Sucesso e Fracasso

Há um tempo atrás estava lendo o lindíssimo livro “Luz do Mundo”, do espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, quando me deparei com essa passagem, que segundo a autora, foi dita por Jesus:

“Meu Pai dispõe de recursos que nos escapam e como é o Autor de tudo e de todos, cumpra cada um irrestritamente com o seu dever, transferindo para Ele, o Senhor de todos nós, os resultados do nosso trabalho”.

Foi impossível não notar nas palavras escritas pela autora cristã, um trecho praticamente idêntico ao Bhagavad Gita, escritura sagrada do Hinduísmo. Nesta jóia da Espiritualidade indiana podemos ver esse trecho, onde Krishna diz a Arjuna:

“Aquele que executa seu dever sem apego, e entrega os resultados ao Deus Supremo, não se afeta pela ação pecaminosa, tal como a pétala da flor de lótus que nunca é tocada pela água”.

São muitas, muitas passagens na Bhagavad Gita que fala sobre executar o dever sem apego, entregando o resultado nas mãos de Deus, de tal forma que essa é, sem dúvidas, a mensagem mais marcante dessa escritura. Segundo Krishna, nessa outra passagem, é a essência da Yoga:

“Você tem o direito de cumprir seu dever prescrito, mas não aos frutos da ação. Nunca se considere a causa dos resultados de suas atitudes, nem jamais se apegue ao não cumprimento de seu dever. Seja firme no yoga, ó Arjuna! Execute seu dever e abandone todo apego por êxito ou fracasso. Semelhante estabilidade mental se chama yoga”.

Já escrevi sobre essa reflexão aqui algumas vezes, porque ela me parece a maior de todas as mensagens de caridade absoluta, existente na nossa História. Foi difícil até para os santos que viveram aqui, seguirem essa recomendação de Krishna, porque trabalhar como uma plena extensão de Deus no mundo é dificílimo, mais ainda quando estamos imersos na matéria. Como cumprir nossos diversos deveres do mundo sem esperar qualquer resultado das nossas ações? Como trabalhar, viver, interagir, amar e construir, sem esperar jamais que tudo isso resulte na satisfação dos nossos desejos? Como renunciar completamente à satisfação dos nossos desejos, mesmo os nobres e puros? Como ter a consciência plena de que, acima de qualquer desejo que possamos ter, está o Desejo Absoluto de Deus?

É muito difícil, porque se cumprimos um dever, se estamos imersos na realização de algo, se estamos nos dedicando, nos empenhando em uma tarefa, naturalmente nós desejamos que ela seja bem sucedida *segundo a forma como conseguimos entender o sucesso de algo*. É muito difícil para nós entendermos que, muitas vezes, o fracasso é o resultado que Deus deseja, porque ele será mais útil para nós ou para o contexto no qual vivemos, que a vitória. É muito difícil para nós abrirmos mão de um resultado sempre satisfatório das nossas ações, afinal, se trabalhamos é para dar certo, não é? Mas como podemos ter certeza que o nosso “dar certo” é o mesmo “dar certo” de Deus? Não podemos saber, porque “Nosso Pai dispõe de recursos que nos escapam”. Só o que podemos fazer é cumprirmos os nossos deveres, entregando sempre à Deus o resultado das nossas ações. Cabe à Ele guiar para o sucesso, e ele *sempre* guia para o sucesso, mesmo quando aos nossos olhos parece um fracasso.

A Ordem e a Harmonia sempre se fazem… Nós é que temos muito caos interior, e não conseguimos ver que Deus, haja o que houver, está no leme do Universo inteiro, fazendo tudo funcionar com perfeição. Não adianta chorarmos pelo aparente fracasso de algo, só adianta sermos firmes e jamais desistirmos do cumprimento dos nossos deveres, não importando se no fim, aparentemente deu tudo errado, tendo sempre a consciência de que, quando cumprimos com nosso dever, estaremos trabalhando para Deus, não para nós.

Muitas vezes nós não podemos saber porque algo pelo qual batalhamos tanto, deu “errado”, mas Ele sempre sabe…

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Humildade X Baixa-Estima

Há um tempo atrás eu comprei um livro que nas resenhas me chamou muito a atenção. Seria a publicação de várias cartas pessoais e íntimas de Madre Teresa de Calcutá. Eu adoro ler esse tipo de literatura, quando conseguimos sempre observar um grande ícone sob a sua própria ótica, despida dos louros que os títulos trazem. Numa biografia comum, geralmente é mostrado o ícone, mas numa autobiografia, ou em escritos pessoais, vemos muito mais que o ícone, vemos o ser-humano, o Filho de Deus por trás de toda a realização. Eu sou fascinada por leituras assim, porque aprendo sempre a respeitar muito mais a alma que se superou e se destacou em dedicação à Humanidade, não porque era mais Filho de Deus que qualquer um de nós, mas porque teve a coragem, a determinação e a entrega que nós não temos… Acima de serem ícones, são grandes exemplos de vida!

Mas fiquei um tempo, quase 2 anos sem terminar a leitura do livro. Não sei porque me desinteressei por ele na época. Lembro que parei de lê-lo para me concentrar numa biografia de Santa Clara, que se tornou um dos meus livros favoritos. Meu sonho era ter uma autobiografia de Santa Clara! Tantas atitudes que ela teve que para mim são mistérios insondáveis! Por que se auto-imolar sendo ela tão lúcida? Por que pedir esmolas, se Jesus – exemplo máximo – teve um ofício? Enfim, muitas perguntas que ficamos quando lemos biografias, por isso gosto tanto das autobiografias.

Mas isso fica para outra hora. Queria refletir sobre um trechinho do livro de Madre Teresa. O livro chama-se “Madre Teresa, venha, seja minha luz” e foi organizado por Brian Kolodiejchuk.

“Por que foi que tudo isso chegou à mim – a mais indigna das Suas criaturas – não sei – e tentei tantas vezes convencer Nosso Senhor a procurar outra alma, uma mais generosa – uma mais forte, mas Ele parece gostar da minha confusão, da minha fraqueza”. (trecho de uma carta de Madre Teresa à Madre Gertrudes, Superiora do Convento onde ela vez seus votos na Índia)

Isso é algo que sempre me intriga quando leio relatos de santos, grande ícones de virtudes e pessoas que se destacaram por fazer o bem e amar. Todos sempre se acham as piores criaturas, as mais pecadoras e mais fracas. Fico tentando imaginar o quanto disso é humildade e o quanto é baixa-estima. Pode ser apenas uma humildade imensa, mas tem toda a cara de baixa-estima, e confunde à nós, reles mortais.

