Cristãos de Facebook

cristaos_martires_coliseu_leoesEstava lendo o livro “Vivendo com Jesus” da autora espiritual Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Franco, e veio na minha mente a dificuldade que os primeiros cristãos enfrentaram ao trabalharem para o Cristo. Imediatamente pensei nas questões trabalhistas da atualidade e comecei a pensar: por que os primeiros cristãos sofreram tanto e tão superlativamente ao trabalharem para Jesus, se o próprio mercado de trabalho protege o bem-estar do trabalhador? E como podemos colocar isso na nossa vida presente, nos dias atuais com tecnologia e comunicação virtual? Tive que parar e vir escrever as reflexões que vieram rápidas na minha mente, antes que elas se perdessem.

A resposta parece meio óbvia, mas muitos de nós esquecemos constantemente e estamos sempre nos sentindo “abusados” por Jesus quando algum trabalho que façamos para Ele de ajuda à necessitados, começa a nos exigir mais que nosso tempo livre de lazer. Geralmente, quando nos achamos “iluminados”, trocamos o lazer (a novela, o cinema, o teatro, etc) por algum trabalho na organização religiosa à qual pertençamos. Alguns de nós, nem mesmo precisamos nos deslocar à algum lugar, “trabalhamos” pelo Cristo em casa mesmo, indo aos grupos de debates do facebook ou nas listas de discussão do yahoo grupos, e então nos sentimos plenos de “nós mesmos”, por sermos tão “caridosos” ao abrirmos mão da novela, para ficarmos debatendo temas religiosos com outras pessoas pela internet, no aconchego da nossa casa.

Um belo dia, porém, o marido/esposa ou os filhos e amigos começam a “sentir nossa falta”, porque afinal, em vez de estarmos lá no sofá assistindo novela juntos, ou estarmos lá falando mal do vizinho com a amiga, estamos indo à um grupo de ajuda à necessitados e até mesmo doando o mínimo no aconchego do lar pela internet mesmo. E eles reclamam. E o tempo para família e vida social começa a ficar um pouco menor, e eles reclamam mais a nossa presença, chamam-nos irresponsáveis, dizem que se estamos na terra, temos que cuidar dos assuntos da terra e deixar que os assuntos do céu fiquem com os santos/anjos/espíritos, que o problema dos outros não é da nossa conta, que cada qual que carregue sua cruz. E nós que já estávamos mesmo cansados de tanto trabalharmos “de graça”, gastando o tempo da nossa família/amigos/vida pessoal com pessoas cheias de problemas e às vezes até desagradáveis, que não tinham nada a ver com nossa vida ou se tinham, estavam abusando da amizade, acabamos por ceder e abandonar tudo pra seguirmos nossa vida comum, nos sentindo abusados pelo Senhor e Seus necessitados.

Afinal, pensamos, nas Leis Trabalhistas que regem o país, dizem que o trabalho deve fazer bem ao trabalhador, se ele é abusivo, pode até se enquadrar em Assédio Moral, e definitivamente aquele trabalho assistencial não estava fazendo bem ao convívio familiar, à nós mesmos e ao ambiente particular à nossa volta. Sentimos, então (mas sem expressar, porque não temos coragem de assumir isso nem para nós mesmos) que o Cristo está praticando assédio moral conosco e abandonamos Sua vinha. Obviamente continuamos nos dizendo cristãos, trabalhadores da última hora, de vez em quando pegamos o celular com acesso à internet e enquanto estamos utilizando o toialete, digitamos um texto falando sobre situações da nossa vida, muito bem escrito sempre, com palavras rebuscadas, para colocarmos nos facebook ou blog, ou onde seja, comparando nossas vidas com passagens de Jesus e dizendo o quanto O seguimos, ou o quanto tentamos segui-Lo sem conseguirmos, porque também temos que ser modestos para disfarçar nosso orgulho. Dalí à algumas horas entramos outra vez rapidinho para vermos quantas curtidas e comentários tivemos, quantos aplausos para nossa alma iluminada e nossas palavras tão bonitas. Nossa auto-estima fica elevada, e sentimos que agora sim estamos “fazendo a coisa certa”, porque as pessoas estão nos tratando com respeito, estão nos admirando, estão alí todo dia para curtir nossas publicações, ao mesmo tempo que estamos com tempo para cuidarmos do nosso pequeno núcleo familiar, para ouvirmos música, lermos um livro, vermos um filme, conversarmos com os amigos, debatermos assuntos de nosso interesse particular, etc. Finalmente, depois de tanto sofrimento vão naqueles trabalhos assistenciais que nos sugavam todo o tempo livre e as energias, estamos nos sentindo plenos e felizes, afinal, estamos trabalhando ativamente pelos nossos interesses particulares e usando o tempo do banheiro para evangelizar as pessoas com passagens da nossa vida cristã (que claro, é um exemplo e deve ser sempre exposta ao mundo para ajudar as pessoas).

