e social, e não deixar o mundo para encontrar com Deus à sós.

E foi então que Lahiri sentiu o desejo que ensinar à qualquer pessoa como se auto-realizar, tirando de um grupo seleto de pessoas esse conhecimento e divulgando-o à qualquer homem de boa-vontade que desejava Deus. Babaji percebeu que no desejo de seu discípulo estava a Vontade de Deus, e o autorizou. E então muitas outras almas renasceram para lhe ajudar na divulgação dessa sua verdade, entre elas Paramahansa Yogananda, que trouxe para nós ocidentais, não só o conhecimento sobre Kriya Yoga, como também o exemplo do grande Mestre Indiano. Trabalhar e ser útil à sociedade e à família, encontrando Deus em si e extendendo-o em todas as suas atitudes perante o mundo e as criaturas.

Termino com uma frase de Paramahansa Yogananda, de seu livro Autobiografia de um Iogue, que “para variar”, estou relendo:

“Um homem verdadeiro é o que vive com retidão entre seus companheiros, o que compra e vende e, todavia, nem por um instante esquece Deus!”


Krishna e o Desapego

Uma das principais mensagens da Bhagavad-Gita é a renúncia pelo resultado das próprias ações. No sentido de que, quando vivemos e obramos para e por Deus, cabe à Ele o resultado das nossas ações. Sendo assim, nós amamos, nós servimos, nós trabalhamos pelo bem comum, mas os resultados dos nossos esforços não serão, de modo algum, para nos recompensar. É como o trabalhador que trabalhe dia e noite sem esperar que ao fim receba alguma coisa. Se ele vai receber é outra história, cabe apenas à Deus e ao bem comum. A recompensa, neste caso, seria tão somente o prazer do trabalho, o prazer de amar, de servir, de trabalhar pela felicidade do próximo e da coletividade. É o ápice da renúncia e do desinteresse pessoal. O ápica da caridade, portanto. Eu já li muitos textos ditos sagrados, mas jamais havia lido um que fosse tão dedicado à caridade. Nem o Evangelho, por mais incrível que possa parecer. A mensagem do Evangelho é o amor, mas ela é para nós, seres comuns. A Baghavad-Gita é para almas que estão um pouco acima dessa humanidade de um modo geral. Digo isso porque é muito, muito difícil no nosso estágio, viver *espiritualmente* como aconselha Krishna. Materialmente é relativamente fácil, tanto que há milhares de Sadhus na Índia que vivem no total e absoluto desapego material. Até as roupas eles renunciam e vivem pelados em suas cavernas. Eu acho bem bizarro, mesmo porque só de ler uma vez que seja a Bhagavad-Gita, dá para perceber claramente que Krishna não se refere à renúncia material (ele mesmo não renunciava isso!), mas à renúncia espiritual, daquela em que nos doamos totalmente à Deus, esquecendo-se totalmente de nós, renunciando totalmente à recompensas pessoais, sejam da ordem que forem, inclusive com relação ao amor, ou seja, podemos amar sem esperar que sejamos amados. Amor incondicional puro e essencial.