Jesus, até onde se tem notícia, foi o Ser mais humilde que pisou nesse mundo. E Ele verdadeiramente *é* humilde. O maior de todos, sem dúvidas. Mas não se tem notícia de Jesus ter se menosprezado, de ter-se rebaixado como o pior dentre os piores. Pelo contrário, Ele sempre se valorizou como Filho de Deus. Claro que ele não tinha mais os defeitos que todos nós – até os Santos – temos, mas se Ele veio até nós para nos servir de exemplo máximo, então por que nos ensinou à nos valorizarmos tal qual Ele se valorizava?

Muitas vezes ele reerguia os pecadores, e mostrava à eles o quanto eles tinham valor como Filhos de Deus, e que tinham que fazer juz à esse valor! Convidava os mais pecadores à obrar em nome de Deus, à se auto-respeitaram abandonando o crime e buscando uma vida digna. Tirou a prostituda de Magdala de uma vida regada à todo tipo de devassidão, e transformou-a num dos maiores exemplos de renúncia, caridade e superação que se tem notícias. Fez de Mateus, um cobrador de imposto desonesto, um dos evangelistas mais lidos de todos os tempos.

Ele não era só um Mestre perfeito, era também um Psicólogo Sublime, porque trazia as almas da escuridão total de si mesmas, para a busca incessante da sua Luz Íntima, onde o Pai brilha e reluz sempre. Ele nunca quis que nos rebaixássemos e desvalorizássemos, mas quis sim, que cientes dos nossos pecados, abríssemos mão da prática deles, passando a nos auto-respeitar como criaturas dignas de serem instrumentos de Deus no mundo, em vez de instrumentos do mal.

Claro que Madre Teresa era digna da tarefa que à ela foi confiada, tanto quanto todos nós somos dignos das pequeninas tarefas que Deus nos confia, mesmo a mais insignificante. Claro que Madre Teresa era forte, porque só uma alma forte como ela seria capaz de abrir mão de seu ego para se dedicar inteiramente à Humanidade simplesmente porque essa era a Vontade de Deus. Eu, por exemplo, tão cedo na minha evolução não serei capaz disso, porque ainda sou muito apegada à meus problemas, à meus sentimentos, dores, alegrias, desejos e sonhos. Minha força e dignidade está limitada à tarefas bem pequenininhas, cotidianas e mundanas, por isso mesmo que Ele não me chama ainda para cuidar da Humanidade, só da minha filha mesmo já tá bom. Ainda nem tô perto de abrir mão de mim, então imaginem que à começar por mim, há gente muito mais indigna e fraca que ela, portanto não é justo que ela pensasse isso de si mesma, que ela se desvalorizasse assim.

Aí que penso estar a pedra de toque entre a humildade e a baixa-estima. Ela era verdadeiramente humilde por reconhecer que toda a obra era de Deus, não dela. Que ela era apenas instrumento Dele, e nenhuma nesga de vaidade ou orgulho saía de suas palavras, todo o tempo ela era só um instrumento, por mais que ela precisasse se superar e se esforçar pessoalmente para que a obra tivesse andamento, nunca depositava em si os louros das vitórias. Todo o tempo era Deus atuando através dela. Agora penso que a baixa-estima vinha da sua desvalorização enquanto Filha de Deus, porque se Ele a estava utilizando como instrumento, era porque ela tinha condições para tal. Nós não somos objetos que Deus usa sem que tenhamos nenhuma participação nisso.

Se assim fosse, então para que nos esforçarmos tanto para evoluirmos, para melhorarmos, para nos tornarmos instrumentos mais capazes, mais hábeis, mais úteis. O mérito da obra é de Deus, mas o mérito do nosso aprimoramento é nosso. Se fôssemos meros objetos inúteis que Deus, em Sua misericórdia, desse alguma utilidade, então por que Ele não chama um egoísta total para obras como a de Madre Teresa? Porque o egoísta ainda não se aprimorou suficientemente para ser instrumento de Deus em tarefas que exigem desprendimento do ego. Deus chama o egoísta para outras tarefas.

Nossa utilidade para Deus e sua Obra está sempre de acordo com nossas conquistas, com nosso próprio mérito. Se Ele a chamou para realizar tal obra, claro que era porque ela tinha méritos e possibilidades, e ela devia se sentir feliz consigo mesma por isso, se amar e respeitar como uma criatura valorosa, sem nunca achar que a obra era sua, como os vaidosos e orgulhosos acham, mas ciente também de suas possibilidades, não só de suas fraquezas. Ela não era tão ruim como pensava, tanto que Deus, o único que pode nos ver com perfeição, a achou digna e pronta.

Temos que aprender a nos valorizar, sem pecarmos pelo orgulho e vaidade, como geralmente fazemos. Acho essa uma das tarefas íntimas mais difíceis de serem realizadas, porque temos o hábito de nos valorizarmos pelas nossas supostas realizações, não pelas nossas vitórias sobre nosso ego. Achamos que somos o máximo porque fazemos caridade, quando na verdade é Deus que nos aproveita para socorrer quem precisa. Nós não fazemos caridade, nós nos pré-dispomos à sermos instrumentos de Deus, e temos o dever de nos aprimorarmos cada vez mais, para que possamos ser melhores e mais capazes instrumentos.

E como nos aprimoramos? De muitas formas, mas uma das favoritas de Deus é o sofrimento. Por que o sofrimento? Porque é quando sofremos que conseguimos entender o sofrimento das outras pessoas. É quando sofremos que aprendemos a nos sensibilizar com o sofrimento dos outros. Antes de sofrermos, estamos sempre centrados em nós. Depois que sofremos, passamos a ver o sofrimento dos outros com mais compaixão, com mais empatia, e por isso mesmo ficamos mais *dispostos* à trabalhar junto com Deus para minorar as misérioas do mundo. Enquanto estamos distraídos com nossa felicidade e bem-estar, Deus tem dificuldades de nos sensibilizar para o trabalho de Amor e Misericórdia que há para fazer em toda a parte.

Temos muitos planos, muitos sonhos, muitas coisas à realizar por nós mesmos, e quanto mais felizes e vitoriosos no mundo, menos nos dispomos aos planos, sonhos e realizações de Deus. Por isso às vezes Ele nos faz sofrer e até nos tira tudo, para que paremos de nos distrair e aprendamos a valorizar o sofrimento dos outros e a termos disposição para minorá-los, tanto quanto desejamos que o nosso fosse minorado, quando foi a nossa vez de sofrer.

