Sucesso e Fracasso

Há um tempo atrás estava lendo o lindíssimo livro “Luz do Mundo”, do espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, quando me deparei com essa passagem, que segundo a autora, foi dita por Jesus:

“Meu Pai dispõe de recursos que nos escapam e como é o Autor de tudo e de todos, cumpra cada um irrestritamente com o seu dever, transferindo para Ele, o Senhor de todos nós, os resultados do nosso trabalho”.

Foi impossível não notar nas palavras escritas pela autora cristã, um trecho praticamente idêntico ao Bhagavad Gita, escritura sagrada do Hinduísmo. Nesta jóia da Espiritualidade indiana podemos ver esse trecho, onde Krishna diz a Arjuna:

“Aquele que executa seu dever sem apego, e entrega os resultados ao Deus Supremo, não se afeta pela ação pecaminosa, tal como a pétala da flor de lótus que nunca é tocada pela água”.

São muitas, muitas passagens na Bhagavad Gita que fala sobre executar o dever sem apego, entregando o resultado nas mãos de Deus, de tal forma que essa é, sem dúvidas, a mensagem mais marcante dessa escritura. Segundo Krishna, nessa outra passagem, é a essência da Yoga:

“Você tem o direito de cumprir seu dever prescrito, mas não aos frutos da ação. Nunca se considere a causa dos resultados de suas atitudes, nem jamais se apegue ao não cumprimento de seu dever. Seja firme no yoga, ó Arjuna! Execute seu dever e abandone todo apego por êxito ou fracasso. Semelhante estabilidade mental se chama yoga”.

Já escrevi sobre essa reflexão aqui algumas vezes, porque ela me parece a maior de todas as mensagens de caridade absoluta, existente na nossa História. Foi difícil até para os santos que viveram aqui, seguirem essa recomendação de Krishna, porque trabalhar como uma plena extensão de Deus no mundo é dificílimo, mais ainda quando estamos imersos na matéria. Como cumprir nossos diversos deveres do mundo sem esperar qualquer resultado das nossas ações? Como trabalhar, viver, interagir, amar e construir, sem esperar jamais que tudo isso resulte na satisfação dos nossos desejos? Como renunciar completamente à satisfação dos nossos desejos, mesmo os nobres e puros? Como ter a consciência plena de que, acima de qualquer desejo que possamos ter, está o Desejo Absoluto de Deus?

É muito difícil, porque se cumprimos um dever, se estamos imersos na realização de algo, se estamos nos dedicando, nos empenhando em uma tarefa, naturalmente nós desejamos que ela seja bem sucedida *segundo a forma como conseguimos entender o sucesso de algo*. É muito difícil para nós entendermos que, muitas vezes, o fracasso é o resultado que Deus deseja, porque ele será mais útil para nós ou para o contexto no qual vivemos, que a vitória. É muito difícil para nós abrirmos mão de um resultado sempre satisfatório das nossas ações, afinal, se trabalhamos é para dar certo, não é? Mas como podemos ter certeza que o nosso “dar certo” é o mesmo “dar certo” de Deus? Não podemos saber, porque “Nosso Pai dispõe de recursos que nos escapam”. Só o que podemos fazer é cumprirmos os nossos deveres, entregando sempre à Deus o resultado das nossas ações. Cabe à Ele guiar para o sucesso, e ele *sempre* guia para o sucesso, mesmo quando aos nossos olhos parece um fracasso.

A Ordem e a Harmonia sempre se fazem… Nós é que temos muito caos interior, e não conseguimos ver que Deus, haja o que houver, está no leme do Universo inteiro, fazendo tudo funcionar com perfeição. Não adianta chorarmos pelo aparente fracasso de algo, só adianta sermos firmes e jamais desistirmos do cumprimento dos nossos deveres, não importando se no fim, aparentemente deu tudo errado, tendo sempre a consciência de que, quando cumprimos com nosso dever, estaremos trabalhando para Deus, não para nós.

