Desafios do Amor

jesus

Amar é sempre um desafio doloroso, e não é por menos que tanta gente foge desse sentimento tão intenso e tão complexo. Entrar em contato profundo com outra alma nos trás um prazer iniqualável, mas ao mesmo tempo nos faz visitar locais na nossa alma que não desejamos visitar.

Quando alguém, dotado de um poder inexplicável, consegue adentrar as portas das defesas e das couraças de proteção emocional que engendramos para proteger do sofrimento a nossa capacidade de amar, e se instala no nosso coração, inevitavelmente começam os desafios. Não temos tempo de analisar, de nos prepararmos, porque o amor sempre chega sem aviso prévio.

O que antes era escuro e aparentemente deserto, se enche de luzes e nos mostra que não era deserto. Havia alí, escondido na alma, muito caos que se mostra como sentimentos confusos, mal resolvidos, cicatrizes que ainda sangram, necessidades ignoradas… Nos vemos obrigados a olhar para tudo aquilo, com uma luz que nos ofusca e confunde. Não conseguimos analisar, só sentir a luz entrando, acabando com as sombras, deixando à mostra todas as nossas fragilidades.

Amar, me disseram uma vez, é estar diante de alguém sem defesas, sem reservas, com todas as fragilidades à tona. É ter a alma desnuda e vulnerável. Causa pavor…

Mas depois de um tempo, aprendemos que não podemos fugir para sempre de Deus… Um dia temos que assumir nossa capacidade de amar e enfrentar os desafios que isso trás. É a maturidade que chega e nos convida a crescer. Precisamos arrumar as confusões feitas pelas nossas necessidades e ilusões. Precisamos enfrentar os desafios do amor, o sofrimento inevitável que ele causa ao nosso ego, sempre tão orgulhoso e egoísta!

Amar incondicionalmente sem dúvidas é o maior de todos os desafios do amor. Amar sem esperar nada em troca, sem desejar nem mesmo ser correspondido, sem esperar que nosso afeto irá corresponder nossas expectativas até mesmo sobre o bem estar dele próprio. Amar com toda a força da alma, mas ainda assim mantendo a distância emocional necessária para amar e ser útil, para amar sem permitir que nosso ego prejudique quem amamos. Amar e ser capaz de lidar com as defesas do nosso ser amado. Defesas essas que nos afastam, quando gostaríamos de estarmos próximos. Defesas que rejeitam nosso amor mais sincero. Defesas que desprezam nossa presença, que se mostram indiferentes ao fato de existirmos no mundo.

Lidar com tantas defesas sem defender-se de volta é realmente muito desafiador.

Sim, nos defender é quase uma necessidade em alguns momentos. Porque antes, quando tentamos amar, sofremos muito, então para nos proteger de “cair na cilada do amor” outra vez, queremos esquecer tudo, queremos esquecer de quem somos, de onde pertencemos, e nos preparamos com todo arsenal possível para nos defender de possíveis ataques à nossa paz. Enregelamos o coração e o envolvemos com uma couraça resistente até àqueles que antes nos tocavam tão intesamente. Construímos uma indiferença segura e que aparentemente trás toda a paz do mundo para nós. Viver sem sentir nada? Nada melhor que isso, pensamos.

Mas então Deus mostra seu poder sobre nossa alma infantil, teimosa e assustada. Um dia, quando menos esperamos, as defesas são ultrapassadas com toda a facilidade, mostrando como somos um nada diante dessa força da natureza que chamamos de amor. O gelo derrete rapidamente, enquanto tentamos entender o que está acontecendo. A couraça se destrói e todas as feridas ficam à mostra.

Temos a opção de reconstruir todo nosso arsanal outra vez e seguir fugindo ou temos a opção de enfrentar os desafios, por mais doloridos que sejam e aproveitar a oportunidade de amadurecimento, de crescimento, de cura e de saúde espiritual. Uma decisão que parece tão simples, tão fácil, tão óbvia, mas que na prática é tão, tão difícil e complexa…