Madre Teresa, sem dúvidas, em algum momento de sua evolução, sofreu bastante (como acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde), e agora veio ao mundo para se dispor totalmente à Deus afim de minorar o máximo que suas forças permitissem, o sofrimento dos mais sofredores. Ela já nasceu vitoriosa, já nasceu disposta à Deus e desapegada de seu ego. E certamente nessa vida ela se superou em forças e em possibilidades, porque precisou crescer e realizar mais superações no decorrer da realização da obra de Deus, e por isso, em próximas oportunidades, será ainda mais digna e mais capaz do que foi nessa vida.

E assim é com todos nós, desde os mais ególatras até os Santos. Todos somos instrumentos de Deus, mas depende de nós sermos cada vez melhores e mais capazes instrumentos, com humildade para reconhecer que a obra não nos pertence, mas com auto-amor e auto-respeito para reconhecermos nossa parecela de mérito, dignidade e vitória pessoal em tudo que Deus realiza através de nós.

Reino de Deus em Nós

Ando refletindo muito sobre uma passagem do livro “Luz do Mundo” de Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo P. Franco. A passagem é a seguinte:

” – O Reino de Deus – concluiu o Mestre – está dentro de cada um que o deseje. Não é trabalho externo, antes resultado do excelente labor anônimo e sacrificial nas noites de silêncio, nos dias de angústia e dor libertadora. Ninguém o verá, e esse herói, aquele que o conseguir realizar, não receberá aplauso, passando entre os homens desconsiderado, incompreendido, malsinado, todavia em paz consigo mesmo e em harmonia com Deus…”.

Achei tão perfeita essa colocação! De uma sabedoria e profundidade tão grande! Geralmente temos a ilusão de que aqueles que se destacam no trabalho externo é que estão caminhando no Reino de Deus… Mas quem pode julgar o íntimo das pessoas? Até que ponto o trabalho externo é resultado do amor? Quem pode julgar se uma pessoa que se destaca entre as demais no labor evangélico, vive intimamente tal qual um verdadeiro seguidor do Cristo? Ninguém pode julgar isso além de Deus…

Muitas vezes aqueles que se destacam menos são justo os que mais paz íntima possuem. Muitas vezes alguém que sequer faz algum trabalho evangélico, está mais em harmonia consigo mesmo e com Deus do que um que se diz cristão. E isso nem é raro. Achei interessante a observação da passagem quando destaca-se que o Reino de Deus é conquista íntima, não externa. Que conquistamos o Reino de Deus após laboriar muito dentro de nós mesmos, de sofrermos todas as dores do autoconhecimento e auto-burilamento. É também sofrendo as consequências dos nossos atos, nos reajustando diante das Leis de Deus, e encontrando assim a paz da consciência livre.

Dói… Dói muito encontrar dentro de nós o Reino de Deus. É preciso dores atrozes, solidões escuras onde apenas o Mestre nos acompanha, para que reconheçamos Seu Augusto Amor, e solidifiquemos a nossa Fé e União com Ele. É na dor soberana que encontramos o Reino de Deus, aquele lugar indubitavelmente seguro dentro de nós, onde encontramos a paz. Uma paz que é só nossa, fruto da libertação da consciência e da reconquista de si mesmo. Uma paz que não foi dada, que não foi encontrada em templos, livros ou teorias, mas conquistada à custa de muito sofrimento, das provações mais singulares e penosas, de ter a alma inteira destruída e refeita. A força que vem dessa paz é inabalável, porque é resultado da união definitiva entre criatura e Criador. Haja o que houver, o Reino de Deus está estabelecido no nosso coração, e a Paz reina mesmo na tempestade…

Tal qual uma frase que li uma vez no livro “Paulo e Estevão”, numa ocasião em que Paulo é apedrejado sentindo aquela paz angélica e confiança irrestrita em Deus. Achei-a perfeita para descrever o encontro com o Reino de Deus: “Na prova rude e dolorosa, compreendeu, alegremente, que havia atingido a região de paz divina, no mundo interior, que Deus concede a seus filhos depois das lutas acerbas e incessantes, por eles mantidas na conquista de si mesmos”.

Tem um momento da luta que os golpes já não surtem mais efeito, não porque não doam, mas porque estamos em paz. A segurança do Reino de Deus não nos permite temer ou revoltar, só nos permite confiar e prosseguir com Deus.

Penso que o trabalho externo acaba sendo consequência dessa conquista, não meio de conquistar. Há muitos de nós que buscam o trabalho externo afim de conquistar o Reino de Deus pelo “meio mais fácil”, mas com o passar dos anos, as experiências da vida vão nos ensinando que o meio mais fácil é aquele que julgamos mais difícil…

Não sou defensora do sofrimento, mas tenho que admitir que ele é um meio muito eficaz para encontrarmos Deus e a paz… Tenho que admitir a sabedoria de Deus ao permitir nosso sofrimento em determinado ponto da caminhada afim de nos conduzir à Seu Reino. Um sofrimento que só existe até que O encontremos dentro de nós… Depois que encontramos o Reino de Deus, não somos mais capazes de sofrer as dores que nos levaram àquele ponto de Encontro, justamente porque O encontramos. Os sofrimentos se modificam, mas todos são enfrentados com Paz e Harmonia com Deus.

Por tudo isso ando pensando muito naquela passagem… Na ilusão que temos de ver o exterior e julgar coisas e situações que apenas Deus é capaz de julgar. Nem sempre o exterior é reflexo do interior, e nem sempre alguém que prega a paz vive em paz. Da mesma forma que nem sempre aquele que julgamos o último, está perdido… Talvez estejamos mais perdidos que ele no fim…

Isso foi só uma breve reflexão pessoal, portanto desculpem se o texto estiver um tanto reflexivo demais e com lógica de menos… :)

Veracidade e Não-Violência

Relendo o livro “Cartas à Ashram” de Gandhi, uma frase me chamou a atenção, o que na primeira leitura não tinha acontecido: “As únicas virtudes que pretendo são a veracidade e a não-violência”.

Fiquei refletindo que uma alma tão elevada como ele, que provavelmente só reencarna em planetas como a Terra para missões coletivas, tenha pretendido para essa vida apenas duas virtudes. Todas duas dificílimas, diga-se de passagem, e que ele vivenciou à risca, nos mínimos detalhes.