Muitas vezes nós não podemos saber porque algo pelo qual batalhamos tanto, deu “errado”, mas Ele sempre sabe…

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Escolhendo Deus

Quando venho para o trabalho todos os dias passo por baixo de um viaduto onde há uma frase pichada: “Deus não escolhe os capacitados, Ele capacita os escolhidos”. Isso me fez refletir na cultura religiosa que há sobre “as escolhas de Deus” por determinados filhos. Em muitos lugares vemos expresso essa idéia de que Deus, por algum motivo, escolhe esses ou aqueles filhos para receberem bênçãos que à outros são negadas.

E se ollharmos de forma superficial para a Vida, podemos até ter a impressão de que esse pensamento é válido, mas se aprofundarmos nosso olhar, veremos que não, que Deus não escolhe seus melhores ou piores filhos, que Ele não é parcial ou mais ou menos para uns ou para outros. Que Deus Ele seria se escolhesse filhos? Que Pai Ele seria se desse à uns bênçãos e à outros não desse nada?

Penso que a forma aparentemente injusta ou parcial como recebemos as bênçãos de Deus está *em nós* e não Nele. Penso que todos somos escolhidos, porém nem todos aceitamos ir com Ele no mesmo tempo. Cada um tem seu tempo, e mesmo para aqueles que ainda não *se escolheram*, Deus dá muitas bênçãos, constantes convites, infinitas oportunidades e uma paciência sem fim.

Como na parábola do Filho Pródigo às vezes achamos injusta a forma como Deus lida conosco, como quando o filho bom da parábola acha injusto quando aparentemente Deus dá ao filho transviado mais do que è ele  que já estava à Seu lado. Quem escolhe estar com Deus é abençoado todos os dias, e sua vida é tão cheia de bênçãos (espirituais, íntimas, não necessariamente materiais, como muitos de nós ainda confundimos) que as bênçãos passam a ser o natural, o cotidiano, não mais um evento especial. Elas fazem tão parte da nossa vida íntima, que ao vermos alguém que nada tinha e recebe um pouco, pensamos como o filho da parábola, que Deus está dando mais à uns que à outros, ou que está dando mais à quem nem merece, e momentaneamente nos cegamos às bênçãos sem fim que recebemos todos os dias e já fazem parte de nossa alma.

Mas não é assim… Deus dá igualmente à todos, mas nós temos que aprender a receber, nós temos que nos esforçar diária e constantemente para estarmos sempre com Ele, todo o tempo recebendo suas bênçãos e seu Infinito Amor. Somos sempre nós que bloqueamos o acesso à Ele, nunca o contrário. Na verdade Deus tenta todo o tempo, das formas mais diversas, abrir passagem até nosso coração. Às vezes Ele é direto, geralmente quando estamos tão caídos que nossa soberba já não vale nada e então, no auge do sofrimento buscamos Ele e Ele nos responde. Às vezes Ele é discreto justamente para não ferir nosso orgulho, que inflado, nos faz achar que todo nosso sucesso e sorte são frutos apenas de nossa capacidade e astúcia. Ele deixa que aprendamos por nós mesmos que sem Ele nada somos. Deixa que, cansados dos sofrimentos decorrentes das consequências de nossas próprias escolhas, nós O busquemos definitivamente, e é nisso que reside nosso maior mérito.

Portanto, Deus não escolhe seus filhos, somos para Ele tão amados e importantes como os Anjos já Iluminados. Somos para Ele os mesmos amaríssimos filhos desde a criação até a eternidade. Todos nós, sem excessões, somos abençoados todos os dias, embora nem sempre possamos compreender as bênçãos que recebemos. Nós que decidimos o dia que O escolheremos como Guia, como Companhia constante, como Inspiração, Motivação, Meta, Esperança, Amigo e Pai…

Cabe à nós aceitarmos seus inúmeros e constantes convites, cabe à nós aceitarmos enfim, sentimos Seu Imenso e Infinito Amor por nós…