Nesse momento, precisaríamos realmente sairmos da letargia que se encontra nosso espírito. Nossa perda é quase total… Pensamos então nos primeiros cristãos que sofreram todo tipo de abuso físico, moral, emocional e psicológico para trabalharem na vinha de Jesus. Se pensamos que nossa esmola ao Cristo é abuso, imaginemos então o que não poderiam dizer Pedro que foi crucificado, Paulo que sofreu todo tipo de sofrimento (literalmente apedrejado muitas vezes, abandonado por todos que amava, tido como louco pela família, tratado como lixo humano pela sociedade), Bartolomeu que foi esfolado vivo, muitos outros que foram tochas humanas em orgias, alimento para leões, que sofreram todo tipo de dificuldade para que o evangelho chegasse vivo até nós hoje, e nos beneficiasse ao longo dos séculos nas nossas muitas vidas…

Podemos pensar nos novos cristãos, se ao pensarmos nos primeiros, ficar muito difícil por começarmos a justificar questões sociais da época em que eles viveram. Pensemos então em trabalhadores como Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, a dona Maria que ninguém conhece, mas que cuida de uma casa para crianças com problemas mentais, tendo-as todas como seus filhos amados, ou o senhor José anônimo, pai de 7 filhos, que além de cuidar da esposa, dos filhos, de trabalhar para sustentá-los, ainda preside uma instituição religiosa, participando de todas as atividades assistenciais e de esclarecimento à encarnados e desencarnados. Sua esposa e filhos, no início reclamaram, mas a força e a determinação do seu exemplo na prática do bem e seu amor à Jesus e ao próximo, acabou por arrastar toda a família para o trabalho assistencial junto com ele.

O trabalho para Mamon realmente precisa nos fazer sentir bem como pessoas materiais, porque ele visa justamente o retorno financeiro e material. Se o trabalho físico, remunerado e com fins lucrativos não estiver fazendo bem, não estiver nos dando lucro e não estiver zelando pela sustentação da nossa família, tem alguma coisa errada, é fato. Mas o trabalho para o Cristo é Caridade, é doação, não temos que receber nada em troca além da satisfação de servir, além de benesses puramente espirituais, e ainda estaremos no lucro, porque na verdade estamos trabalhando para quitar dívidas, e mesmo assim a misericórdia de Deus ainda nos beneficia com a paz de espírito, algo que não tem sequer preço de tão valioso que é! Não temos que receber nada dos necessitados (e aqui falamos não só de matéria, mas de emocional também) e nem temos que receber nada do nosso Chefe, embora Ele sempre nos dê, sempre nos presenteie, sempre nos encha de bônus imerecidos, de assistência e amor incondicional!