Para nós, ainda afinizados com um planeta de provas e expiações, fica difícil imaginar até o que seja vivenciar essas duas virtudes em sua máxima como ele o fez. Imaginem o que seria para nós dizer sempre a verdade, em todos os detalhes. É impossível não lembrar de uma comédia americana estrelada por Jim Carey, chamada “O Mentiroso”, onde um advogado (Jim) à pedido de seu filho, não consegue dizer nenhuma mentirinha durante um dia inteiro. Como tudo ficou de pernas para o ar no dia dele! E Gandhi vivia assim, mesmo sendo advogado também, durante 24 horas, *todos os dias*.

Jamais dizia uma mentira, independente do prejuízo ou sacrifício que significasse para si próprio. Qual de nós teria tamanha força de caráter, e tamanho desprendimento do ego, para cultivar a veracidade em todos os lances da vida? Nós ainda fazemos pior. Além de contarmos uma mentirinha ou outra eventualmente, para nos resguardarmos da bronca do chefe, ou da cobrança de um cliente importante, nós também pedimos que outras pessoas mintam por nós. Pedimos sempre que alguém diga à outra pessoa que não estamos, quando estamos. Que um funcionário diga ao cliente que o trabalho está todo pronto, quando não está. Que um filho diga ao pai que acabou o dinheiro, quando não acabou. São tantas as mentirinhas que dizemos ao longo do dia, que os especialistas dizem que, em média,  um ser-humano *normal* (que não tem nenhuma patologia que o faça mentir, embora nesses casos o que conta é mais a motivação – e falta dela -, e não a quantidade) conta em torno de 200 mentiras por dia.

Imaginemos então, que quando Gandhi escolheu a veracidade como uma das duas virtudes que iria se concentrar totalmente, ele não estava fazendo pouco, e sem dúvidas estava muito à nossa frente.

E com relação à não-violência, que ele também vivia à risca, ao ponto de ter se tornado ícone e exemplo nessa virtude, ele também devia encontrar muita dificuldade de viver isso aqui na Terra, porque ele não se restringia a ser pacífico só com os seres-humanos, mas com toda a Criação, até as plantas. Se alimentava apenas de frutas, porque elas caem das árvores, e isso quer dizer que não matamos a planta e nem a prejudicamos para nos alimentarmos de fruta. Ele vivia intensamente todos os pormenores da não violência, e agia apenas depois de constatar que sua ação e até palavra, não iria violentar o que quer que fosse. Há uma parte do seu livro “A Roca e o Calmo Pensar” que ele conta de quando compraram o terreno onde foi construído seu Ashram. O local estava infestado de cobras, e ele proibiu que qualquer um, à qualquer pretexto, matasse uma só cobra. Que morressem, mas não matassem. Ele disse que todos tinham medo, inclusive ele, mas que violar o ahimsa estava fora de cogitação. E assim foi por anos, e durante todo o tempo, embora as cobras tenham continuado lá, nenhuma delas fez mal à qualquer um deles, e que no fim ele atribuíra isso à Deus, que retribuiu o respeito que eles tiveram pela vida das cobras, protegendo a vida deles.

Quem de nós consegue viver assim, se quase todos os dias nós violentamos até à nós mesmos? E mesmo quando cuidamos de nós, e  somos pacíficos uns com os outros, nós violentamos a Natureza todo o tempo. Uma vez, pensando nisso, eu cheguei a ter um pensamento tragicômico, mas que foi uma dúvida honesta que me ocorreu: “como será que Gandhi fazia se um de seus filhos pegasse piolho, por exemplo? O que não deve ser difícil num país como a Índia, que tem sérios problemas com a higiene. Será que ele deixava o menino cheio de piolhos? Mesmo que raspasse a cabeça, ele iria decretar a morte dos piolhos e das lêndias, não é?” Eu não consigo conceber uma vida num mundo como a Terra, sem que haja qualquer tipo de violência, mesmo aquelas que praticamos inconscientemente. Mas ele conseguia.

Não foi em vão que por muitos anos os ocidentais consideraram Gandhi um louco estravagante. Mas ele não era louco, ele só não era desse mundo, e aqui veio apenas para nos ajudar, mas tentando viver a vida de quem já habita esferas e mundos onde a não-violência é comum, e toda a sociedade é adaptada à viver de forma pacífica em todos os seus pormenores. Imagino o sacrifício que ele teve que empregar para viver dessa forma aqui na Terra. Mas penso também que se almas como ele nunca viessem aqui nos mostrar na prática que é possível, nós nunca sairíamos do lugar.

E pensar que nós, tão pequeninos, ainda não conseguimos praticar nenhuma virtude em todos os pormenores, e quando conseguimos avançar um pouco em uma delas, já saímos vitoriosos da vida. Para vermos como ainda estamos distantes. É nas horas que nos deparamos com essa nossa pequenez, que somos obrigados à cultivar a humildade, e orar para encontrarmos forças e robustez espiritual para prosseguirmos na nossa caminhada de auto-iluminação. Precisamos mesmo orar e vigiar muito, para avançarmos um pouco que seja nas virtudes, que ainda nos são tão difíceis de praticar.  Cada vez mais constato que a vigilância e a oração devem ser uma das nossas maiores e prioritárias preocupações. Aliás, o próprio Gandhi disse muitas vezes que só conseguia viver essas duas virtudes de forma tão intensa, porque das coisas que mais fazia na vida era orar e vigiar cada um de seus atos, palavras e especialmente pensamentos.

E nós que vivemos a vida concentrados em juntar bens, pagar contas, comprar coisas, receber pagamentos de tudo, e mais mil interesses que dizem respeito apenas à matéria ou ao ego (sim, porque muitas vezes nós cultuamos o ego muito mais que a matéria, e vivemos para satisfazê-lo, mesmo vivendo no desprendimento material), ainda temos a pretenção de dizermos que somos seres espiritualizados, só porque buscamos algum conhecimento sobre a vida espiritual. Acho mesmo que nós ainda nem conseguimos conceber o que seja viver espiritualmente num mundo como a Terra. E todos aqueles que tentaram e conseguiram, foram tidos como loucos, exagerados e visionários por muitos de nós. Mas se Deus permite que eles reencarnem para nos ensinar, é porque já temos condições, e falta-nos apenas a coragem e a determinação de nos despojarmos do nosso egoísmo, orgulho e falsa noção de necessidade da matéria para sermos felizes. A matéria é nossa ferramenta de progresso, não o motivo dele. E nós passamos a vida toda tendo os bens e o conforto material como motivo de luta, para no fim não levarmos daqui nem mesmo o nosso corpo.