Ele já É nosso Pai,  nós é estamos aprendendo a sermos Seus filhos…

Arte da Índia III

Não tem como falar em arte da Índia sem lembrar de Bollywood, a índústria cinematográfica dos indianos. Há filmes realmente maravilhosos sendo produzidos lá, e há um deles que é meu favorito, o Jodhaa Akbar. Sem dúvidas foi um dos filmes mais lindos e emocionantes que eu já vi. Tudo nesse filme é uma obra-de-arte, desde os atores até as paredes dos palácios, que hipnotizam por tamanha beleza! O figurino é apoteótico, os atores protagonistas são maravilhosos, com algumas cenas de expressão corporal tão perfeitas que dispensam diálogos de mil palavras. Os cenários são magníficos, a trilha sonora é por si só, uma obra-prima! O filme é épico e conta a história de um grande Imperador Mughal e de sua esposa Jodhaa. Um casamento arranjado, por motivos políticos, que se torna uma lindíssima história de amor. Um amor especial, que floresce nos detalhes do cotidiano. É perfeita a forma como eles se cortejam e se conquistam, no dia-a-dia. Delicadeza, admiração, companheirismo e uma cumplicidade implícita, que transcende todas as tradições e a política.

Ele era muçulmano, como era tradição dos Mongóis, e ela Hindu, ou seja, duas religiões rivais. A rivalidade histórica entre essas duas religiões é “afrontada” por ele, que deseja um reino igualitário, já que pretende conquistar todas as terras da região, predominantemente Hindu. Por isso ele decide-se pelo casamento, o que é mal visto por quase todos os seus políticos, especialmente pelos representantes maiores do Islamismo dentro do seu reino. A situação ainda piora quando Jodhaa impõe condições para o casamento. Ela diz ao Imperador que somente se casará com ele se ele permitir que ela continue seguindo o Hinduísmo e suas tradições, e que um templo à Krishna seja construído dentro de seus aposentos. Um templo hinduísta dentro do palácio de um Imperador muçulmano. A transgreções das transgreções. No entanto é naquele momento, quando ele sente toda a força da personalidade ímpar de Jodhaa, que ele começa a se apaixonar por ela. Ele aceita as condições e eles se casam seguindo os rituais das duas religiões.

Então tudo corre, e num dia ele está em uma reunião com aproximadamente uns 5oo políticos, resolvendo questões do reino, quando o principal representante do Islamismo lhe coloca toda a insatisfação com o casamento dele com a Hindu. Eles ponderam e debatem sobre o tema, quando ao longe eles começam a ouvir o canto de uma mulher… Todos ficam em silêncio para ouvir e percebem que é a voz de Jodhaa, cantando para Krishna, uma música devocional (algo como música “gospel” hindu). Nesse momento o imperador é tomado por uma forte emoção, e como se o mundo inteiro tivesse sumido ao seu redor, levanta-se e começa a caminhar em direção àquela voz hipnotizante… Passa em meio à todos os políticos como se eles nem existissem alí, apaixonado e rendido pelo canto da esposa (detalhe, até alí eles nunca tinham tido nada, era um casamento de fachada, e eles se conquistavam aos poucos).

Quando ele está quase acabando de passar por todos, hipnotizado de amor, ele lembra-se onde e com quem estava, então apenas dá um giro com o corpo e fala para as centenas de homens perplexos que apenas o fitavam, que eles podiam se dispersar, como à dizer-lhes que “naquele momento havia algo muito mais importante à fazer”. Detalhe… Ele estava dispensando os políticos que lhe diziam do quanto estavam desgostosos com o casamento dele com uma Hindu e especialmente com o fato de terem um templo hindu dentro dos domínios islâmicos, para ir admirar a esposa rendendo culto à Krishna! A força do amor transgredindo e unindo duas potências religiosas secularmente rivais…! Ao fim ele sai dos aposentos dela, suspirando paixão, com aquela expressão de quem se pergunta “que mulher é essa, meu Deus?!”. E vai andando sem rumo pelo palácio, tomado de amor e plenitude! Lindo, lindo, lindo!

Há um detalhe que não mostra no filme, mas que é contado pela História. Esse Imperador acabou criando dentro de seu reino, uma seita que era bem universalista, unindo conceitos morais de diversas religiões, mas que acabou morrendo com ele, já que seus descendentes não tiveram interesse de prosseguir com ela, retornando, infelizmente, à rivalidade que dura até hoje, e que foi responsável pela criação do Paquistão e pela morte de Gandhi nos dias mais atuais.

Deixo o vídeo dessa cena, com a música, que é perfeita! E a tradução dela abaixo. É a típica música de adoração à um Deus, exatamente como as que os cristãos de hoje fazem para Jesus. Linda!