Hoje o Cristo não nos pede mais o sacrifício das torturas físicas, mas ainda necessita de alguns sacrifícios sim, sobretudo do sacrifício que é para nós abrirmos mão do nosso ego e dos nossos interesses privados, para doarmos um pouco da nossa vida para Ele e para aqueles que Ele trás à nós necessitando de alguma ajuda. Em alguns momentos com certeza vai ser difícil, porque inimigos do bem encontramos em toda parte, e alguns deles são realmente ferozes e poderosos, conseguem mesmo nos desequilibrar e nos derrubar, mas pensemos naqueles cristãos da primeira e da segunda hora que sofreram muito mais e enfrentaram as feras de ontem para que hoje a mensagem evangélica pudesse estar à nosso dispor. Eles próprios continuam trabalhando na vinha e nos pedem ajuda… Não podemos negar com a desculpa de termos uma vida particular para cuidar. Não podemos ser tão fracos e covardes para praticar o bem, porque certamente no passado, em vidas recuadas, éramos bastante firmes, fortes e corajosos para praticar o mal. Temos que ter aquela mesma determinação que tínhamos no passado quando fazíamos o próximo sofrer, ao trabalharmos hoje para o Cristo e fazermos o bem, aliviando as dores de quem sofre. Temos que suportar espinhos de todas as matizes (dores piores infringimos à outros no passado) se quisermos ser minimamente dignos de dizermos que somos cristãos como alardeamos às pessoas que aplaudem nossas máscaras de bondade… Temos é que termos vergonha de usarmos e abusarmos da mensagem cristã para promovermos nossa imagem junto à sociedade, e realmente aproveitarmos nossa vida na terra trabalhando! Não estamos aqui à passeio, estamos à trabalho, e o trabalho para o Cristo pode ser sim muito árduo, porque árduas são as dores do nosso próximo, porque árduo é voltar sobre nossos passos errados de antes, porque árduo é abandonarmos nossas fugas e ilusões de segurança, mas no fim não será árduo nosso retorno para a Pátria Espiritual, pelo contrário, será com Paz que olharemos para nossas cicatrizes de trabalho e que nos sentiremos verdadeiramente dignos!

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Naturalmente…

Adorei essa frase de Allan Kardec contida no Livro dos Médiuns:

“A Natureza é mais prudente do que os homens. A Providência, aliás, tem seus planos e a mais humilde criatura pode servir de instrumento aos Seus mais amplos desígnios (…)”

Sim, a Natureza é mais prudente do que os homens, porque toda ela é harmonia com Deus, enquanto nós estamos quase todo o tempo em harmonia com Maya, com a ilusão dos nossos sentidos. A Natureza não se ilude com as coisas do mundo, ela apenas cumpre seu dever, seu destino dentro da criação. Nós estamos sempre em busca de satisfazer nossos sentidos, nossas vontades e expectativas, e raramente estamos simplesmente à disposição de Deus para sermos seus instrumentos.

Na maioria das vezes sequer achamos que temos alguma chance de ajudar Deus, porque ou somos soberbos de orgulho e egoísmo, ou não damos valor à nós mesmos enquanto filhos de Deus que somos. Ou nos cremos grandes demais para perdermos tempo nos ocupando dos assuntos de Deus, já que temos tantos assuntos particulares precisando de nossa atenção, ou nos achamos tão pequenos e insignificantes, que nem cogitamos a possibilidade de Deus se servir de nós.

Mas Deus se serve, mesmo quando não queremos… Ele sempre se serve de nós, até mesmo dos nossos erros, para promover a harmonia e a ordem em toda a criação. Na verdade Ele tem recursos e meios que nos escapam, com os quais nem mesmo podemos imaginar. Ele sempre dá-nos chance, sempre se ocupa de nós, mesmo quando não queremos nos ocupar Dele ou quando nem queremos que Ele se aproxime. Somos seus instrumentos nos momentos mais diversos, e obramos por Seu intermédio sempre que é necessário. Às vezes nos damos conta disso, às vezes não…

E assim é com todos, por isso mesmo que não podemos dizer que determinada pessoa foi culpada disso ou daquilo de ruim que nos aconteceu, porque se aconteceu é porque, por algum motivo, ela foi intrumento de Deus para nos educar. A responsabilidade do ato dela recai apenas sobre ela, porque se fomos atingidos é porque um dia, num passado de erros e desenganos, plantamos aquela semente ruim que germinou pelas mãos de alguém que se fez instrumento das Leis de Deus.

E é justamente por isso que não temos motivos para nos ofender ou magoar quando nos atingem, apenas devemos abençoar e agradecer a Deus que Ele nos achou dignos de nos harmonizarmos com as Leis e fortes o suficiente para sofrermos as consequências de nossos erros pretéritos. Mas sim, mesmo assim é difícil trazer esse conceito para nosso emocional e vivenciá-lo em plenitude. Volta e meia estamos nos ofendendo, magoando, tendo dificuldades para perdoar. É nessa hora que temos que ter paciência conosco também, lutando para não nos acomodarmos aos sentimentos ilusórios do nosso ego, mas sem nos exigir pressa demais, porque como diz o conceito da frase de Kardec, tudo que é Natural é mais sábio, e isso inclui nosso tempo íntimo de absorver emocionalmente os conceitos que já vislumbamos no intelectual.