Humildade e Superação

“Ao ver-me diante de um paciente em processo psicoterápico ou diante de algum aluno, vai amadurecendo cada vez mais a minha certeza de que nós nos fazemos grandes a partir de nossas pequenezas. Uma pessoa equilibrada não é aquela que não tem conflitos e sim aquela que conseguiu superá-los e harmonizar-se. Uma pessoa normal não é alguém que nunca sofreu nenhuma patologia: é alguém que, tendo tomado consciência de sua patologia, trabalhou à si mesma pela normalidade. Portanto, um otimista não é um ingênuo: é alguém que ultrapassou o seu pessimismo, positiva e construtivamente”. (Dr. José Luiz Archanjo – Prefácio de “A Roca e o Calmo Pensar” – Gandhi)

Achei essa colocação fantástica! Na verdade achei todo o prefácio escrito por José Luiz Archanjo, para o livro “A Roca e o Calmo Pensar”, de Gandhi, de uma beleza e profundidades impecáveis! Mas essa colocação em especial me chamou a atenção, porque raramente vemos colocações engrandecendo as dificuldades pelas quais passamos. Por um movimento natural de busca pelo prazer de viver, nós colocamos sempre as nossas dificuldades como as grandes vilãs das nossas vidas, sem nunca bendizê-las ou dar-lhes tamanho valor ao ponto de colocá-las como as grandes responsáveis pelo nosso crescimento.

Mas refletindo como o autor, nós paramos para pensar na nossa vida e vemos o quanto de razão e sabedoria há nessa colocação. Realmente são as dificuldades que nos transformam em seres humanos mais maduros, mais capazes, mais consciêntes, mais grandiosos.  A nossa pequenez está constantemente nos convidando ao crescimento, e a cada momento que vemos o quão grande ela é, mais nos esforçamos para lhe superar, e como consequência natural, mais crescemos.

Podemos então dizer que, por esse raciocínio,  o nosso crescimento está umbilicalmente ligado ao grau de nossa humildade. Sim, porque aquele que se crê grande e sem dificuldades, não consegue se aprimorar, até porque não se crê necessitado de aprimoramento. E nisso o ser estaciona espiritualmente (embora possa crescer muito materialmente) e passa ano após ano, século após século, rodando em volta de sua própria pequenez, sem jamais ter a coragem de olhar para ela, e encarar o quão pequeno ainda é. O orgulho nos faz isso, até que um dia a Vida nos obriga a olhar para nossa imaturidade e pequenez, e junto com a dor da constatação dessa realidade, damos nossos primeiros passos na humildade. E então, nem que seja por um pouco de orgulho até, desejamos crescer, superar nossos problemas.

Às vezes não, porque às vezes a dor por ser pequeno é tão grande e devastadora, que o ser prefere crer-se vítima do mundo e das pessoas, prefere destruir o que está por fora em vez de transformar o que está por dentro. É menos dolorido crer-se injustamente irreconhecido, injustamente detestado, injustamente mal-amado. Nunca ele tem coragem de admitir que o problema está apenas com ele, que ele é mesmo muito pequenininho e cheio de defeitos à serem não só admitidos, mas sobretudo *superados*. Tal qual diz no texto, a pessoa é equilibrada porque superou-se acima de seus conflitos e se harmonizou. Ele não disse que ela perdeu os conflitos, mas que cresceu diante deles, e tornou-se maior que eles. Os conflitos foram a grande mola propulsora para seu crescimento. Foi da necessidade de busca pelo prazer e bem-estar, que o ser superou a sua dificuldade e cresceu.

É assim sempre, em toda a história, desde as cavernas até os grandes arranha-céus das cidades de hoje. Se há uma doença fazendo a população sofrer, busca-se a cura muitas vezes com descobertas inéditas. Se existe dificuldade, seja qual for, existe o impulso para a superação da dificuldade com consequente crescimento. Não adianta muito destruir a dificuldade, porque ela sempre pode voltar de outras mil formas. O ideal é se colocar acima dela, se superar, para que ela não seja mais uma dificuldade, embora continue sendo a mesma coisa de sempre. Uma doença continua sendo doença, mas a pessoa estará vacinada, e não será mais atingida pela doença. A fome continuará sendo fome, mas a pessoa terá encontrado um trabalho e terá como comprar comida. O frio continuará existindo, mas a pessoa terá encontrado um casaco para lhe resguardar.

Por isso não adianta se revoltar diante da dificuldade e desejar simplesmente a destruir, como se fôssemos crianças birrentas e agressivas, que destróem a bola que não entra no gol. Temos que aprender a jogar a bola, e não exigir que a bola entre, mesmo conosco sendo verdadeiros “pernas-de-pau”. O difícil é o jogador vaidoso e orgulhoso assumir que é um “perna-de-pau” e que, portanto, precisa aprender a jogar a bola. Diante disso podemos supor que a nossa maior dificuldade real de crescimento é o orgulho, na mesma proporção que o egoísmo nos impede de amar e doar, e não qualquer coisa que esteja fora de nós, sejam os obstáculos da vida, sejam as pessoas difíceis.

A humildade, portanto, é a nossa escada sem fim rumo ao aperfeiçoamente, porque sem nos reconhecermos verdadeiramente pequenos, falíveis e imperfeitos, jamais teremos o verdadeiro impulso de crescimento. Ficamos parados, esperando que algo ou alguém remova nosso foco de dificuldade, como um Rei orgulhoso espera que seus escravos limpem o tapete por onde ele quer passar. Ninguém vai remover a sujeira dos nossos tapetes, porque são justamente essas sujeiras as ferramentas de Deus para nos educar, nos amadurecer e nos fazer grandes! Enquanto nós mesmos não as ultrapassarmos, enquanto não assumirmos que elas são de responsabilidade apenas nossa, vamos ficar fingindo para nós mesmos que a sujeira não é da nossa conta e exigindo que a retirem, para que possamos “ser felizes”, quando a felicidade real está em andar pelo tapete sujo sem sujar os pés… Mas para isso precisamos ser, como Gandhi falou, menores que o pó onde pisamos.

Parafraseando Gandhi: “A Verdade não será alcançada por aquele que não tem em si compreensão extensa de humildade. Se quiser nadar no Oceano da Verdade será preciso reduzir-se à zero. O Ahimsa é o extremo limite da Humildade”.