Encantador de Corações (A.R. Rahman)

Ó encantador do coração
Meu Krishna amado, me atenda
Como terei paz sem Você?
Noite e dia que eu anseio por Você
Abandone Suas cidades sagradas
de Kashi e Mathura
Venha e more em meus olhos
Como terei paz sem Você?
Meu Krishna querido,
noite e dia que eu anseio por Você
O Divino dançarino que reside
em Gokul em Vrindavan
Radha, sua criada,
anseia pela visão de Você
O belo filho escuro de Nanda,
Krishna querido
Ó habitante da floresta,
beleza é Sua forma
Me rendi de corpo e alma por Você
Ó Encantador de coração!
Pertenço a Você,
minha vida pertence a Você.
Te vejo em todas as coisas.
Me tornarei Sua flauta
e pertencerei apenas aos Seus lábios.
Meu coração é inundado com sonhos…

Virtude Primeira: Caridade

mahabharata_QK10_lAndo lendo já têm uns dias, a Biografia de Lahiri Mahasaya, escrita por um dos discípulos de Paramahansa Yogananda. À princípio me interessou pelo biografado, mas depois chamou-me a atenção o prefácio, onde narrava-se à imensa dedicação que o autor do livro doou às obras de benemerência, durante toda sua vida. Pensei: “Independente da biografia, devem haver palavras sábias nesse livro, porque quem dedica à vida à obras caritativas, sempre tem muita sabedoria para nos passar”. E então fui lendo, e confesso que a leitura foi um pouco cansativa porque o estilo do autor não combina muito com o meu, mas isso era o de menos. Não foi uma obra que eu lia como os livros de Vivekananda, por exemplo, que é tão cartesiano quanto eu. Mas é um livro riquíssimo de sabedoria, como eu suspeitei, e eu teria muitas coisas para destacar dele, e por hoje vou destacar essa parte que li agora à tarde, dele comentando a Bhagavad-Gita:

“Qualquer ação realizada para o prazer Divino é um YAJNA  – um sacrifício. “BISARGAH KARMASAMGNITAH – o YAJNA realizado sacrificando os objetos a Deus é o verdadeiro KARMA”. Em palavras mais simples, tudo o que for feito para o prazer Divino e para o bem da humanidade é YAJNA – KARMA ou ação com sacrifício. O serviço à humanidade, a caridade, as orações sinceras e silenciosas, as austeridades e as práticas religiosas, são todas consideradas ações com sacrifício. A ação ou o trabalho altruístico e desinteressado é YAJNA; isto constitui a virtude humana universal. O sacrifício de si mesmo, por amor ao bem da humanidade, é o melhor YAJNA. A mais alta realização à qual o homem pode alcançar é produzida por esta forma de YAJNA. Por meio do YAJNA – KARMA também se agrada os deuses e eles concedem dádivas para o bem da humanidade. Deus e o homem, juntos, estão empenhados no bem – estar do mundo. Uma corrente de grande prosperidade começa a fluir no céu e na terra. Por isto, o bem último é conseguido realizando ações, sem ter nenhum apego a elas. A ação feita com desejo, sob o impulso do apego aos prazeres terrenos, torna a pessoa ligada a esse mundo, aumenta o sofrimento e a miséria, e faz perder a paz.”

Primeiro quero explicar o que é YAJNA. No próprio livro o autor coloca que YAJNA são “Sacrifícios rituais; oblações; ofertas de sacrifícios feitas no fogo; ação feita com espírito de sacrifício e dedicada à Deus”.