Geralmente quando nos obrigamos a sentir o que naturalmente ainda não conseguimos, estamos nos agredindo e desejando sermos mais fortes que a nossa Natureza. Não nos respeitamos e nem nos damos a chance de sermos o que somos: seres em crescimento, em constante evolução, imperfeitos e ignorantes de muita coisa. Quando nos forçamos a um modelo idealizado de “moralmente ideal”, na maioria das vezes apenas nos tornamos hipócritas e mascarados. Quando finalmente o conceito for absorvido naturalmente por nós (o que pode demorar várias vidas), nós sentimos a paz daqueles que não sentem necessidade alguma de se auto-imolar, pois que estão em harmonia com Deus, e isso também significa se amar e se respeitar inclusive como um imperfeito Filho de Deus.

Humildade e Superação

“Ao ver-me diante de um paciente em processo psicoterápico ou diante de algum aluno, vai amadurecendo cada vez mais a minha certeza de que nós nos fazemos grandes a partir de nossas pequenezas. Uma pessoa equilibrada não é aquela que não tem conflitos e sim aquela que conseguiu superá-los e harmonizar-se. Uma pessoa normal não é alguém que nunca sofreu nenhuma patologia: é alguém que, tendo tomado consciência de sua patologia, trabalhou à si mesma pela normalidade. Portanto, um otimista não é um ingênuo: é alguém que ultrapassou o seu pessimismo, positiva e construtivamente”. (Dr. José Luiz Archanjo – Prefácio de “A Roca e o Calmo Pensar” – Gandhi)

Achei essa colocação fantástica! Na verdade achei todo o prefácio escrito por José Luiz Archanjo, para o livro “A Roca e o Calmo Pensar”, de Gandhi, de uma beleza e profundidades impecáveis! Mas essa colocação em especial me chamou a atenção, porque raramente vemos colocações engrandecendo as dificuldades pelas quais passamos. Por um movimento natural de busca pelo prazer de viver, nós colocamos sempre as nossas dificuldades como as grandes vilãs das nossas vidas, sem nunca bendizê-las ou dar-lhes tamanho valor ao ponto de colocá-las como as grandes responsáveis pelo nosso crescimento.

Mas refletindo como o autor, nós paramos para pensar na nossa vida e vemos o quanto de razão e sabedoria há nessa colocação. Realmente são as dificuldades que nos transformam em seres humanos mais maduros, mais capazes, mais consciêntes, mais grandiosos.  A nossa pequenez está constantemente nos convidando ao crescimento, e a cada momento que vemos o quão grande ela é, mais nos esforçamos para lhe superar, e como consequência natural, mais crescemos.

Podemos então dizer que, por esse raciocínio,  o nosso crescimento está umbilicalmente ligado ao grau de nossa humildade. Sim, porque aquele que se crê grande e sem dificuldades, não consegue se aprimorar, até porque não se crê necessitado de aprimoramento. E nisso o ser estaciona espiritualmente (embora possa crescer muito materialmente) e passa ano após ano, século após século, rodando em volta de sua própria pequenez, sem jamais ter a coragem de olhar para ela, e encarar o quão pequeno ainda é. O orgulho nos faz isso, até que um dia a Vida nos obriga a olhar para nossa imaturidade e pequenez, e junto com a dor da constatação dessa realidade, damos nossos primeiros passos na humildade. E então, nem que seja por um pouco de orgulho até, desejamos crescer, superar nossos problemas.