Gandhi e o Ahimsa

Ontem comprei um livro maravilhoso de Mahatma Gandhi. Estou devorando-o, de tão bom, simples e profundo. É o “Cartas a Ashram”, um conjunto de cartas que ele escreveu à seus colaboradores do Ashram Satyagraha, durante uma de suas prisões. Logo no segundo capítulo, eu me impressionei com o texto “Amor (Ahimsa)”. Poucas vezes na vida li conceitos tão elevados, sublimes, profundos e incondicionalmente altruístas, colocados de forma tão simples, completa e encantadora. Um texto que contém um roteiro para uma vida inteira! Ao lermos essas cartas, que são mais íntimas e ao mesmo tempo universais, conseguimos ver claramente a elevação de sua Grande Alma. Tive que transcrever o texto e publicar aqui, de tão encantada que fiquei!

AMOR (AHIMSA)

Na semana passada vimos que o atalho da Verdade é tão estreito quando certo. podemos dizer o mesmo com relação ao ahimsa. É como se nos equilibrássemos na lâmina de uma espada. Um acrobata, concentrando-se em suas faculdades, pode dançar sobre uma corda suspensa. Mas é necessária uma concentração muito maior agora para seguir a vereda da Verdade e do ahimsa. A mais ligeira distração traz queda. Não é senão através de um esforço incessante que podemos chegar a realizar em nós a Verdade e o ahimsa.

É-nos impossível realizar a Verdade perfeita enquanto formos prisioneiros deste envoltório mortal. Não podemos senão representá-lo pela imaginação. Nosso corpo efêmero não é um instrumento com o qual possamos ver face à face a Verdade, que é eterna. Por essa razão somos levados, finalmente, a contar com nossa fé.

Parece que a impossibilidade de realizar plenamente a Verdade com nosso corpo mortal dá, entretanto, a oportunidade a qualquer ansião que com prudência busca a Verdade, de avaliar o ahimsa. O problema dianto do qual nos defrontamos é o seguinte: “Suporto os que me trazem dificuldades ou os destrui”? Compreende-se, então, que aquele que persiste em destruir os outros seres não vai avante, mas fica simplesmente, onde está, enquanto que aquele que suporta as criaturas que lhe criam entraves vai avante, e leva mesmo, às vezes, outras pessoas consigo. Consequentemente, quanto mais se recorre à violência, mais longe se está da Verdade. Pois lutando contra o inimigo que se procura, no exterior, negligencia-se o inimigo interior.

Castigamos os ladrões porque nos cremos perseguidos por eles, mas se eles nos deixassem tranquilos seria unicamente para atacar algum outro indivíduo. Ora, a outra vítima é também um ser humano, isto é, nós mesmos sob forma diferente, e assim caímos num círculo vicioso. O problema criado pelos ladrões continua a crescer, pois eles consideram o roubo como seu trabalho. Por fim, não percebemos que é preferível suportar os ladrões a persegui-los. Talvez nossa paciência os amenize nos sentimentos. Suportando-os, poderemos compreender que eles não são diferentes de nós, que são nossos irmãos, nossos amigos, e que não devemos puní-los. Mas enquanto suportamos os ladrões, não é preciso que nos resignemos ao que está errado. Isto seria indigno! É então que descobrimos um novo dever. Se consideramos os ladrões como membros de nossa família, é preciso mostrar-lhes tal parentesco. Devemos nos esforçar para encontrar os meios de fazê-los vir até nós. Eis o caminho da ahimsa. Este caminho pode provocar sofrimentos contínuos, e nos obriga a cultivar uma paciência infinita, mas se tais condições forem aceitas, o ladrão será forçado a renunciar a sua vida errada. E assim, passo a passo, chegaremos a estabelecer relações de amizade com o mundo inteiro; compreenderemos a grandeza de Deus, da Verdade. A paz de nosso espírito será mais profunda, apesar dos sofrimentos; tornar-nos-emos mais corajosos e empreendedores; compreenderemos mais claramente a diferença entre o que é eterno e o que não o é; aprenderemos a distinguir entre o que é nosso dever e o que não o é. Nosso orgulho cederá e nos tornaremos humildes. Nossos laços terrestres se relaxarão e o mal que há em nós diminuirá dia a dia.

O ahimsa não é uma coisa simples e grosseira que possa ser descrita. Não fazer o mal a nenhum ser vivente é, sem dúvidas, uma parte do ahimsa, mas isto não é mais que um pequeno aspécto. O princípio do ahimsa é uma luta contra todo pensamento mau, toda precipitação, injustificada, contra a mentira, o ódio, o fato de desejar o mal a qualquer pessoa. Violaremos tal princípio se retivermos conosco o que o mundo tem carência. O mundo precisa do que comemos a cada dia! Há milhões de microorganismos aos quais o lugar que ocupamos pertence, e nossa presença os faz sofrer. Então, que fazer? Suicidar-nos? Esta não é a solução, pois nós admitimos que o espírito, que é ligado à carne, torna-se um corpo novo assim que o antigo é destruído. O corpo somente cessará quando não tivermos com ele nenhuma relação. Esta libertação de todos os laços é a realização de Deus como Verdade. Tal realização não pode ser feita antes do seu tempo. O corpo não nos pertence. Enquanto durar, devemos servir-nos dele como uma coisa que nos foi confiada e da qual somos responsáveis. Considerando também o que pertence à carne, podemos esperar, um dia, a libertação do corpo. Compreendendo as limitações às quais a carne está sujeita, devemos, cotidianamente, esforçar-nos em direção ao ideal, com toda força que temos em nós.

O que foi dito terá, talvez, feito compreender que sem o ahimsa é impossível procurar e encontrar a Verdade. O ahimsa e a Verdade estão tão estreitamente ligados que é impossível separar um do outro. São como duas faces de uma medalha, ou de um disco de metal liso e sem impressão alguma. Quem poderá saber qual é o verso e qual o reverso? Entretanto, o ahimsa é o meio e a Verdade é o fim. Os meios, para serem meios, devem estar ao nosso alcance; o ahimsa é nosso dever supremo. Se aplicarmos os meios com prudência, estejamos certos de que, mais cedo ou mais tarde, chegaremos ao fim. Uma vez que compreendamos isto não pode haver dúvida quanto à vitória final. Quaisquer que sejam as dificuldades a defrontar, quaisquer que sejam as derrotas a que aparentemente nos submetemos, não nos é permitido abandonar a procura da Verdade, que somente é, pois que ela é Deus Ele-mesmo.

Mahatma Gandhi
(Cartas a Ashram – Capítulo 2)

Frugivorismo por Sri Yuktéswar

Sempre disse aqui que adoro o guru do Yogananda, o Sri Yuktéswar. O livro dele, “A Ciência Sagrada”, é simplesmente maravilhoso, especialmente para pessoas como eu, que são cristãs fervorosas, mas muito simpatizantes da Yoga e do Hinduísmo. Gostar de Yogananda e Sri Yuktéswar é tarefa fácil, já que eles sempre mostraram não só muito interesse e respeito por Jesus, como estudaram de forma profunda, lúcida e coerente, a vida do Cristo, deixando-nos além de estudos notáveis sobre a ligação do Evangelho e da Yoga, a prática moral diária dos conceitos vivenciados por Jesus.