Depois de entendido o que é YAJNA, que conseguimos entender o quão belas e profundas são as palavras do autor. Ele deixa claro, nessa passagem, que o melhor sacrifício e o melhor ritual de adoração ou ação para Deus é aquela que se reflete na ação desinteressada visando o benefício da humanidade. E a frase em que ele fala sobre o Homem e Deus trabalhando juntos pelo bem comum, é… Linda! Poética, mística, real e profunda! E é realmente como ele diz… Se estamos concentrados em nos sacrificar pela matéria e pelos desejos materias  que visam o interesse próprio, jamais temos a paz do dever espiritual cumprido. Nunca conseguimos nos satisfazer interiormente, e gastamos toda a vida buscando qualquer coisa que nos traga felicidade, sem jamais a encontrar mais além de alguns momentos tão efêmeros quanto um piscar de olhos. A verdadeira realização espiritual está em se doar desinteressadamente pelo bem comum, cumprindo o dever primordial de toda criatura, que é trabalhar junto à Deus. Como ele mesmo disse, é essa a essência da Bhagavad-Gita, e penso que toda ela se resumiria nessa máxima que ele expôs com tanta sabedoria. Lindo! O livro é um tesouro daqueles tão valiosos e por isso mesmo raros…

Os Grandes Mestres

Não canso de dizer: adoro Vivekananda! Ele é das almas mais lúcidas entre os gurus indianos, à meu ver. Lúcido, lógico e sensato! Estou lendo seu livro entitulado “Epopéias da Índia Antiga” e me maravilhei tanto com um capítulo, que tenho que transcrever a primeira parte dele, na íntegra aqui.

OS GRANDES INSTRUTORES

Os Instrutores

Segundo os ensinos hindus, o universo evoluciona em ciclos, algo como emanações ondulantes. Cada ciclo surge como uma onda, chega a seu ponto culminante, decai e se desfaz para ressurgir depois de algum tempo. Assim ondas e mais ondas vão surgindo, desaparecem e voltam a surgir.

O mesmo que sucede no universo em conjunto sucede em cada uma de suas partes, nos negócios humanos e na história das nações, que prosperam, declinam, voltam a prosperar e declinar, até desaparecerem.

O mesmo movimento de fluxo e refluxo observa-se no mundo religioso. A vida espiritual surge e desaparece em cada nação em períodos alternativos. A nação decai e parece submergir, porém se reabilita, regenera e sobrevem o fluxo, em cuja crista culmina o Instrutor, que impulsiona a regeneração da nação.

Tais são os Profetas do Mundo, os Instrutores e Redentores, os Mensageiros de Vida, as Encarnações de Deus.

Ao homem comum e ao teólogo disciplinado parece que só pode ser verdadeira a religião que professa e só pode haver um Redentor, um Salvador do Mundo, uma só Encarnação de Deus; porém não é assim, porque ao estudarmos as vidas dos grandes Instrutores, vemos que cada um deles esteve destinado a desempenhar somente uma parte da grande obra de educar e instruir. A harmonia consiste no perfeito acorde de todas as notas e não em uma só nota. Assim como ninguém se atreveria a dizer que um só povo tem direito de desfrutar do mundo, pois cada povo tem que desempenhar uma parte na divina harmonia das nações, sendo o conjunto total uma grandiosa sinfonia.

Portanto, nenhum Instrutor nasceu para reger perpetuamente o mundo. Nenhum conseguiu nem conseguirá dominar o mundo por completo.

A maioria dos povos nasce e cresce sob a influência de uma religião dogmática e embora falem de princípios e teorias, só os aceitam se procedem de determinado instrutor. Só compreendem o preceito por meio do exemplo.

Ao contrário, os homens mais evolucionados não necessitam de exemplos, nem que o ensinamento proceda de determinado instrutor, como fazem os homens comuns que adoram a um profeta, a um instrutor, a uma encarnação de Deus. Assim, os cristãos se prosternam aos pés do Cristo, os budistas aos pés de Buda e os hinduistas aos pés de Vishnu, Shiva ou Brama.

Os maometanos, desde o princípio, manifestaram-se contrários a semelhantes adorações, embora venerem uma multidão de santos.

Não é possível opor-se aos fatos e não é nocivo adorar aos Instrutores. Recordemos a resposta de Cristo ao apóstolo Felipe que lhe pedia: “Mostra-nos o Pai”. Cristo respondeu: “Quem vê a mim vê o Pai”.

Entretanto só podemos ver o Instrutor em seu aspecto humano, porque estamos atualmente constituídos de um modo que só nos é possível ver e sentir a Deus, encarnado em fôrma humana, embora esteja em toda parte.

A Luz vibra em toda a parte e, entretanto somente a vemos, quando irradia de um foco. Assim, quando Deus encarna em um foco humano, o povo vê a Luz Divina.

