Desafios do Amor

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Amar é sempre um desafio doloroso, e não é por menos que tanta gente foge desse sentimento tão intenso e tão complexo. Entrar em contato profundo com outra alma nos trás um prazer iniqualável, mas ao mesmo tempo nos faz visitar locais na nossa alma que não desejamos visitar.

Quando alguém, dotado de um poder inexplicável, consegue adentrar as portas das defesas e das couraças de proteção emocional que engendramos para proteger do sofrimento a nossa capacidade de amar, e se instala no nosso coração, inevitavelmente começam os desafios. Não temos tempo de analisar, de nos prepararmos, porque o amor sempre chega sem aviso prévio.

O que antes era escuro e aparentemente deserto, se enche de luzes e nos mostra que não era deserto. Havia alí, escondido na alma, muito caos que se mostra como sentimentos confusos, mal resolvidos, cicatrizes que ainda sangram, necessidades ignoradas… Nos vemos obrigados a olhar para tudo aquilo, com uma luz que nos ofusca e confunde. Não conseguimos analisar, só sentir a luz entrando, acabando com as sombras, deixando à mostra todas as nossas fragilidades.

Amar, me disseram uma vez, é estar diante de alguém sem defesas, sem reservas, com todas as fragilidades à tona. É ter a alma desnuda e vulnerável. Causa pavor…

Mas depois de um tempo, aprendemos que não podemos fugir para sempre de Deus… Um dia temos que assumir nossa capacidade de amar e enfrentar os desafios que isso trás. É a maturidade que chega e nos convida a crescer. Precisamos arrumar as confusões feitas pelas nossas necessidades e ilusões. Precisamos enfrentar os desafios do amor, o sofrimento inevitável que ele causa ao nosso ego, sempre tão orgulhoso e egoísta!

Amar incondicionalmente sem dúvidas é o maior de todos os desafios do amor. Amar sem esperar nada em troca, sem desejar nem mesmo ser correspondido, sem esperar que nosso afeto irá corresponder nossas expectativas até mesmo sobre o bem estar dele próprio. Amar com toda a força da alma, mas ainda assim mantendo a distância emocional necessária para amar e ser útil, para amar sem permitir que nosso ego prejudique quem amamos. Amar e ser capaz de lidar com as defesas do nosso ser amado. Defesas essas que nos afastam, quando gostaríamos de estarmos próximos. Defesas que rejeitam nosso amor mais sincero. Defesas que desprezam nossa presença, que se mostram indiferentes ao fato de existirmos no mundo.

Lidar com tantas defesas sem defender-se de volta é realmente muito desafiador.

Sim, nos defender é quase uma necessidade em alguns momentos. Porque antes, quando tentamos amar, sofremos muito, então para nos proteger de “cair na cilada do amor” outra vez, queremos esquecer tudo, queremos esquecer de quem somos, de onde pertencemos, e nos preparamos com todo arsenal possível para nos defender de possíveis ataques à nossa paz. Enregelamos o coração e o envolvemos com uma couraça resistente até àqueles que antes nos tocavam tão intesamente. Construímos uma indiferença segura e que aparentemente trás toda a paz do mundo para nós. Viver sem sentir nada? Nada melhor que isso, pensamos.

Mas então Deus mostra seu poder sobre nossa alma infantil, teimosa e assustada. Um dia, quando menos esperamos, as defesas são ultrapassadas com toda a facilidade, mostrando como somos um nada diante dessa força da natureza que chamamos de amor. O gelo derrete rapidamente, enquanto tentamos entender o que está acontecendo. A couraça se destrói e todas as feridas ficam à mostra.

Temos a opção de reconstruir todo nosso arsanal outra vez e seguir fugindo ou temos a opção de enfrentar os desafios, por mais doloridos que sejam e aproveitar a oportunidade de amadurecimento, de crescimento, de cura e de saúde espiritual. Uma decisão que parece tão simples, tão fácil, tão óbvia, mas que na prática é tão, tão difícil e complexa…

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Briga Sublimada

amor1Estou aqui fascinada com a Autobiografia de Paramahansa Yogananda. Logo nas primeiras linhas já me encantei com a narração da única briga dos pais que ele presenciou. Dizia ele que os pais se amavam com um amor acima do que entendemos como amor, porque era puro, embora fosse um amor entre homem e mulher. Viviam numa harmonia perene e sólida, e a única vez que ele disse ter presenciado uma discussão entre eles foi por um motivo que nos deixa, à nós seres tão longe de compreender o companheirismo espiritual, que brigamos por qualquer coisa, nos sentindo pequeninas formiguinhas na Arte de Amar. Eis o trecho:

“Mamãe sempre tinha a mão aberta, generosamente, para todos os necessitados. Papai também era caridoso, mas seu respeito à lei e à ordem estendia-se até o orçamento doméstico. Em certa quinzena, mamãe gastou com a alimentação dos pobres mais do que papai gastava num mês.