Às vezes não, porque às vezes a dor por ser pequeno é tão grande e devastadora, que o ser prefere crer-se vítima do mundo e das pessoas, prefere destruir o que está por fora em vez de transformar o que está por dentro. É menos dolorido crer-se injustamente irreconhecido, injustamente detestado, injustamente mal-amado. Nunca ele tem coragem de admitir que o problema está apenas com ele, que ele é mesmo muito pequenininho e cheio de defeitos à serem não só admitidos, mas sobretudo *superados*. Tal qual diz no texto, a pessoa é equilibrada porque superou-se acima de seus conflitos e se harmonizou. Ele não disse que ela perdeu os conflitos, mas que cresceu diante deles, e tornou-se maior que eles. Os conflitos foram a grande mola propulsora para seu crescimento. Foi da necessidade de busca pelo prazer e bem-estar, que o ser superou a sua dificuldade e cresceu.

É assim sempre, em toda a história, desde as cavernas até os grandes arranha-céus das cidades de hoje. Se há uma doença fazendo a população sofrer, busca-se a cura muitas vezes com descobertas inéditas. Se existe dificuldade, seja qual for, existe o impulso para a superação da dificuldade com consequente crescimento. Não adianta muito destruir a dificuldade, porque ela sempre pode voltar de outras mil formas. O ideal é se colocar acima dela, se superar, para que ela não seja mais uma dificuldade, embora continue sendo a mesma coisa de sempre. Uma doença continua sendo doença, mas a pessoa estará vacinada, e não será mais atingida pela doença. A fome continuará sendo fome, mas a pessoa terá encontrado um trabalho e terá como comprar comida. O frio continuará existindo, mas a pessoa terá encontrado um casaco para lhe resguardar.

Por isso não adianta se revoltar diante da dificuldade e desejar simplesmente a destruir, como se fôssemos crianças birrentas e agressivas, que destróem a bola que não entra no gol. Temos que aprender a jogar a bola, e não exigir que a bola entre, mesmo conosco sendo verdadeiros “pernas-de-pau”. O difícil é o jogador vaidoso e orgulhoso assumir que é um “perna-de-pau” e que, portanto, precisa aprender a jogar a bola. Diante disso podemos supor que a nossa maior dificuldade real de crescimento é o orgulho, na mesma proporção que o egoísmo nos impede de amar e doar, e não qualquer coisa que esteja fora de nós, sejam os obstáculos da vida, sejam as pessoas difíceis.

A humildade, portanto, é a nossa escada sem fim rumo ao aperfeiçoamente, porque sem nos reconhecermos verdadeiramente pequenos, falíveis e imperfeitos, jamais teremos o verdadeiro impulso de crescimento. Ficamos parados, esperando que algo ou alguém remova nosso foco de dificuldade, como um Rei orgulhoso espera que seus escravos limpem o tapete por onde ele quer passar. Ninguém vai remover a sujeira dos nossos tapetes, porque são justamente essas sujeiras as ferramentas de Deus para nos educar, nos amadurecer e nos fazer grandes! Enquanto nós mesmos não as ultrapassarmos, enquanto não assumirmos que elas são de responsabilidade apenas nossa, vamos ficar fingindo para nós mesmos que a sujeira não é da nossa conta e exigindo que a retirem, para que possamos “ser felizes”, quando a felicidade real está em andar pelo tapete sujo sem sujar os pés… Mas para isso precisamos ser, como Gandhi falou, menores que o pó onde pisamos.

Parafraseando Gandhi: “A Verdade não será alcançada por aquele que não tem em si compreensão extensa de humildade. Se quiser nadar no Oceano da Verdade será preciso reduzir-se à zero. O Ahimsa é o extremo limite da Humildade”.

Silêncio Reparador

Tenho para mim que uma das melhores coisas da vida é quando conseguimos um tempo, todos os dias, para silenciarmos a mente, a alma.

Não é fácil porque muitos compromissos estão sempre nos chamando e prendendo nossa atenção. Mas quando conseguimos aqueles sagrados minutos diários de silêncio interior, com o tempo parece que o mundo inteiro, por mais agitado que seja, vai ficando mais calmo, mais espaçoso. Parece que o tempo não nos passa tão despercebido, que os momentos são mais bem aproveitados.