Todavia, os Instrutores vêm de modo diferente do nosso, porque nós vimos como mendigos e eles como imperadores. Vimos como órfãos, como quem perdeu seu caminho. Desconhecemos a finalidade da vida e perguntamos o que viemos fazer neste mundo. Hoje fazemos uma coisa e amanhã praticamos ato contrário. Somos como palha arrastada pela água ou como pena envolvida num furacão.

Na história do mando, entretanto, vemos que esses Instrutores, cuja missão está determinada desde seu nascimento, jamais se afastam sequer uma linha do plano traçado.

Vêm com uma missão, uma mensagem e, portanto, não necessitam oferecer razões. Jamais os Instrutores discutiram seus ensinamentos. Falaram diretamente porque viam a verdade. Para que discutir? Além de verem a verdade, mostraram-na e demonstravam-na.

Se alguém me perguntar se há Deus, dir-lhe-ei que sim, mas logo me pedirá provas do que afirmo. Então terei de responder como disse Cristo: “Contempla a Deus!”

Os Instrutores percebem a Verdade intuitiva e diretamente e não i discutem. Não vacilam porque tem a força convencedora da visão direta.

Quando vejo uma mesa, não há argumento algum que me convença de que não a vejo. É uma percepção direta. Tal é a fé dos Instrutores. Fé em seus ideais, fé em sua missão e sobretudo fé em si mesmos.

Os homens perguntam uns para os outros: “Crês em Deus? Crês na vida futura? Crês neste ou naquele dogma -” Porém, falta-lhes a base, a crença firmíssima no Eu individual.

Como pôde crer em outra coisa o homem que não crê em si mesmo?

Não temos certeza de nossa existência real. Às vezes, cremos que existimos e que nada nos pode prejudicar, mas no mesmo instante somos atacados pelo temor da morte. Às vezes temos convicção da nossa imortalidade e outras vezes ficamos abatidos, porque perdemos a fé em nós mesmos.

Os grandes Instrutores têm tanta fé em si mesmos, que não podemos compreendê-lo e por isso, procuramos explicar de mil modos o que os Instrutores disseram de si mesmos. Portanto, quando os Instrutores falam, os homens são obrigados a ouvi-los, pois cada uma de suas palavras está carregada de energia mental e explode como uma bomba. De que serve a palavra se não encerra energia mental? Que importa o idioma ou a concordância das palavras? Que importa se falam ou não em perfeito estilo gramatical ou com flores de retórica? O que importa é se há algo de proveitoso que dizer. As palavras são o veículo da mensagem. Aliás, às vezes é possível comunicá-la sem palavras.

Diz um versículo sânscrito:

“Vi o Instrutor sentado sob uma árvore. Era um adolescente de dezesseis anos e o discípulo era um velho de oitenta. O Instrutor pregava silenciosamente e as dúvidas do discípulo desapareceram”.

Assim é que, às vezes, o Instrutor não pronuncia palavra alguma e transmite sua mensagem mentalmente.

Os Instrutores são mensageiros que expedem a mensagem de modo imperativo; com voz de coroando disse Cristo: “Ide e dizei a todas as gentes que observem as coisas que eu mande!.” Em todas as palavras de Cristo, resplandece a profunda fé que tinha em sua mensagem. A mesma fé encontramos em todos os demais instrutores, que são como Deus vivo neste mundo e muito superiores a qualquer conceito particular que um indivíduo possa formar de Deus, pois não é possível formar conceito daquilo que se não experimentou e por isso não podemos ainda ter cabal conceito da misericórdia, da pureza e do amor. Por conseguinte, não é estranho que os homens adorem e venerem como deuses aos homens em quem vêem resplandecer, sem sombra, a pureza, a misericórdia e o amor.

É lícito discorrer sobre os conceitos pessoal e impessoal de Deus, Porém, falar e discorrer não e agir e os Instrutores são os verdadeiros deuses de todas as nações e de todas as raças. Esses homens divinos têm sido e serão adorados enquanto existir a humanidade. Neles está nossa fé, nossa esperança e nossa ardente e íntima realidade.