– Por favor, só lhe peço que seja caridosa dentro de limites razoáveis. – Mesmo uma repreensão suave de seu esposo era de suma gravidade para minha mãe. Sem revelar aos filhos seu desacordo com papai, ela fez vir uma carruagem de aluguel.

– Adeus, vou-me embora para a casa de minha mãe. – Antiqüíssimo ultimato! Rompemos em pranto e lamentações. Nosso tio materno chegou no momento oportuno. Segredou a meu pai um conselho herdado certamente de algum sábio de antanho.

Depois de papai ter pronunciado algumas palavras de esclarecimento e conciliação, mamãe, feliz, despediu a carruagem. Assim terminou a única divergência de que tive conhecimento entre meus pais. Recordo-me, porém, de uma discussão característica.

– Por favor, preciso de dez rúpias para dar a uma pobre mulher que veio bater à nossa porta. – O sorriso de mamãe era persuasivo.

– Por que dez rúpias? Uma é bastante. – Papai acrescentou esta justificação: – Quando meu pai e meus avós faleceram subitamente, eu soube, pela primeira vez, o que era a pobreza. De manhã, comia unicamente uma pequena banana, antes de caminhar vários quilômetros até a escola. Mais tarde, na Universidade, sofri tais privações que me vi forçado a pedir a um rico juiz o auxílio de uma rúpia por mês. Ele recusou, declarando que mesmo uma rúpia tinha valor.

– Com que amargura você lembra a recusa dessa rúpia! – O coração de minha mãe teve um instante de lógica. – Você gostaria que essa mulher tivesse de recordar dolorosamente a recusa das dez rúpias de que tanto necessita com urgência?

– Você ganhou! – Com o gesto imemorial dos esposos que se dão por vencidos, meu pai abriu a carteira. – Aqui está uma nota de dez rúpias. Entregue com os meus melhores votos de felicidade”.

Companheirismo

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Hoje quando acordei, naqueles momentos que ficamos pensando antes de levantar, passei refletindo sobre o companheirismo. Penso ser essa a base de todos os relacionamentos amorosos. O amor sem companheirismo, se contamina nas nossas doenças da alma. E o companheirismo é algo para ser vivido em todos os aspéctos, até no sexual, quando tratamos do amor romântico. E é o companheirismo no ato sexual que mais o deixa sublime e satisfatório em todos os sentidos. No relacionamento entre pais e filhos, amigos, irmãos, seja qual for, é essa troca que serve como alavanca de crescimento e amadurecimento constante da relação de amor.

A base do companheirismo é o respeito e a união, daquela que une em qualquer diferença. Que dá chance ao ser individual de ser ele mesmo e ao mesmo tempo de entrar no mundo do outro. É partilhar a vida, os problemas, as idealizações e soluções. É respirar a paz da liberdade justamente porque está tão unido e cúmplice de outra alma. Ser livre porque tem um companheiro, com quem você soma e multiplica, porque não te tolhe, não tenta te modificar, não te exclui por tua diferença, não te exige afinidade de gostos e idéias, enquanto você faz o mesmo.  As diferenças e as afinidades se somam, e a comunhão se multiplica em realizações à dois, seja realizando pelo relacionamento melhorar, pelas individualidades em si mesmas e seus problemas individuais, ou pelo trabalho contínuo em melhorar a harmonia do Todo. Duas almas livres, voando de mãos dadas. É essa a visão mais perfeita que tenho da troca amorosa, e isso só conseguimos com o companheirismo.

Qualquer atitude que exclua o companheirismo, penso que adoece o amor e o contamina com nossas imperfeições, impedindo, inclusive, que utilizemos esse sentimento tão curador, para nos amadurecer, o que tira dele o seu maior poder e a sua  mais bela utilidade prática na nossa vida.

Então estava pensando pela manhã, que analisar um relacionamento para ver se ele é saudável ou não, deve-se analisar se há qualquer coisa que fuja ao companheirismo. Se houver, acredito que deve-se usar do próprio companheirismo para tentar superar o problema e amadurecer a relação. E a análise, para mim, deve ser tão honesta como a que fazemos para nos analisar intimamente, para não corrermos o risco de justificar, fugir ou transferir nossos problemas de relacionamento. É o tipo de investimento tão importante quanto investir em si mesmo, porque estamos tratando do que mais nos dá plenitude e saúde espiritual, que são nossas trocas amorosas.