Então entendo que a renúncia material à que Krishna se refere não é a de não ter, mas a de não ser apegado ao que tem, conscientes de que nada nos pertence, pois que a matéria é apenas uma ferramenta para nossa evolução, que Deus nos *empresta* e nos retira quando nos retiramos do mundo, e não precisamos mais de tais ferramentas, de tal forma que sequer o nosso corpo nós podemos levar. Até ele, o único bem material que não podemos renunciar, fica aqui na Terra quando retornamos para a pátria espiritual. No que diz respeito ao apego material, não precisa viver em cavernas e nem andar pelado pelo mundo afora, precisa é não ser escravo do que tem, e nem viver a vida pela matéria, menos ainda trabalhar esperando recompensas materiais cada vez maiores, para uso apenas pessoal. Tendo consciência que, se a matéria que está sob nossa guarda temporária pertence à Deus, então em essência todos os filhos de Deus têm direito de usufruir de seus benefícios, e não apenas nós. Essa consciência nos coloca em posição da autência benemerência, onde não apenas renunciamos, mas repartimos, doamos, partilhamos o que temos, com quem tem menos que nós, porque ele, filho de Deus tanto quanto nós, tem o mesmo direito de usufruir dos bens terrenos. E o mesmo para todos os outros tipos de apegos, até os afetivos. É por isso que compreendo essa escritura como a mais pura de todas. Em algumas outras nós vemos claramente a idéia de “recompensa dos céus”, ou seja, se você for bonzinho aqui na Terra, receberá recompensas dos céus. Se você fizer o bem, o bem virá para sua vida. Lei de Causa e Efeito, Lei de Atração, Lei disso ou daquilo. E então você é caridoso e bom, pensando no Reino de Deus, na vida após a morte. Você sofre resignadamente, renuncia à tudo, todo o tempo pensando que no fim você será recompensado por todo teu sacrifício e renúncia, ou então terá resgatado todos os teus débitos, pago tua dívidas perante as Leis Divinas, ou seja, sofre-se em causa própria, seja pela felicidade futura, seja pela paz de consciência. Ainda é egoísmo… Um rasgo apenas, mas é.

Na Bhagavad-Gita, suas ações estão acima do bem e do mal. Seu amor, sua entrega, seu sacrifício, seu trabalho, sua luta, todas as suas ações são absolutamente incondicionais, como se nos tornássemos realmente extensões de Deus no mundo. Se você vai ganhar alguma coisa ou não, isso não importa. Importa apenas o bem comum e a vontade de Deus sendo realizada. Portanto penso que é uma escritura para Santos verdadeiros, daqueles que raramente pisam nesse planeta. Está muito além, ainda, da capacidade evolutiva dessa Humanidade, embora tenha sido importantíssima para dar suporte aos Santos que vieram aqui nos ajudar, como Gandhi, Yogananda, Yukteswar, Lahiri Mahasaya, Ramakrishna, Vivekananda, dentre outros, que viveram suas vidas pautados e incentivados por essa escritura. Mas no nosso caso, quem consegue, por exemplo, amar sem esperar, nem que seja um pouquinho, ser amado também? Se sacrificar por algo ou alguém sem esperar, nem que seja, a felicidade e o sucesso de nosso objeto de sacrifício? Que mãe, por exemplo, consegue viver pelos filhos, sem esperar que um dia eles sejam felizes? É muito para nós, ainda. Não que nos seja impossível ter a renúncia absoluta em determinadas ações, mas em algumas, especialmente naquelas que envolvem amores intensos, nos é quase impossível, ainda.

Foi difícil até para Gandhi, como ele conta em sua autobiografia, o tanto que ele ficou abalado por, ao fim de tudo, depois que a Índia estava independente, ele ver que o resultado de suas ações não tinha sido o que ele sonhou, mas sim a guerra civil entre muçulmanos e hindus. Foi difícil para ele compreender que ele tinha doado toda sua vida por um ideal que ao fim, não teve o sucesso que ele desejou, mas tinha sido apenas o primeiro passo, para que no futuro, talvez (depende dos rumos que Deus dará à essa Humanidade), o sonho dele se realize, de ver a Índia unida pelo amor comum. Talvez isso não aconteça, talvez no futuro o amor seja comum na Índia, mas não por uma união entre hindus e muçulmanos, mas por outros meios. Quem sabe se essas religiões sobreviverão até lá? Só Deus sabe. E em tudo é assim, desde as missões realizadas por almas como Gandhi, até as missões realizadas por nós, simples mães e pais: Só Deus sabe… E aceitarmos isso em toda a plenitude, é muito difícil para nós, ainda. Queremos que Deus realize os nossos sonhos, que a vontade Dele seja a nossa, especialmente aquelas pautadas nos mais santos e puros ideais de amor e caridade. É também por isso que tanta gente renega Deus, porque não conseguem renunciar ao resultado de suas ações, incluindo às preces que fazem à Deus. Somos apegados demais ainda à nossa vontade, à nossa pequeniníssima capacidade de ver o melhor para nós e para a coletividade. Pensamos que tudo se resume até onde conseguimos ver, e raramente renunciamos à nossos desejos – mesmo os sagrados –  e à nossa condição limitadíssima de ver o que realmente é o melhor. É realmente muito difícil para nós, ainda, nos entregarmos totalmente nas mãos de Deus, como orienta Krishna. Mas aos pouquinhos, vida após vida, devagar para não tropeçarmos e acabarmos perdendo totalmente a fé, caindo, sem querer, das mãos do Pai, nós vamos caminhando nessa estrada que ainda é tão difícil, mas que certamente deve trazer uma imensa e plena paz!…