Nossa visão se aguça, nossa mente se amplia e nossa serenidade aflora. A agitação fica algo distante…

Mas sim, não é fácil encontrar o tempo, e mesmo as condições. Eu tive que adquirir um “ritual” para conseguir ter minha meia-hora por dia, sem ser interrompida, da prática do silêncio. Chego do trabalho, entro no banheiro, sento numa toalha dobrada e bem felpuda, que já deixo lá para isso, e lá fico meditando e exercitando a respiração levemente – não exercícios de yoga, porque isso é outra história! Aqui entra apenas a prática do silêncio mental, e a respiração para ajudar na concentração. Se eu fico em qualquer outro cômodo da casa, não tenho sossego. Então encontrei essa forma, e minha privacidade e silêncio são sagrados. Depois que saio, estou pronta para a família e todos os afazeres do período noturno.

E também, durante o dia, quando o ambiente de trabalho está silencioso, faço pequenos intervalos de cinco à dez minutos, para “prestar atenção na minha respiração”, que é uma singela técnica de meditação, boa, simples e eficaz.

Enfim, à mim faz muito bem ter mais pequenos momentos, durante o dia, de meditação diária, e aos poucos sinto uma mudança substancial, especialmente no que diz respeito à tranquilidade e clareza mental. É como se a paz fizesse mais parte de nós. Recomendo!

Inocente e Prudente

Há uma frase que atribui-se à Jesus que sempre me foi um tanto intrigante, porque aparentemente são posições antagônicas. Ele disse:

“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas”. (Mateus 1:16)

Como conseguimos ser simples, puro, inocente como as pombas e ao mesmo tempo prudentes como as serpentes? Uma coisa exclui a outra. Se sou inocente e simples de coração, não sou prudente, mas confiante. Se confio na bondade que há em todo ser humano, não sou prudente. Se espero sempre que o outro seja bom, não sou prudente. Como ser as duas coisas ao mesmo tempo? Eu não sei.

Pensei, por isso, que ser prudente talvez seja nos guardar do mal, no sentido de não dar conseções à ele. Não abrir a porta para o mal dentro do nosso coração como se ele fosse inofensivo. Não dizer, diante do que nos faz mal, do que é vício e imperfeição moral, “ah, que tem demais fazer isso só hoje?”. Ou algo como “ah, não sou perfeita mesmo, então vou ser egoísta, tô nem aí!”. Ou até com aparentes “bobagens”: “ah, eu sei que essa música foi inspirada pelas trevas, mas eu gosto tanto dela, dane-se as energias!”. E assim com tudo que nos faz mal e que permitimos vivenciar como se o mal não fosse perigoso. Muitas vezes não vemos o perigo das coisas que fazemos e nos permitimos viver, e para essas coisas acredito mesmo que Deus nos guie e ajude à encontrar e ver a segurança. Mas quando nós sabemos que algo faz mal, quando sabemos dos perigos e mesmo assim nos permitimos, então penso que é quando precisamos aprender a sermos prudentes como as serpentes. Conhecer o mal não é necessariamente viver o mal. Podemos e devemos identificar os sinais do mal em todo lugar para que, prudentes, possamos evitá-lo. Mas identificar é diferente de procurar. Uma coisa é ter lucidez para perceber quando algo é mal, outra é ter malícia para procurar pelo mal…

Entendo como sendo a única forma de ser simples e inocente como as pombas e prudentes como as serpentes. Mantemos a nossa luta diária e constante pela melhora interior, pela auto-iluminação, mantemos a tentativa de manter a simplicidade, a inocencia e a pureza das pombas diante das pessoas, esperando sempre que a bondade delas se manifeste, ao mesmo tempo que vigiamo-nos constantemente para evitarmos que o mal se aloje em nós.

Ao mesmo tempo, pelo contexto da frase, parecia que Jesus referia-se à ser prudente com o mal alheio, com os lobos. Nisso que tenho dificuldade, porque como eu consigo manter a simplicidade e a pureza de alma diante do mal alheio e ao mesmo tempo buscar me precaver desse mal? Ser prudente dentro de uma alcatéia é fácil, até nosso instinto de sobrevivência fala mais alto e somos precavidos por defesa natural. Mas e quando o lobo se veste de ovelha? Como ser simples de coração e prudente ao mesmo tempo, diante de uma ovelha? Não vejo como… Ou entregamos o coração à ovelha correndo o risco dela ser um lobo e sofrendo as consequências acaso seja, ou então resguardamos sempre o nosso coração, para impedir que um lobo em pele de ovelha nos traga o mal.