Para mim tem sido possível reverenciar a todos os Instrutores que já vieram e a todos os que eventualmente apareçam. Uma mãe reconhece seu filho em qualquer traje com que o veja; se não o reconhece forçosamente não é sua mãe.

Quanto aos que imaginam que a verdade e a divindade estão exclusivamente encarnadas no Instrutor a quem adoram, lhes direi que realmente não as reconhecem em ninguém, mas que se limitam a engolir palavras e se identificam com esta ou aquela seita, como se filiassem num partido político, por questão de idéias; isto, de modo algum pode ser religião.

Há quem prefira a água salobra à água doce, porque dizem que seu pai cavou o poço e saiu aquela água. Por experiência, estou convencido de que a religião não é culpada pelas maldades de que é acusada. A religião não perseguiu ninguém, nem queimou bruxas ou hereges. Culpados foram os homens, que encobriram seus intuitos políticos, sob a capa da religião.

Portanto, quando alguém diz que o Instrutor, ou Fundador de sua religião é o único verdadeiro, denota com isso ser completamente analfabeto em matéria de religião, porque a religião não é palavrório, nem teoria, nem aprovação intelectual. É o reconhecimento de nossa riqueza divina, é a união com Deus, é o convencimento de que o espírito humano está relacionado com o Espírito Universal e todas as suas manifestações.

Quem entrou na casa do Pai, como deixará de reconhecer seus filhos?

Se observarmos a vida dos grandes Instrutores de toda época e todo país, veremos que há apenas pequena diferença, entre eles.

Onde quer que a religião seja praticada, quando a alma se põe em contato direto com Deus, sua mente se dilata e então pode ver a luz em toda parte.

Os maometanos são os mais reacionários neste conceito, os mais sectários e fanáticos. Seu lema é: “Só há um Deus e Maomé é seu profeta”. Tudo que disto se afastar ou transcender é mau para os maometanos, deve ser imediatamente destruído e todo livro que ensine outra coisa deve ser queimado. Durante cinco séculos, os maometanos derramaram rios de sangue, do Atlântico ao Pacífico.

Não obstante, há entre eles quem sempre deplorou tamanhas crueldades, porque estavam em contato com Deus e reconheciam parte da verdade. Não expunham sua religião, nem falavam da religião de seus pais, mas sim da verdade direta.

Semelhança com a teoria da evolução nos oferece a biologia do atavismo, que também se manifesta na tendência que tem o homem de remontar às antigas Idéias religiosas; porém vale mais pensar algo novo, embora seja pior, do que estacionar no antigo, porque os erros e fracassos nos ensinam e o tempo é infinito. Uma parede Jamais nos dirá uma mentira. É sempre parede. O homem mente e com o tempo alcança a perfeição. Fazer algo, embora resulte em erro é melhor do que nada fazer. De que serve a vida, se não temos convicções e idéias próprias a respeito de religião?

Os cépticos podem adiantar algo porque embora difiram uns dos outros, pensam com seu cérebro, ao passo que quem jamais pensa por si mesmo, nada sabe de religião e vive como as ostras.

Se alguém diariamente nos pusesse o alimento na boca, perderíamos o uso das mãos. A atrofia espiritual é o resultado de seguir a opinião alheia, como um cordeiro atrás do pastor.

A diversidade é a beleza da vida e não devemos assustar-nos por causa dela, nem pretender uma uniformidade monótona.

Os que se relacionaram com Deus, verificaram que no mesmo instante “se desvaneceram suas dúvidas, os desvirtuamentos do coração se transmudaram e se romperam todos os laços da escravidão, porque viram Quem está mais perto daquilo que está ao alcance de nossas mãos e mais longe do que é longínquo.”

Isto é religião e nisto consiste toda religião. O demais são teorias, dogmas ou vários meios de alcançar a direta percepção da verdade; agora porém, lutamos ferozmente pela posse do cesto, sem notar que os frutos caíram no fosso.

Os Instrutores foram grandes e verdadeiros, porque cada um deles legou ao mundo uma idéia grandiosa. Eles surgiram como notas de uma grandiosa e harmônica sinfonia espiritual.