Catarse com Amor

Ando refletindo no quanto é difícil dissipar algumas energias negativas. Realmente dissipá-las da nossa alma e não guardá-las em algum lugar dentro de nós como se elas não existissem. Isso não é bom, é como conservar uma “Caixa de Pandora”, sempre devastadora quando aberta. Nossa luta maior passa a ser mantê-la fechada, não restando forças para dissipar a energia negativa alí acumulada. Isso não é saudável sob nenhum aspécto. Penso que essa caixa não devia existir dentro de nós, porque se acumulada, nos envenena silenciosamente e devastadoramente. Muitas doenças físicas têm como causa energias negativas acumulada na alma. Mas isso ainda não é o pior, porque de qualquer forma o máximo que pode nos acontecer é morrermos devido à essas doenças, e isso, sem dúvida, não é o “fim do mundo”, mas o problema psíquico mudando de dimensão. Nosso corpo físico pode morrer, mas o problema não, porque a causa está no Espírito. Morremos e continuamos com as energias negativas, por isso penso que catarses-doenças não são sinônimo de cura  psíquica, porque são efeitos. O que pode acontecer é, diante da doença e da possibilidade da morte, tenhamos reações de mudança e tranformação psíquica e energética. Repensemos nossas mágoas, resolvamos nos reconciliar com as pessoas, vejamos dádivas onde antes víamos problemas e muito mais. Mas aí não seria a doença em si, mas a nossa *reação* diante da doença.

Minha pergunta então é: Como conseguir, de forma eficiente, definitiva e *consciente*, transformar energia negativa em positiva? Como transformar fel em mel?

Existem algumas idéias terapêuticas que dizem que temos que liberá-las, ou seja, colocar para fora nossas energias negativas, seja brigando, gritando, xingando, fazendo escândalo, quebrando coisas, praticando esportes violentos, enfim, deixar que a energia saia de nós e “queime” no mundo externo. Mas eu não consigo me sentir confortável em envenenar o mundo à minha volta com minhas energias negativas. Não consigo ver algo positivo em poluir o “meio-ambiente mental”, os meus amigos e até os inimigos com os venenos da minha alma. Todos merecem só amor e energias positivas. Me sentiria uma fábrica que libera materiais tóxicos no meio-ambiente durante sua produção. Por isso entendo que tal como hoje fazem nas fábricas, meu material tóxico também precisa ser filtrado e controlado. Isso consegue-se com auto-controle e educação espiritual e emocional. Mas da mesma forma não quero me poluir, porque eu também mereço amor. Aí que está o grande problema… Como transformar essas energias dentro de mim? Como dissipá-las dentro de mim, para que elas não envenenem nem à mim e nem ao mundo à minha volta?

Alguns especialistas dizem que as Artes são excelentes catárticos, que elas transformam nossas energias, que podemos transformar um drama íntimo em obras de arte que retratem o positivo da vida. Nao digo criar coisas negativas, para externar os nossos venenos, porque isso seria poluir o ambiente e as pessoas do mesmo jeito. Mas criar coisas positivas sobre o nosso drama afim de que, aos poucos, aquelas energias ruins sejam dissipadas pelas boas que nossa alma estará criando. Nossa energia divino-criativa sendo antídoto para as energias humanas.

Já a maioria dos Mestres que passaram pela Terra são unânimes em recomendar a prática do amor e da benemerência como poderosos e potentes “transformadores energéticos”, como verdadeiros remédios para a alma e para todos os nossos males. Amar para curar a alma. Eu concordo com eles, pois não consigo ver nada que seja mais eficaz, rápido e poderoso que a força do Amor que existe dentro de todas as criaturas. No entanto, como fazemos enquanto não conseguimos amar as pessoas acima dos problemas e conflitos que partilhamos com elas? Será que amando outras pessoas, doando-se para outras pessoas, as energias geradas pelos nossos conflitos com determinadas pessoas são dissipadas também? Ou será que apenas amando a “pessoa-conflito” que conseguiremos a cura? Não digo amar no sentido de sentir afeto apenas, mesmo porque não raras vezes os nossos maiores e mais pungentes conflitos são com as pessoas que mais amamos. Digo no sentido de compreender, perdoar, ou seja, amar de forma mais profunda, transcendendo o afeto. E o auto-amor, será que dissipa nossos venenos? São algumas das perguntas existenciais que nos surgem quando tentamos resolver nossos conflitos com o amor. Como achar as respostas? Meditando, orando, perguntando à Deus dentro de nós? Talvez…

Vocações que são Jóias

KrishnatocandoflautabansuriEstou aqui apaixonada por um livro do Hammed que conheci à poucos dias. Chama-se “La Fontaine e o comportamente humano“. É o estilo de livro que é mais o meu estilo pessoal, porque mescla conceitos morais, espirituais e psicológicos. Eu estou vidrada e poderia destacar uma imensidade de colocações, praticamente em todas as páginas, mas escolhi essa aqui para comentar por agora:

“Em última análise, é a vocação que induz uma pessoa a escolher seu próprio caminho e elevar-se acima da identificação com as massas inconscientes, sem se deixar levar pelas influências psíquicas destas. A vocação, na criatura humana, emerge como uma sutil nuvem de neblina envolvendo todo o espírito, ou melhor, vem à tona mental trazendo uma idéia potencial ou sentimento inato, que significa, num sentido original, ‘ouvir uma voz que nos é dirigida’. Ela é uma manifestação inerente e comum a todos, não sendo decerto prerrogativa somente de grandes personalidades ou celebridades”.

Achei maravilhosa essa colocação de Hammed, porque mostra bem claramente a idéia de que todos nós, Filhos de Deus, temos condições de “ouvir a voz interior” que nos guia para os caminhos de segurança na área que for, nos ensinando a caminhar na lucidez espiritual, mesmo enquanto vivemos mergulhados na matéria. Vocação não apenas no sentido de área profissional, onde esse termo é mais utilizado, mas no sentido de “Potencialidades Divinas”. Aquela mesma idéia, já abordada em entradas anteriores, nós temos que nos conhecer cada vez mais afim de percebermos quais as nossas vocações divinas, como Deus nos criou, de que forma Ele escolheu se manisfestar através de nós. Isso nós sabemos quando nos assumimos como Filhos de Deus e com essa realidade em mãos, começamos o trabalho minucioso e constante de autoconhecimento

Todos nós ao longo dos milênios vivendo nesse mundo de matéria tão grosseira, onde os instintos mais animalizados ainda imperam, adquirimos muitos falsos tesouros de par com os verdadeiros que, igualmente, também guardamos. Mas nossos baús, em maior quantidade, ainda têm o ouro dos tolos. Bijouterias que tomamos por jóias. Fizemos um imenso relicário de valores contrários aos reais valores da Vida. Construímos imensos depósitos de valores materiais e egoístas. E nós damos valor à esse tesouro de forma doentia, às vezes. Colocamos neles o motivo da nossa felicidade. Lutamos por eles com todas as nossas forças. Tentamos, todos os dias, encher ainda mais o baú. Chegamos ao ponto de trocar nossas verdadeiras jóias pelas falsas. E assim vivemos, vida após vida, iludidos de que aquele tesouro é de todo valioso.

Um dia, porém, por diversos motivos, geralmente pelo sofrimento árduo, destruidor e renovador, nós “caímos na real” e percebemos que estamos fazendo papel de tolos. Nos sentimos a criatura mais estúpida de todas, mais pequenina e insensata. Olhamos para trás e vemos todos os esforços que fizemos para lutar por… aquilo. Um tesouro de ilusões que só tem valor num mundo que é tão efêmero quanto ilusório. Afinal, depois de tantos milênios sentindo, respirando e vivendo como corpos físicos, percebemos que na verdade somos espíritos, e que o corpo físico é como um dia de prova de vestibular. Percebemos que, nessa prova pela qual nos preparamos tanto, estamos respondendo tudo errado. Não raras vezes olhamos para o relógio e ele está quase marcando a hora do fim. Quando temos a dádiva de perceber com antecedência, corremos ao início da prova e respondemos outra vez.

Mas nem sempre é possível e então, voltamos para casa e outra vez nos preparamos para outro dia de prova. Até que tenhamos consciência disso, nós vivemos como se nosso tesouro supremo, como se o objetivo e fim de todas as nossas aspirações, fosse o dia da prova. Mas não. Ela é só o começo de uma nova etapa, para qual nós atravessaremos se conseguirmos responder corretamente um número razoável de respostas. E que respostas são essas? Só nós e Deus podemos saber, porque elas são únicas para cada Criatura.

E como podemos descobrir as nossas respostas pessoais, únicas e instranferíveis? Só mergulhando dentro do nosso baú para analisá-lo minuciosamente e perceber, com olhos de especialista, qual diamante é falso e qual é verdadeiro. Só olhando para dentro de nós mesmos para encontrar, cada dia mais, as jóias verdadeiras (nossas vocações divinas, nossos talentos inatos, nossos tesouros feitos por Deus, só para nós), ao mesmo tempo que vamos retirando, um à um, os falsos tesouros.