Arte da Índia III

Não tem como falar em arte da Índia sem lembrar de Bollywood, a índústria cinematográfica dos indianos. Há filmes realmente maravilhosos sendo produzidos lá, e há um deles que é meu favorito, o Jodhaa Akbar. Sem dúvidas foi um dos filmes mais lindos e emocionantes que eu já vi. Tudo nesse filme é uma obra-de-arte, desde os atores até as paredes dos palácios, que hipnotizam por tamanha beleza! O figurino é apoteótico, os atores protagonistas são maravilhosos, com algumas cenas de expressão corporal tão perfeitas que dispensam diálogos de mil palavras. Os cenários são magníficos, a trilha sonora é por si só, uma obra-prima! O filme é épico e conta a história de um grande Imperador Mughal e de sua esposa Jodhaa. Um casamento arranjado, por motivos políticos, que se torna uma lindíssima história de amor. Um amor especial, que floresce nos detalhes do cotidiano. É perfeita a forma como eles se cortejam e se conquistam, no dia-a-dia. Delicadeza, admiração, companheirismo e uma cumplicidade implícita, que transcende todas as tradições e a política.

Ele era muçulmano, como era tradição dos Mongóis, e ela Hindu, ou seja, duas religiões rivais. A rivalidade histórica entre essas duas religiões é “afrontada” por ele, que deseja um reino igualitário, já que pretende conquistar todas as terras da região, predominantemente Hindu. Por isso ele decide-se pelo casamento, o que é mal visto por quase todos os seus políticos, especialmente pelos representantes maiores do Islamismo dentro do seu reino. A situação ainda piora quando Jodhaa impõe condições para o casamento. Ela diz ao Imperador que somente se casará com ele se ele permitir que ela continue seguindo o Hinduísmo e suas tradições, e que um templo à Krishna seja construído dentro de seus aposentos. Um templo hinduísta dentro do palácio de um Imperador muçulmano. A transgreções das transgreções. No entanto é naquele momento, quando ele sente toda a força da personalidade ímpar de Jodhaa, que ele começa a se apaixonar por ela. Ele aceita as condições e eles se casam seguindo os rituais das duas religiões.

Então tudo corre, e num dia ele está em uma reunião com aproximadamente uns 5oo políticos, resolvendo questões do reino, quando o principal representante do Islamismo lhe coloca toda a insatisfação com o casamento dele com a Hindu. Eles ponderam e debatem sobre o tema, quando ao longe eles começam a ouvir o canto de uma mulher… Todos ficam em silêncio para ouvir e percebem que é a voz de Jodhaa, cantando para Krishna, uma música devocional (algo como música “gospel” hindu). Nesse momento o imperador é tomado por uma forte emoção, e como se o mundo inteiro tivesse sumido ao seu redor, levanta-se e começa a caminhar em direção àquela voz hipnotizante… Passa em meio à todos os políticos como se eles nem existissem alí, apaixonado e rendido pelo canto da esposa (detalhe, até alí eles nunca tinham tido nada, era um casamento de fachada, e eles se conquistavam aos poucos).