Mas tem uma parte do seu livro que merece toda reverência, porque foi escrito com tal lucidez e coerência espantosas, dignas da alma superior que é. É o texto sobre Frugivorismo (dieta restrita, onde entra-se apenas frutas e verduras, excluindo cereais, ovos, leite e legumes – tudo que vem de origem animal e mais tudo que precisa-se processar de alguma forma – inclusive o cozimento – para que o ser-humano consiga comer), onde podemos até não nos convercermos a nos tornarmos frugívoros, mas podemos terminar com a certeza de que os seres-humanos são frugívoros por natureza, e não onívoros, como aprendemos nos livros de Biologia. E para quem disser que essa alimentação não é apropriada por questões nutricionais, podemos lembrar que Gandhi, um exemplo famoso que tivemos, foi frugívoro por quase toda a vida e desencarnou com 79 anos, assassinado, como todos sabemos, e sempre fazendo jejuns durante a  vida. Não tem como saber ao certo se a vida saudável dele foi por isso (ele jurava que sim em seus livros), mas o fato é que ele e muitos outros são adeptos dessa dieta – e de outros tipos de alimentação natural e vegetariana, embora menos restritas – e têm uma vida longa e saudável, de par com o padrão ocidental, onde morremos muito mais jovens, em decorrência de doenças vasculares – infarto e derrame – causadas pela nossa péssima alimentação, do que de velhice.  E além dele, sua esposa e alguns de seus amigos mais íntimos, também viviam dessa dieta, como ele conta em sua autobiografia. Mas independente do frugivorismo em si, o texto é primoroso!

“O que é a vida natural? Para entender o que é a vida natural, será necessário distinguí- la do que é anti-natural. A vida depende da seleção de (1) alimento, (2) moradia, e (3) companhia. Para ter uma vida natural, os animais inferiores escolhem para si mesmo esses elementos com a ajuda de seus instintos e das sentinelas naturais colocadas nas entradas sensoriais – os órgãos da visão, da audição, tato, olfato e paladar. Entretanto, nos homens em geral estes órgãos estão desde a infância de tal forma pervertidos pela vida anti-natural, que pouca confiança se pode ter em seus julgamentos. Portanto, para compreender quais são nossas necessidades naturais, devemos depender de observação, experiência e razão.

O que é alimento natural para o homem? Primeiro, para escolher o alimento natural, devemos observar a formação dos órgãos que cooperam na digestão e na nutrição, os dentes e o canal digestivo; a tendência natural dos órgãos dos sentidos que guiam os animais para o seu alimento; e a nutrição da prole. Observação dos dentes. Pela observação dos dentes, notamos que nos animais carnívoros os incisivos são pouco desenvolvidos, mas os caninos bastante longos, lisos e pontiagudos, para apanhar a presa. Os molares também são pontudos; estas pontas entretanto, não se unem, mas se ajustam estreitamente lado à lado para separar as fibras musculares.

Nos animais herbívoros os incisivos são notavelmente desenvolvidos, os caninos reduzidos (embora algumas vezes sejam longos, como as presas dos elefantes), os molares são largos na parte superior e revestidos de esmalte só nas faces laterais. Nos frugívoros todos os dentes tem quase a mesma altura; os caninos são pouco projetados, cônicos e rombudos (obviamente não planejados para agarrar a presa, mas para exercer força). Os molares tem coroa larga revestida na parte superior de pregas esmaltadas para evitar o desgaste causado pelo seu movimento lateral, não são pontu- dos, inapropriados para mastigar carne.

Por outro lado, nos animais onívoros, como os ursos, os incisivos se assemelham aos dos herbívoros, os caninos são como os dos carnívoros, e os molares não só são pontudos mas também largos na parte superior, para servir a um duplo propósito. Agora, se observarmos a formação dos dentes no homem, veremos que eles não se parecem com os dentes dos carnívoros, nem com os dos herbívoros ou dos onívoros. Eles se parecem exatamente como os dos animais frugívoros. A dedução razoável portanto, é de que o homem é um frugívoro ou um animal comedor de frutas. Observação do canal digestivo. Pela observação do canal digestivo, verificamos que os intestinos dos animais carnívoros são de três à cinco vezes mais longos que seu corpo, quando medidos da boca ao ânus, e seu estômago é quase esférico. Os intestinos dos herbívoros são vinte e oito vezes mais longos que seu corpo, e seu estômago é mais estendido e de estrutura composta. Porém, os intestinos dos animais frugívoros têm de dez a doze vezes a extensão de seu corpo; seu estômago é um pouco mais largo do que o dos carnívoros e tem um prolongamento no duodeno, que funciona como um segundo estômago.

Não é exatamente a formação que encontramos nos seres humanos, embora a anatomia diga que os intestinos humanos tem de três a cinco vezes a extensão do corpo humano – cometendo-se um equívoco ao se medir o corpo da parte superior da cabeça até a sola dos pés, em vez de partir da boca ao ânus. Assim, podemos novamente inferir que o homem é com toda probabilidade um animal frugívoro. Observação dos órgãos dos sentidos. Pela observação da tendência natural dos órgãos dos sentidos – indicadores que determinam o que é nutritivo – os quais direcionam todos os animais para o seu alimento, verificamos que quando o animal carnívoro encontra a presa, sente tanto prazer que seus olhos começam a brilhar; audaciosamente ataca a vítima e sorve com sofreguidão os jatos de sangue. Ao contrário, os herbívoros recusam até mesmo seu alimento natural, deixando-o intacto, se nele houver o menor vestígio de sangue. Seus sentidos do olfato e visão induzem-os a escolher a grama e outras ervas como alimento, degustando-as com prazer. Similarmente, com animais frugívoros percebemos que seus sentidos sempre os dirigem para os frutos das árvores do campo.