Aos poucos nosso baú vai ficando mais valioso, verdadeiramente. Perceber que o tesouro é falso é *o primeiro passo* de todo esse processo longo e delicado, e também doloroso, porque jogar fora tesouros que sentimos ser valioso por tantos milênios, não é fácil. É como termos que jogar fora relicários de valor emocional muito grande, que fazem parte de nossa história, que nos trás lembranças de pseudo-vitórias, muitas vezes. Mas é necessário ir se desligando emocionalmente dessas falsas jóias, tanto quanto é necessário aprendermos a dar real valor emocional às jóias verdadeiras. É para isso que servem todos os meios que Deus colocou à nossa disposição. É o objetivo das Religiões, das Filosofias, das Ciências Humanas, da Meditação e de todas as outras ferramentas que dispomos no mundo, nas diversas regiões e culturas. Nos aproximar e expandir a centelha de Deus que há dentro de cada um de nós. Nenhuma igual, mas todas com a mesma Assinatura. Reconhecer o que é de Autoria Divina e o que é de autoria mundana, eis o primeiro passo da nossa auto-iluminação. Sem fazer esse trabalho de auto-reconhecimento, não temos como passar para a faculdade e pós-graduações. Não temos como começar a outra etapa daqueles que se reconhecem como Filhos de Deus: Ser instrumento do Amor de Deus em toda parte. Como podemos permitir que o Amor de Deus flua através de nós, se não sabemos onde estão as ferramentas que Ele colocou dentro de nós para seu uso? Seria como sermos instrumentadores de um cirurgião, sem conhecer os instrumentos e o tipo de cirurgia que ele fará com nossa ajuda. Em suma, não tem como passarmos para a faculdade sem nos conhecermos antes e aplicarmos esse conhecimento nos dias de prova de vestibular, tanto quanto não tem como nos tornarmos “Profissionais do Amor de Deus” sem passarmos pela faculdade antes. São etapas evolutivas que começam com o Autoconhecimento. Antes dessa conscientização espiritual, nós seguimos o curso material da Vida, guiados pela massa e fascinados pelo mundo ilusório da matéria. Ainda assim nós conseguimos nos autoconhecer, porque é uma necessidade nata e a própria interação afetiva, ao longo do tempo, nos proporciona, vagarosamente, algum conhecimento íntimo. Mas é pouco demais, porque de par com esse pouco autoconhecimento, fugimos muito, por medo do processo, por pressentí-lo doloroso, como de fato ele é.

São processos sequenciais e ao mesmo tempos simultâneos. Não ficamos séculos nos autoconhecendo para só depois começarmos a manifestar o amor de Deus. Não. A cada nova autodescoberta, mais uma possibilidade de expandir o Amor. A cada nova Luz Íntima revelada, mais aptos e preparados estamos, naturalmente, à sermos seres do Amor. E assim seguimos, seguindo o curso *natural da Vida*, do Cosmo, da Harmonia Universal, cada vez mais conscientes da nossa realidade de luz, e ao mesmo tempo mais capacitados para Amar em nome de Deus. Esse é a única correnteza que devemos seguir, todas as outras são ilusão…

Enigmas de Krishna

577F02_1Mais uma das maravilhas da Bhagavad-Gita. Aliás, estudar essas escrituras é como revolucionar o íntimo. Não o intelecto, mas o íntimo. Krishna tinha o dom de ser claro e misterioso ao mesmo tempo, falando com objetividade e subjetividade, de tal forma que ao lê-lo temos a impressão de que um oceano imenso encobre a superfície de suas palavras. As palavras dele são como oceanos. Ao lê-las podemos perceber claramente o quanto são imensas em sabedoria e beleza. Olhamo-las e tal como quando olhamos para o oceano, percebemos que há uma profundidade à ser explorada. E mergulhar nessas palavras é se auto-descobrir enquanto Filhos de Deus. Não tem como ver as profundezas da Bhagavad-Gita sem mergulhar, por experiência própria, nas palavras de Krishna. E mergulhar não é estudá-las como os oceanógrafos estudam o oceano nos livros e nas faculdades. Mergulhar é mergulhar. Praticar na própria vida. Só assim consegue-se ver as profundezas da Bhagavad-Gita e ler as entrelinhas de Krishna, esse Mestre tão especial que passou pela Terra. Essa frase é uma dessas maravilhas de Krishna:

“O eu é um amigo para o homem cujo eu foi conquistado pelo Eu; mas para aquele que não está de posse de seu Eu, o eu é como um inimigo”.