Quando ele está quase acabando de passar por todos, hipnotizado de amor, ele lembra-se onde e com quem estava, então apenas dá um giro com o corpo e fala para as centenas de homens perplexos que apenas o fitavam, que eles podiam se dispersar, como à dizer-lhes que “naquele momento havia algo muito mais importante à fazer”. Detalhe… Ele estava dispensando os políticos que lhe diziam do quanto estavam desgostosos com o casamento dele com uma Hindu e especialmente com o fato de terem um templo hindu dentro dos domínios islâmicos, para ir admirar a esposa rendendo culto à Krishna! A força do amor transgredindo e unindo duas potências religiosas secularmente rivais…! Ao fim ele sai dos aposentos dela, suspirando paixão, com aquela expressão de quem se pergunta “que mulher é essa, meu Deus?!”. E vai andando sem rumo pelo palácio, tomado de amor e plenitude! Lindo, lindo, lindo!

Há um detalhe que não mostra no filme, mas que é contado pela História. Esse Imperador acabou criando dentro de seu reino, uma seita que era bem universalista, unindo conceitos morais de diversas religiões, mas que acabou morrendo com ele, já que seus descendentes não tiveram interesse de prosseguir com ela, retornando, infelizmente, à rivalidade que dura até hoje, e que foi responsável pela criação do Paquistão e pela morte de Gandhi nos dias mais atuais.

Deixo o vídeo dessa cena, com a música, que é perfeita! E a tradução dela abaixo. É a típica música de adoração à um Deus, exatamente como as que os cristãos de hoje fazem para Jesus. Linda!


Encantador de Corações (A.R. Rahman)

Ó encantador do coração
Meu Krishna amado, me atenda
Como terei paz sem Você?
Noite e dia que eu anseio por Você
Abandone Suas cidades sagradas
de Kashi e Mathura
Venha e more em meus olhos
Como terei paz sem Você?
Meu Krishna querido,
noite e dia que eu anseio por Você
O Divino dançarino que reside
em Gokul em Vrindavan
Radha, sua criada,
anseia pela visão de Você
O belo filho escuro de Nanda,
Krishna querido
Ó habitante da floresta,
beleza é Sua forma
Me rendi de corpo e alma por Você
Ó Encantador de coração!
Pertenço a Você,
minha vida pertence a Você.
Te vejo em todas as coisas.
Me tornarei Sua flauta
e pertencerei apenas aos Seus lábios.
Meu coração é inundado com sonhos…

Enigmas de Krishna

577F02_1Mais uma das maravilhas da Bhagavad-Gita. Aliás, estudar essas escrituras é como revolucionar o íntimo. Não o intelecto, mas o íntimo. Krishna tinha o dom de ser claro e misterioso ao mesmo tempo, falando com objetividade e subjetividade, de tal forma que ao lê-lo temos a impressão de que um oceano imenso encobre a superfície de suas palavras. As palavras dele são como oceanos. Ao lê-las podemos perceber claramente o quanto são imensas em sabedoria e beleza. Olhamo-las e tal como quando olhamos para o oceano, percebemos que há uma profundidade à ser explorada. E mergulhar nessas palavras é se auto-descobrir enquanto Filhos de Deus. Não tem como ver as profundezas da Bhagavad-Gita sem mergulhar, por experiência própria, nas palavras de Krishna. E mergulhar não é estudá-las como os oceanógrafos estudam o oceano nos livros e nas faculdades. Mergulhar é mergulhar. Praticar na própria vida. Só assim consegue-se ver as profundezas da Bhagavad-Gita e ler as entrelinhas de Krishna, esse Mestre tão especial que passou pela Terra. Essa frase é uma dessas maravilhas de Krishna:

“O eu é um amigo para o homem cujo eu foi conquistado pelo Eu; mas para aquele que não está de posse de seu Eu, o eu é como um inimigo”.