Nos homens de todas as raças verificamos que os seus sentidos de olfato, audição e visão nunca os levam à matança de animais; ao contrário, eles não podem sequer suportar a visão dessas chacinas. É sempre recomendável que os matadouros sejam mantidos bem longe das cidades; os homens com freqüência, expedem rigorosos regulamentos proibindo o transporte de carnes descobertas. Pode-se então considerar a carne um alimento natural do homem, quando seus olhos e seu nariz positivamente a rejeitam, a menos que venha disfarçada com o sabor de temperos, sal e açúcar? Por outro lado, como achamos deliciosa a fragrância das frutas, cuja visão nos deixa muitas vezes com água na boca. Pode-se também notar que vários cereais e raízes tem odor e sabor gradáveis, embora fracos, mesmo quando não estão preparados. Portanto, mais uma vez, somos levados a deduzir por estas observações de que o homem tende à ser um animal frugívoro.

Observação da alimentação das crianças. Observando a alimentação das crianças, vemos que o leite é sem dúvida o alimento do recém-nascido. A mãe não terá leite o bastante se não comer frutas, cereais e vegetais como seu alimento natural. A Causa das doenças. Portanto, a única conclusão razoável à que se pode chegar a partir destas observações é a de que os vários cereais, frutas, raízes, e – como bebida – leite, e água pura exposta ao ar e ao sol, são de modo indiscutível o melhor alimento natural para o homem. Por serem adequados ao nosso sistema, quando ingeridos de acordo com a capacidade dos órgãos digestivos, estes alimentos bem mastigados e misturados com a saliva, serão facilmente assimilados. Outros alimentos não são naturais para o homem, e sendo incompatíveis com o sistema são necessariamente estranhos à ele; quando entram no estômago, não são adequadamente assimilados. Misturados com o sangue, acumulam-se nos órgãos excretórios e em órgãos não adaptados adequadamente à eles. Se não são eliminados, depositam-se nas fendas dos tecidos pela lei da gravidade; e, ao fermentarem, produzem doenças mentais e físicas, levando à uma morte prematura.

O desenvolvimento das crianças. A experiência também prova que a dieta natural, não irritante, do vegetarianismo é quase sem exceções admiravelmente apropriada para o desenvolvimento das crianças, tanto físico como mental. Suas principais faculdades, mentes, discernimentos, vontades, temperamentos e disposição geral serão também harmoniosamente desenvolvidos. A vida natural acalma as Paixões. Verificamos que quando se empregam meios incomuns, tais como jejum excessivo, flagelação ou clausura monástica, com a finalidade de suprimir as paixões sexuais, raras vezes consegue-se o efeito desejado. A experiência mostra entretanto, que o homem pode facilmente dominar estas paixões, o arqüiinimigo da moralidade, pela vida natural baseada numa dieta não irritante, acima referida; deste modo, os homens obtém a tranqüilidade da mente, que os psicólogos sabem ser extremamente favorável à atividade mental, à uma compreensão lúcida, bem como à uma judiciosa maneira de pensar.

Desejo sexual. Algo mais deve ser dito aqui sobre o instinto natural de procriação, que é depois do instinto de auto-conservação, o mais forte no corpo animal. O desejo sexual, como todos os outros desejos, tem um estado normal e outro anormal ou doentio, este último resultante unicamente da matéria estranha acumulada pela vida anti-natural, como já mencionamos. No desejo sexual, cada um tem um termômetro muito preciso para indicar a condição de sua saúde. Este desejo ultrapassa seu estado normal devido à irritação nervosa resultante da pressão da matéria estranha acumulada no sistema, pressão esta exercida sobre o aparelho sexual, manifestada primeiro por um exacerbado desejo sexual, depois por uma gradual redução da potência.

O desejo sexual em seu estado normal deixa o homem completamente livre de todas as perturbações lascivas, e só atua no organismo (despertando um desejo de saciedade) raramente. Aqui, outra vez, a experiência demonstra que este desejo, como todos os outros, é sempre normal em indivíduos que vivem uma vida natural, como já mencionamos. A raiz da árvore da vida. O órgão sexual – junção de importantes extremidades nervosas, particularmente dos nervos simpáticos e espinhais (nervos principais do abdômen), os quais através de sua conexão com o cérebro, são capazes de estimular todo o sistema – é, em certo sentido, a raiz da árvore da vida. O homem bem instruído no uso adequado do sexo pode manter seu corpo e sua mente saudáveis e viver uma vida inteiramente agradável.

Os princípios práticos da saúde sexual não são ensinados porque o povo considera o assunto impuro e obsceno. Assim, em sua cegueira, a humanidade tem a presunção de lançar um véu sobre a Natureza, porque ela lhe parece impura, esquecendo que ela é sempre imaculada e que tudo que existe de impuro e indecoroso está na mente do homem e não na natureza. Por conseguinte, é claro que o homem, ignorando a verdade sobre os perigos do abuso da força sexual, sendo compelido à práticas errôneas através da irritação nervosa resultante de uma vida anti-natural, sofrerá perturbadoras moléstias na vida, tornando-se uma vítima de morte prematura. A moradia do homem. Em segundo lugar, vem a casa onde moramos. Podemos facilmente compreender, quando nos sentimos mal ao entramos numa sala abarrotada depois de respirarmos o ar fresco do alto de uma montanha ou de um vasto campo ou jardim, que a atmosfera da cidade ou de qualquer aglomerado urbano é anti-natural para se morar. A atmosfera revigorante do alto de uma montanha, de um campo, jardim ou de um lugar seco e arborizado situado num espaçoso terreno, bem ventilado com ar fresco, é a moradia apropriada para o homem em harmonia com a natureza.

A companhia que devemos ter. Em terceiro lugar está a companhia que devemos ter. Aqui também, se ouvirmos os ditames de nossa consciência e consultarmos nossa inclinação natural, verificaremos que preferimos as pessoas cujo magnetismo nos afeta harmoniosamente, que acalmam nosso organismo, tonificam internamente nossa vitalidade, desenvolvem nosso amor natural, aliviando nossos sofrimentos, nos transmitindo paz. Isto quer dizer que devemos estar na companhia de Sat ou Salvador, e como já aludimos antes, devemos evitar a companhia de Asat. Na companhia de Sat temos a possibilidade de gozar uma saúde perfeita, física e mental, e nossa vida é prolongada. Se, por outro lado, não seguimos o conselho da Mãe Natureza, nem ouvimos os ditames de nossa consciência pura, mantendo a companhia de tudo que foi designado como A sat, produz-se um efeito oposto, prejudicando a saúde e encurtando a vida. Necessidade de Vida Natural e Pureza. Por conseguinte, a vida natural favorece a prática de Yama, as abstenções ascéticas. Sendo a pureza da mente e do corpo igualmente importante na prática de Niyama, as observâncias ascéticas, devem-se fazer todas as tentativas para atingir essa pureza.”

(Sri Yuktéswar – A Ciência Sagrada)