A nossa essência divina só nos leva à felicidade se a colocamos à serviço de Deus. Se usamos nossos talentos para a satisfação do Ego, nos perdemos de nós, mesmo estando conosco, porque o encontro com nós mesmos só se dá quando encontramo-nos junto à Deus dentro de nós. Ao longo da nossa história nós vimos passar pela Terra os dois tipos de Filhos de Deus, daqueles que usavam seus talentos divinos para a satisfação do Ego, como Hitler e muitíssimos outros, assim como aqueles que os usaram para manifestar o Amor de Deus, como Gandhi e muitíssimos outros também. Mas todo aquele que buscou satisfazer o eu, e não o Eu, à si mesmo e não à Deus dentro de si, em suma, todo aquele que usou por egoísmo e egotismo e não por amor e caridade os seus talentos da alma, sucumbiu no próprio pseudo-poder, na própria loucura, na auto-escravidão, na ilusão do egocentrismo exacerbado e não obteve um único momento de paz íntima. O oposto se deu com todos aqueles que nos foram exemplos de renúncia do Ego, em prol de ser um instrumento do Amor de Deus no mundo, de permitir que o Eu comandasse o eu, de permitir que a vontade de Deus e não a sua própria, fosse a externação de sua vida e de seus talentos individuais, que buscando o bem-estar dos semelhantes, encontravam o próprio bem-estar, que buscando o amor aos semelhantes, encontravam a felicidade e a paz espiritual.

Com tão pequena e enigmática frase, Krishna deixou um tratado de psicologia transcendental e de comunhão com Deus dentro de si mesmo.

Honestidade e Fidelidade à Si Mesmo

Radha__Krishna_by_SuperSkull“Seja honesto consigo mesmo. O mundo não é honesto com você. O mundo adora a hipocrisia. Quando for honesto consigo mesmo, você encontrará o caminho para a paz interior”. (Paramahansa Yogananda)

Essa é mais uma das frases de Yogananda que adoro, que vai de encontro com a frase da música do filme Tinkerbell, que também adoro:

“Siga o seu coração, e as estrelas dirão: seja leal à você”. (Disney – Tinkerbell)

São dois princípios que se completam. Apenas sendo auto-honestos, conseguimos nos autoconhecer, conseguimos nos descobrir como somos enquanto criatura divina, conseguimos perceber como Deus se manifesta em nós, como Ele nos criou, quais talentos Ele nos deu e além disso, o que está em nós e não é reflexo Dele, mas do mundo, e portanto, temos que ir eliminando. E então, descobrindo-nos como somos, podemos compreender qual nosso papel na Harmonia Universal. E daí em diante precisamos apenas sermos leais à nós, fiés à nossa centelha divina, permitindo que nossa essência se expanda cada vez mais, fluindo o amor de Deus através de nós.

Desenterrar os nossos talentos é descobrirmo-nos enquanto potencialidades divinas, é nos conhecer e reconhecer, é compreender “como o amor de Deus vai se manifestar através de nós”. E usar esses talentos é sermos leais à nós.

Por tudo isso, se queremos crescer espiritualmente, se queremos encontrar a felicidade e a paz interior, aquela paz que apenas aqueles que operam junto à Deus possuem, temos que começar a ser honestos conosco, e depois fiés à quem somos enquanto potencialidades divinas que foram criadas para manifestar o amor de Deus. E é exatamanente por isso que não existe crescimento espiritual sem o autoconhecimento como primeiro passo.

Amar-se!

gayatri-om-bhur-bhuvah-svaha-tat-savitur-varenyam-bhargo-devasya-dhimahi-dhiyo-yo-nah-pracodayatMuitas pessoas perguntam o que é o auto-amor. Algumas dizem que é “aproveitar a vida” com felicidade e tranquilidade, sem permitir que o sofrimento lhe alcance. Outros dizem que é pensar primeiro no próprio bem-estar, na própria felicidade e buscar o sucesso na vida. Outros dizem que é se valorizar e ficar cada vez mais bem de vida. Agora, há o que mais dizem sobre o auto-amor, que é nos aceitarmos como somos, auto-respeitando-nos enquanto criaturas limitadas e imperfeitas também, ou seja, aceitando e bem-vivendo com nossa dualidade.