A nossa essência divina só nos leva à felicidade se a colocamos à serviço de Deus. Se usamos nossos talentos para a satisfação do Ego, nos perdemos de nós, mesmo estando conosco, porque o encontro com nós mesmos só se dá quando encontramo-nos junto à Deus dentro de nós. Ao longo da nossa história nós vimos passar pela Terra os dois tipos de Filhos de Deus, daqueles que usavam seus talentos divinos para a satisfação do Ego, como Hitler e muitíssimos outros, assim como aqueles que os usaram para manifestar o Amor de Deus, como Gandhi e muitíssimos outros também. Mas todo aquele que buscou satisfazer o eu, e não o Eu, à si mesmo e não à Deus dentro de si, em suma, todo aquele que usou por egoísmo e egotismo e não por amor e caridade os seus talentos da alma, sucumbiu no próprio pseudo-poder, na própria loucura, na auto-escravidão, na ilusão do egocentrismo exacerbado e não obteve um único momento de paz íntima. O oposto se deu com todos aqueles que nos foram exemplos de renúncia do Ego, em prol de ser um instrumento do Amor de Deus no mundo, de permitir que o Eu comandasse o eu, de permitir que a vontade de Deus e não a sua própria, fosse a externação de sua vida e de seus talentos individuais, que buscando o bem-estar dos semelhantes, encontravam o próprio bem-estar, que buscando o amor aos semelhantes, encontravam a felicidade e a paz espiritual.

Com tão pequena e enigmática frase, Krishna deixou um tratado de psicologia transcendental e de comunhão com Deus dentro de si mesmo.

Natureza Divina – Bhagavad Gita

Krishna_Arjuna2Eis uma das maravilhas da Bhagavad-Gita, escrita 4 séculos antes de Cristo, em diálogo entre Krishna e Arjuna:

“A Suprema Personalidade de Deus disse: Destemor, purificação da própria existência; cultivo de conhecimento espiritual; caridade; autocontrole; execução de sacrifícios; estudo dos Vedas; austeridade; simplicidade; não-violência; veracidade; estar livre da ira; renúncia; tranqüilidade; não gostar de achar defeitos; compaixão para com todas as entidades vivas; estar livre da cobiça; gentileza; modéstia; firme determinação; vigor; clemência; fortaleza; limpeza, estar livre da inveja e da paixão pela honra – estas qualidades transcendentais, ó filho de Bharata, existem nos homens piedosos dotados de natureza divina”. (XVI – 1-3)

Cultivar todas essas virtudes é encontrar a paz, simplesmente isso… Se em todas as nossas ações, interrogarmos à nós mesmos se estamos fazendo-as de acordo com essas virtudes apresentadas por Krishna, estaremos dando um excelente passo para o melhoramento íntimo. Quantos de nós conseguimos ter uma conduta tão reta quanto essa, nos mínimos detalhes, diariamente? Não é fácil. Os passos da virtude são como os passos dos grupos de ajuda à dependentes. Viver 24 horas por dia, um dia de cada vez. Só assim conseguimos ir acoplando em nossa alma essas virtudes, substituindo os vícios que nos são tão naturais, por elas. Até que elas começem, pouco à pouco, à serem nossas atitudes naturais. No início é difícil, desejamos desistir e esquecer, como todo viciado em más tendências. Só com a perseverância, com a firmeza e obstinação em se auto-melhorar e colocando esse como o objetivo primeiro da vida, é que consegue-se tal grau de compromisso ao ponto de não sucumbir no caminho. Não é fácil, como não é despir-se de qualquer vício, mas é tão compensador, e a paz que trás é tão perfeita, que após um tempo, a necessidade de praticar tais virtudes deixa de ser meta difícil, para ser prazer.

Com o tempo e a prática diária, um dia de cada vez, a nossa alma clamará por praticar as virtudes que no início eram tão penosas. No início praticá-las todo o tempo nos causa dor, nos causa mesmo sofrimento íntimo dos mais intensos, porque desfazer-se do ego, dos vícios aos quais nossa alma está acostumada, nos causa algo parecido com a crise de abstinência, mas temos que ser firmes, porque depois que a virtude entranha na nossa alma, se acopla à nossa estrutura mental e emocional, acontecerá fenômeno oposto. Sempre que não a praticarmos é quando sentiremos dor, sofrimento. O que antes era penoso, passa a ser necessidade essencial para bem-viver. E o vício que antes trazia prazer e comodismo, passa a trazer um terrível mal-estar e sofrimento. É das coisas mais lindas de ver, uma alma que antes sentia prazer no vício moral, passando a sentir prazer na virtude.