Não consigo entender como conciliar as duas recomendações do Mestre diante do mal alheio. Essa sempre foi uma das minhas maiores dificuldades. Só consigo conciliar isso quando já sei que com aquela “ovelha” eu tenho que tomar cuidado, porque já vi o mal vindo de lá. Fora isso, não sei como ser as duas coisas ao mesmo tempo. Penso mesmo que “ser enganado” é natural e inevitável para quem tenta sempre ter esperança e confiança na bondade e na divindade que existe dentro de todo Filho de Deus. E diante disso temos apenas a escolha de reagir diante disso com o coração bondoso, perdoando sempre, ou seja, aprendendo a lidar com o “depois”, porque com o “antes” acho que não tem como. Como podemos entregar nosso coração e aceitar o coração dos outros, nos precavendo de sermos enganados? Não tem como. Amar as ovelhas de Deus é correr o risco constante de encontrar com lobos. E no fim acabamos aprendendo a amar os lobos também…

Hábitos e Vícios II

budaEstava pensando sobre o quanto é difícil se abster de um vício. Há quem diga que as vezes em que não pratica um mal ato que lhe era natural, sente-se muito bem consigo mesmo, sente-se vitorioso. Mas acho que isso já é um estágio mais avançado da “luta contra o vício”. Quando o mal hábito deixa de ser uma opção para a pessoa, mesmo em sua mente e necessidades, e quando ela não pratica, vê-se realmente livre e feliz. Mas há os estágios menos avançados, quando lutamos conscientemente contra um vício que nos é natural em todo nosso ser. Que “faz parte de nós”, mesmo que ilusoriamente. A ilusão da sombra é real demais em nossa mente e em nossas vontades. Quando não praticamos o ato infeliz, não nos sentimos felizes ou satisfeitos conosco, mas frustrados. “Puxa, era uma oportunidade perfeita…”, chegamos ao ponto de lamentarmo-nos. O vício é vício apenas no nosso sentido de ética, de moral e lógica, mas todo nosso ser sente prazer em praticá-lo, ainda sente-o como hábito, e se arrepende é de não praticá-lo. E são justo nesses momentos, de frustração e mal-estar durante o processo de auto-purificação, quando a luz cega nossos olhos acostumados com a escuridão, que resolvemos deixar para lá os esforços pelo auto-amor e abandonarmo-nos outra vez na zona de conforto de sempre.

Mas temos que ser persistentes e lutar por nós. Temos que ter em mente que desistir dos vícios num estágio desses, é o mesmo que insistir em nós, tal como o semeador que não desiste de cuidar da semente só porque ela ainda está debaixo da terra. Se ele não insistir em cultivá-la, como ela vai semear um dia? E o mal-estar que sentimos por não cedermos ao vício, é o mal-estar que podemos comparar à amargura de um remédio eficaz e necessário, que nos trará imensos benefícios e alívios posteriores. Dói, mas é a dor mais santa que podemos sentir… O sacrifício por nós, pela nossa iluminação. Como diz Sai Baba: “Fidelidade à verdade é a verdadeira penitência”. Fidelidade à nossa realidade de luz, sem trairmo-nos outra vez com as sombras que não são nossa realidade essencial, é a verdadeira penitência e um dos mais difíceis sacrifícios que podemos fazer. Não é sem motivo que o ser-humanos sempre tenta se anestesiar na matéria e fugir das necessidades espirituais. Não é sem motivo que o ser-humano tenta nem tomar conhecimento de suas necessidades enquanto Filho de Deus, lutando para não ouvir “o chamado”, deixando-se ensurdecer pelo barulho do mundo.

Hábitos e Vícios

yinyang-moira-gil-johnCoisa difícil é nos despirmos de um mal hábito, daquele que nos faz mal, que controla nossa mente e nossa vontade. Os chamados vícios. Lembro que na escola, quando eu era beeeem pequena, aprendi a diferença de hábito e vício. Lá no livrinho de Estudos Sociais dizia que hábito é tudo aquilo que fazemos com disciplina e nos faz bem. E vício é o que fazemos com disciplina, mas nos faz mal.