Esse pensamento é muito bom, realmente excelente, mas esse é só o primeiro pequeno passo do auto-amor. A linha tênue que separa nossas luzes e nossas sombras. O limiar entre a zona de conforto e a superação. É, na verdade, a parte mais delicada do processo, porque um passo em falso nesse degrau e nós caímos em vez de subirmos.

Porque, vejamos, ao tirarmos nossas máscaras, praticarmos o autoconhecimento, nos reconhecemos como seres cheios de imperfeições e emoções negativas. Quando assumimos, por exemplo, uma emoção ruim, ou quando nos descobrimos sendo egoístas ou orgulhosos em algumas atitudes. Compreendemos e reconhecemos nossa sombra. Isso é fundamental. À partir daí todo cuidado é pouco, seja para não nos mascararmos outra vez, seja para não fazermos desse conceito, a  nossa zona de conforto.

Temos que ter cuidado quando, ao aceitarmos e acolhermos uma sombra, não nos venha a “paz” de sermos seres limitados e por isso, com direito ao auto-respeito de parar na nossa limitação. Ou a “tranquilidade” de, por respeito às nossas limitações, nos vermos no direito pseudo-saudável de deixarmos sombras pendentes dentro de nós. Esses são os primeiros passos para aceitarmos a sombra como nossa realidade e zona de conforto.

Então podemos nos perguntar: Ela não é nossa realidade? Não faz parte de nós, do nosso conjunto dual ao qual devemos aceitar e amar? A resposta é não. Não, a sombra não é nossa realidade, menos ainda faz parte de nós. Nós somos filhos de Deus, nossa realidade é a Luz, e é a centelha de Deus que faz parte de nós. As sombras são ilusão, tanto que são passageiras. Habitam em nós por um determinado tempo, mas não são parte de nós, tanto que nós sobrevivemos à elas para vivermos, um dia, na realidade de luz imortal. Portanto, ao tirarmos as máscaras, ao descobrirmo-nos com sombras, ao encararmos corajosamente uma má emoção, temos que ter em mente que essa realidade não é nossa, que a sombra não é parte do nosso conjunto, por isso mesmo, temos que lutar constantemente, diariamente, para eliminá-las de nós.

Isso é auto-amor e auto-respeito. Auto-amar não é aceitar e acolher as sombras que temos dentro de nós e termos paz apesar delas, tanto quanto não é praticar qualquer atitude contrária ao amor à Deus ou ao próximo. Auto-amar é reconhecer essas sombras e lutar para extinguí-las. É não ficar, nem por um momento, confortável com elas. É não permitir que o conforto se confunda com auto-respeito. Amar-se é superar-se, é melhorar-se, é conscientizar-se da herança divina e lutar todo o tempo para que essa centelha brilhe e frutifique cada vez mais. Amar-se é dar tudo de si, superando as próprias limitações para que a sombra se dissipe. É dar aquele passo dificílimo *hoje*, sem deixar para amanhã, sem esperar qualquer coisa de qualquer lugar, sem encontrar motivos ou fugas para fazer consessões ao comodismo da sombra. Os limites foram feitos para serem superados, não para nos estacionar. E das superações mais lindas e gratificantes que somos convidados à fazer é a superação pelo auto-amor e auto-iluminação.

Portanto amar-se e respeitar-se é aceitar-se não como uma dualidade, mas como luz, centelha de Deus. Essa é a nossa realidade. O reconhecimento na nossa transitória dualidade é o primeiro passo da auto-iluminação, não o resultado dela. É o primeiro passo dos nossos sacrifícios mais pungentes, das nossas lutas mais difíceis, das nossas superações mais gloriosas e da nossa vitória espiritual, um dia.

Façamos como uma esmerada faxineira, que vê a sujeira, procura-a em todos os cantos e recantos, não para contemplá-la ou aceitá-la como parte integrante do ambiente, mas para limpá-la e dissolvê-la, à fim de trazer o brilho, a beleza e a realidade do ambiente à tona.