É o perfeito retrato da vitória do bem dentro do nosso próprio microcosmo…

As Características do Sábio Perfeito – Krishna

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As Características do Sábio Perfeito – Krishna

Disse Arjuna:

Qual é a descrição do homem que possui essa sabedoria firmemente fundada, cujo ser é firme em espírito, Ó Krishna? Como fala o homem de inteligência estabelecida, como se senta, como anda?

O Senhor Bendito disse:

Quando um homem põe de lado todos os desejos de sua mente, Ó Arjuna, e quando seu espírito está contente em si próprio, então se chama estável em inteligência. Aquele cuja mente não se perturba em meio às tristezas e está livre do desejo ansioso entre prazeres, aquele de quem a paixão, medo e raiva se afastaram, a êste se chama um sábio de inteligência estabelecida.

Aquele que não tem afeição em qualquer lado, que não se rejubila ou detesta ao ter o bem ou o mal, tem uma inteligência firmemente estabelecida na sabedoria.

Aquele que retira os sentidos dos objetos do sentido em todos os lados, assim como uma tartaruga recolhe seus membros ao casco, tem uma inteligência firmemente estabelecida na sabedoria.

Os objetos do sentido se afastam da alma corporificada que se abstém de alimentar-se dêles, mas o gosto por eles continua. Até mesmo o gosto se afasta quando o Supremo é visto. Embora um homem possa esforçar-se pela perfeição e mostrar-se dono de discernimento, Ó Filho de Kunti, seus sentidos impetuosos arrastarão sua mente à força. Tendo posto todos os sentidos sob controle, ele deve permanecer firme no intento Yoga em Mim, pois aquele cujos sentidos se acham sob controle teia uma inteligência firmemente estabelecida.

Quando, em sua mente, um homem presta atenção aos objetos do sentido, produz-se sua ligação aos mesmos. Dessa ligação surge o desejo, e do desejo vem a raiva. Da raiva nasce a confusão, e desta a perda de memória; dessa perda de memória vem a destruição da inteligência e desta ele perece. Um homem de mente disciplinada, no entanto, que se move entre os objetos de sentido com os sentidos sob controle e livre de ligação e aversão, atinge a pureza de espírito. E nessa pureza de espírito produz-se para ele um fim de toda tristeza; a inteligência de um homem de espírito puro assim logo se estabelece na paz do eu. Não existe inteligência para os incontrolados, nem tampouco para os incontrolados existe o poder de concentração, enquanto para aquele que não tem concentração não há paz, e como pode haver felicidade para quem não tem paz?

Quando a mente persegue os sentidos nômades, leva consigo a compreensão, assim como o vento impele um navio sobre as águas. Aquele cujos sentidos estejam retirados de seus objetos, portanto, Ó Poderoso, tem sua inteligência firmemente estabelecida.

O que é noite para todos os seres é o momento de despertar para a alma disciplinada, e o que é momento de despertar para todos os seres é a noite para o sábio que vê. Aquele em quem todos os desejos entram como águas no mar e que, embora sendo sempre enchido, está sempre em movimento, atinge a paz e não Aquele que se abraça a seus desejos. Aquele que abandona todos os desejos e age livremente da saudade ou desejo, sem qualquer sentido de propriedade egoísta ou egoísmo, atinge a paz. Esse é o estado divino, Ó Arjuna, onde tendo chegado não há mais confusão e fixo nesse estado, na hora da morte, pode-se alcançar a ventura de Deus.

(2 . 1-30, 54-72 – Bhagavad-Gita )