Deveria ser simples, portanto, nos livrarmos dos vícios, já que temos consciência que eles nos fazem mal. Se nos amamos, se desejamos sermos melhores, se queremos paz íntima e bem-estar espiritual, então porque é tão difícil nos despir de um vício, ou até, substituir ele por um hábito? Yogananda tem um texto excelente sobre isso, que se chama “Criar Bons Hábitos e Destruir Maus Hábitos”, onde ele diz:

“A repetição de um ato cria uma configuração mental. Todas as ações são executadas mental e fisicamente. A repetição de um ato em particular e da imagem mental que o acompanha forma sutis caminhos elétricos no cérebro físico, como se fossem as ranhuras de um disco fonográfico. Após algum tempo, sempre que você puser a agulha da atenção nessas ranhuras de caminhos elétricos, ela toca o disco da configuração mental original. Cada vez que o ato se repete, essas ranhuras de trajetos elétricos se aprofundam, até que uma atenção mínima faz tocar, automaticamente, esse mesmo ato, cada vez mais.

Esses padrões fazem com que você se comporte de certo modo, freqüentemente contra seu próprio desejo. Sua vida segue ranhuras que você mesmo criou em seu cérebro. Nesse sentido, você não é uma pessoa livre. Em maior ou menor grau, é vítima dos hábitos que formou. Dependendo da profundidade desse traçados, você é, na mesma proporção, um fantoche. Você pode, porém, neutralizar as imposições desses maus hábitos. Como ? Criando em seu cérebro configurações mentais de bons hábitos opostos. E pode também apagar completamente, por meio da meditação, as ranhuras dos maus hábitos.

Você tem de curar-se dos maus hábitos, cauterizando-os com os bons hábitos opostos. Se tem, por exemplo, o mau hábito de mentir e, por causa disso, tem perdido muitos amigos, comece a praticar o bom hábito de dizer a verdade. Mesmo um mau hábito leva tempo para predominar, logo, por que se impacientar com o desenvolvimento vagoroso de bom hábito oposto? Não se desespere com os seus hábitos indesejáveis; simplesmente deixe de alimentá-los e fortalecê-los por meio da repetição.”

Parace simples, mas é bem difícil. Você torna aos vícios mesmo sem notar e desejando os hábitos que estabeleceu para substituir os vícios. Tem alguns vícios que doem quando estão sendo extirpados. Dói  se livrar deles, mesmo que esteja claro que ele te faz mal. O mesmo quadro de crise de abstinência pelo qual passa os viciados em drogas quando se internam em clínicas, também passamos quando tentamos nos purificar de um vício moral ou mental. Estão tão emaranhados e impregnados em nós, que  muitas vezes o praticamos conscientemente por sentirmo-nos, não confortáveis, mas incapazes de “viver sem eles”. Como diz Yogananda, precisamos mesmo de muita meditação para conseguirmos nos livrar deles, porque só com muita paciência, lucidez e disciplina, nós conseguimos.

Somos como bebês tentando dar os primeiros passos. Caímos e levantamos, caímos outra vez, choramos e levantamos de novo. Caímos, nos sentimos incapazes, quase desistimos, ficamos um tempo caídos, até que conseguimos coragem de levantar outra vez e continuarmos. Até que um dia, graças à nosso auto-amor, nossa persistência e obstinação na auto-iluminação, nós não caímos mais naquele vício e mais um pouquinho da nossa realidade de Luz resplandece da nossa alma.

Por mais difícil, trabalhoso e dolorido que seja, não podemos desistir de nós. Nós somos centelha de Deus, e lutar para que ela apareça cada vez mais, é o nosso trabalho primordial, nossa missão primeira, nossa meta essencial. Essa luta deve estar acima de todas as lutas, porque sem a vitória espiritual, não logramos vitória em nenhuma outra batalha da Vida. Para amarmos bem, para conseguirmos ser instrumentos de Deus e fazer o bem à quem amamos, temos que nos amar! E amar-se é auto-iluminar-se, é lutar por isso, sem jamais desisitir de nós mesmos. Cair faz parte do processo, mas ficar caído, não. Se cairmos, levantamos, quantas vezes forem necessárias, sem jamais esquecermos que somos Luz e que, haja o que houver, devemos continuar lutando por nós.