Karma e Amor

415px-samsara_001Estava me perguntando um dia desses porque minha alma passou a “rejeitar” a Lei de Causa e Efeito, que vige em quase todo pensamento religioso da Terra. Ainda não sei muito bem. Talvez porque as experiências da vida me mostraram que a Lei do Amor é que vigora, acima de tudo, e que todo o Cosmo anda em sua direção, ou talvez porque eu ainda não consiga, realmente, compreender a Lei de Causa e Efeito segundo a interpretação que temos por agora. Pensei em muitas coisas, como por exemplo que talvez a Lei de Causa e Efeito só vigore enquanto a Lei do Amor não é seguida, ou seja, depois que a Alma escolhe, anseia e vive pela Lei do Amor, a Lei de Causa e Efeito não “lhe toca” mais, porque como disse o Cristo sabiamente, “o amor cobre a multidão dos pecados”.

Mas mesmo assim, isso não exclui o sofrimento e nem as consequências das nossas más escolhas. Por que? Penso que porque nós ainda confundimos muito o amor com fugas, máscaras e problemas psicológicos e emocionais de várias ordens. Uma pessoa pode se sacrificar por amor, doar-se inteira por amor, e lá na frente, após sofrer muitíssimo as consequências desse sacrifício e doação, perceber que encontrou o sofrimento e a ruína emocional, não porque amou, mas porque confundiu o amor com culpa, submissão e outras doenças auto-punitivas, que se transmutam em pseudo-amor para aliviar a carga consciencial. Fazemos tudo por uma alma à qual sentimos que devemos servir, mas no fundo não fazemos nada por ela, mas por nós, para aplacar nossa consciência. Isso não foi amor, menos ainda caridade. Qualquer coisa que façamos em prol de aplacar nossa consciência, é para interesse pessoal. E aí pergunto: E aqueles resgates terríveis de muito sofrimento e dor que algumas pessoas se impõe para aplacar a consciência, não seria totalmente dispensável se ela simplesmente mudasse “o foco de sua visão”? Auto-perdão, auto-amor. E então alguns podem dizer: “mas é o que ela necessita, é o que o íntimo dela precisa para ter paz”.

E então questiono: mas então porque não trabalhar com ela à fim de que ela sinta e veja a realidade, ou seja, que ela é Filha de Deus, e que deve se amar e não se culpar. Por que não disseminar a solução real para a Humanidade, em vez de ficar sendo “cúmplice” do auto-engano, do caminho mais longo, ao disseminar o sofrimento como solução para a consciência culpada? Uma coisa é compreender e respeitar a necessidade de alguém em escolher o que é contrário à Lei de Deus para ter paz de consciência, outra totalmente diferente é disseminar isso como solução saudável. E é o que acontece em muitos meios religiosos. Almas incentivando outras almas a sofrerem terrivelmente e suportarem todo sofrimento, não por amor, mas para *resgatar suas dívidas*, ou seja, para interesse pessoal. Sim, porque se fosse por auto-amor, ela escolheria o auto-perdão, seguido de obras e sacrifícios *pela obra de Deus*, no micro ou no macrocosmo, incluindo àquelas pessoas com as quais ela tem dívidas. Se sacrificar por alguém, não é permitir que ela te destrua porque um dia, no passado, você a destruiu.  Menos ainda aceitar todo tipo de tortura moral para resgatar suas dívidas com ela, posto que não será por ela, mas por si mesmo. Não é assim que funciona a Lei de Amor, infinitamente misericordiosa e amorosa. Trabalhar pelo bem de alguém à quem destruímos, não é sofrer o mesmo que ele sofreu, menos ainda sofrer nas mãos dele, não para ajustá-lo, mas para resgatar os débitos com ele. Isso é punição e interesse pessoal, não amor. E se é punição e interesse, está contra a Lei de Deus. E se está contra a Lei de Deus, então porque existem almas disseminando e incentivando isso como algo necessário e *certo*? Por que, ao invés disso, não começam a incentivar o Amor, apenas o Amor, como solução para nosso karma?

“- Ah, você é um verme e quer sofrer tudo que provocou de dor? É culpado pelo mau do teu próximo e quer sofrer para resgatar suas dívidas e aprender a respeitar os outros? Não, meu irmão, você não é verme, é filho de deus; não é culpado, é um aprendiz do amor; não tem que sofrer nada, só tem que amar à Deus, às criaturas e à si mesmo; não tem que resgatar dívidas, só tem que trabalhar para seu crescimento moral, e a consequência de tudo isso será a paz. Se você quiser ver pelo prisma de crédito e débito, que vigora apenas nas nossas Leis e não na Lei de Deus, então pensa só que você é imortal, e que um dia, quando só puder amar, você terá tantos, mas tantos créditos, que todo seu passado será pago automaticamente. Não precisa ter pressa de pagar nada, porque Deus não tem pressa, nem cobra juros e nem precisa do teu pagamento. Ele só quer que você seja feliz, amando! Pode acreditar, um dia você terá créditos em abundância para pagar todo mal que fez, e ainda te sobrará muitos créditos. Não olhe para trás, olhe para frente; não olhe para seus débitos, olhe para o bem que fará de agora em diante e lhe dará créditos automaticamente, sem que você precise sofrer para pagar. O sofrimento é professor, não agiota. Se você já compreendeu que provocou a dor e se arrependeu, para que vai sofrer por causa disso?” Simples assim…