Somos Deuses

vivekananda_QKeZO_16298Adoro Vivekananda! Ele tem umas colocações maravilhosas, como essa, contida no livro “Epopéias da Índia Antiga”:

“Nós, os hindus, como os cristãos, cremos em um Deus individual; nós, porém, vamos além e cremos que somos Ele, isto é, que se manifesta em nós e que vivemos e estamos em Deus. Cremos que há um fundo de verdade em todas as religiões e a todas respeitamos. Porque a verdade neste mundo é encontrada por adição e não por subtração”.

O que dizer depois disso? Lindo, perfeito e profundo. Na verdade os ocidentais, mais especialmente os cristãos, também deveriam ter mais enraizado esse mesmo conceito de unidade entre Criatura e Criador que os hindus têm, pois que Jesus sempre disse que éramos Deuses, e que Deus se manifestava por nós, não só por ele, e justo nisso que ele era nosso maior exemplo, mas infelizmente acabou-se por mercantilizar e idolatrar tanto Jesus e Deus lá no céu, e apenas o próprio Cristo como Divindade, longe de nós, com o Qual teríamos que nos comunicar através de mil Ministros, que deixamos esse conceito tão *fundamental* para a expansão da espiritualidade e comunhão com Deus, de lado.

Ainda bem que esse conceito não se perdeu e aos poucos se difunde outra vez em todos os cantos do mundo…

Enigmas de Krishna

577F02_1Mais uma das maravilhas da Bhagavad-Gita. Aliás, estudar essas escrituras é como revolucionar o íntimo. Não o intelecto, mas o íntimo. Krishna tinha o dom de ser claro e misterioso ao mesmo tempo, falando com objetividade e subjetividade, de tal forma que ao lê-lo temos a impressão de que um oceano imenso encobre a superfície de suas palavras. As palavras dele são como oceanos. Ao lê-las podemos perceber claramente o quanto são imensas em sabedoria e beleza. Olhamo-las e tal como quando olhamos para o oceano, percebemos que há uma profundidade à ser explorada. E mergulhar nessas palavras é se auto-descobrir enquanto Filhos de Deus. Não tem como ver as profundezas da Bhagavad-Gita sem mergulhar, por experiência própria, nas palavras de Krishna. E mergulhar não é estudá-las como os oceanógrafos estudam o oceano nos livros e nas faculdades. Mergulhar é mergulhar. Praticar na própria vida. Só assim consegue-se ver as profundezas da Bhagavad-Gita e ler as entrelinhas de Krishna, esse Mestre tão especial que passou pela Terra. Essa frase é uma dessas maravilhas de Krishna:

“O eu é um amigo para o homem cujo eu foi conquistado pelo Eu; mas para aquele que não está de posse de seu Eu, o eu é como um inimigo”.

A nossa essência divina só nos leva à felicidade se a colocamos à serviço de Deus. Se usamos nossos talentos para a satisfação do Ego, nos perdemos de nós, mesmo estando conosco, porque o encontro com nós mesmos só se dá quando encontramo-nos junto à Deus dentro de nós. Ao longo da nossa história nós vimos passar pela Terra os dois tipos de Filhos de Deus, daqueles que usavam seus talentos divinos para a satisfação do Ego, como Hitler e muitíssimos outros, assim como aqueles que os usaram para manifestar o Amor de Deus, como Gandhi e muitíssimos outros também. Mas todo aquele que buscou satisfazer o eu, e não o Eu, à si mesmo e não à Deus dentro de si, em suma, todo aquele que usou por egoísmo e egotismo e não por amor e caridade os seus talentos da alma, sucumbiu no próprio pseudo-poder, na própria loucura, na auto-escravidão, na ilusão do egocentrismo exacerbado e não obteve um único momento de paz íntima. O oposto se deu com todos aqueles que nos foram exemplos de renúncia do Ego, em prol de ser um instrumento do Amor de Deus no mundo, de permitir que o Eu comandasse o eu, de permitir que a vontade de Deus e não a sua própria, fosse a externação de sua vida e de seus talentos individuais, que buscando o bem-estar dos semelhantes, encontravam o próprio bem-estar, que buscando o amor aos semelhantes, encontravam a felicidade e a paz espiritual.

Com tão pequena e enigmática frase, Krishna deixou um tratado de psicologia transcendental e de comunhão com Deus dentro de si mesmo.