Então reflito e penso que a Lei de Causa e Efeito não é uma Lei Divina, exatamente, porque ela não é imutável, posto que nós podemos modificá-la e até anulá-la quando amamos de fato. Penso que ela não é uma Lei exatamente, mas sim as consequências naturais das nossas ações. Se ela fosse Lei Imutável de Deus, o amor não a mudaria, não a apagaria, não a anularia, em suma, se a consequência do “pecado” fosse uma Lei Divina, o amor não poderia cobrí-lo. Por isso tudo penso que a Lei de Causa e Efeito não é Lei , menos ainda Divina, é só consequências de nossas escolhas, e está subordinada à nós, e só existe porque ainda escolhemos atuar contra a única Lei, no meu entender, que vige no Universo: a Lei do Amor.

Por esse pensamento acredito que aquela pessoa do exemplo acima, que doa-se e sacrifica-se por alguém pensando que a ama, mas o faz por culpa, está fugindo da Lei do Amor. Ela pode até estar fazendo o bem para o outro, mas e à si mesma? Se não é o amor que a guia nas suas atitudes com o outro, tampouco é nas suas atitudes consigo mesma. Por tudo isso, por mais que as religiões nos falem em cruz, sofrimento, sacrifício, karma, lei de causa e efeito e etc, nós temos que nos perguntar à todo momento: estou encontrando o que em resposta aos meus atos, a ruína emocional ou a paz interior? Sim, porque o sofrimento por amor, não trás ruína alguma, ele só trás a paz. Ele fortalece, não destrói. Se estamos sofrendo “por amor” e estamos encontrando a destruição (que também pode se refinar e mascarar) como resposta, então temos que pensar: é mesmo por amor? E o amor à mim mesmo, está vigorando?

Sim, porque o amor ao próximo jamais deve excluir o amor à si mesmo. Não foi à toa que o Cristo, enquanto psicólogo perfeito disse que tínhamos que “amar o próximo como a nós mesmos”. Se amamos o próximo e esse amor exclui o amor à nós, então é porque, sem dúvidas, não é amor que nos move, mas alguma fulga psicológica. O amor pelo próximo é consequência do auto-amor. Nós buscamos o Amor como alicerce de nossas ações porque aprendemos a nos amar, e desse auto-amor surgiu a necessidade de fazer parte da Harmonia do Cosmo, de estar em comunhão com Deus e sua Lei. É do auto-amor que surge a necessidade de se doar e sacrificar pelo próximo, porque quando nos amamos encontramos Deus em nós, e encontrando Deus em nós, automaticamente nós passamos a ser instrumentos do seu amor ao nosso redor, passamos a reconhecê-lo em toda parte, e consequentemente à amar toda Criatura, expressões que somos do Seu Amor.

O amor une, expande, trás paz, felicidade e comunhão, mesmo nos sofrimentos. Ele nos liga às criaturas através do próprio Criador, como se Ele, nosso Pai, fosse uma imensa teia de ligação entre Seus filhos, e a aderência dessa teia fosse o amor. Ele nos liga à Deus, que nos liga à todos, tanto quanto todos podem nos ligar à Deus. Não há sofrimento no amor, e se ele nos trás sofrimentos, temos que refletir muito bem sobre *nós mesmos*, porque certamente o problema está em nós, não no Amor. E temos que refletir e encontrar o que há à ser trabalhado e curado em nós, para que possamos usufruir do nosso direito aos benefícios do Amor, do nosso direito à Herança Divina, à nosso direito de sermos Filhos de Deus. E então, penso, o Efeito natural das nossas ações,vão lentamente dando espaço à nossa comunhão definitiva com a Lei de Amor, essa sim, efeito natural *de Deus*, não de nós.