Amar os Inimigos, por Martin Luther King Jr.

Martin Luther King Jr., um Satyagrahi autêntico, sem dúvidas! Acho que nunca tinha lido um texto tão perfeito e completo sobre o tema “amar os inimigos”. Depois de ler esse texto, estou até em estado de êxtase! Primoroso! Se Martin Luther King Jr. tivesse nascido na Índia, teria sido um Mahatma também!

Amar os Inimigos

Martin Luther King, Jr.

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Mateus 5.43-48

Talvez nenhum ensinamento de Jesus seja, hoje, tão difícil de ser seguido como este mandamento do “amai os vossos inimigos”. Há mesmo quem sinceramente julgue impossível colocá-lo em prática. Consideramos fácil amar quem nos ama, mas nunca aqueles que abertamente e insidiosamente procuram prejudicar-nos. Outros ainda, como o filósofo Nietzsche, sustentam que a exortação de Jesus para amarmos os nossos inimigos prova que a ética cristã se destina somente aos fracos e aos covardes, e nunca se pode aplicar aos corajosos e aos fortes. Jesus – dizem eles – era um idealista sem sentido prático.

Apesar dessas dúvidas prementes e persistentes objeções, o mandamento de Jesus desafia-nos hoje com nova urgência.

Insurreições sobre insurreições demonstram que o homem moderno caminha ao longo de uma estrada semeada de ódios, que fatalmente o conduzirão à destruição e à condenação. O mandamento para amarmos os nossos inimigos, longe de ser uma piedosa imposição de um sonhador utópico, é uma necessidade absoluta para podermos sobreviver. O amor pelos inimigos é a chave para a solução dos problemas do nosso mundo. Jesus não é um idealista sem sentido prático; é um realista prático.

Estou certo de que Jesus compreendeu a dificuldade inerente ao ato de amar os nossos inimigos. Nunca pertenceu ao número dos que falam fluentemente sobre a simplicidade da vida moral. Sabia que toda a verdadeira expressão de amor nasce de uma firme e total entrega a Deus. Quando Jesus diz: “Amai os vossos inimigos”, não ignora a dificuldade dessa imposição e conhece bem o significado de cada uma das suas palavras. A responsabilidade que nos cabe como cristãos é a de descobrir o significado desse mandamento e procurar apaixonadamente vivê-lo toda a nossa vida.

Como Amar os inimigos?

Agora sejamos práticos e formulemos a pergunta: Como devemos nós amar os nossos inimigos?

Temos, primeiro, de desenvolver e manter a capacidade de perdoar. Aquele que não perdoa, não pode amar. É mesmo impossível iniciar o gesto de amar o inimigo sem a prévia aceitação da necessidade de perdoar sempre a quem nos faz mal ou nos injuria. Também é preciso compreender que o ato do perdão deve partir sempre de quem foi insultado, da vítima gravemente injuriada, daquele que sofreu tortuosa injustiça ou ato de terrível opressão. É quem faz o mal que requer o perdão. Deve arrepender-se e, como o filho pródigo, retomar o caminho do regresso de coração ansioso pelo perdão. Mas só o ofendido, seu próximo, pode realmente derramar as águas consoladoras do perdão.

O perdão não significa ignorância do que foi feito ou imposição de um rótulo falso em uma má ação. Deve significar, pelo contrário, que a má ação deixe de ser uma barreira entre as relações mútuas. O perdão é o catalisador que cria a atmosfera necessária para de novo partir e recomeçar; é alijar um fardo ou cancelar uma dívida. As palavras “perdôo-te, mas não esqueço o que fizeste” não traduzem a natureza real do perdão. Nunca ninguém, decerto, esquece, se isso significar varrer totalmente o assunto do espírito; mas quando perdoamos, esquecemos, no sentido em que a má ação deixa de constituir um impedimento para estabelecer relações. Da mesma maneira, nunca devemos dizer: “Perdôo-te, mas já não quero nada contigo”. Perdão significa reconciliação, um regresso a uma posição anterior; sem isso, ninguém pode amar os seus inimigos. O grau da capacidade de perdoar determina o da capacidade de amar os inimigos.

Em segundo lugar, temos de reconhecer que a má ação de um nosso próximo, inimigo, – ou seja, aquilo que magoa, – nunca exprime a sua completa maneira de ser. É sempre possível descobrir um elemento de bondade no nosso inimigo. Existe algo de esquizofrênico em cada um de nós, que divide tragicamente a nossa própria personalidade, e trava-se uma persistente guerra civil dentro das nossas vidas. Há em nós alguma coisa que nos obriga a lamentarmo-nos com o poeta latino Ovídio: “Vejo e aprovo o que é melhor, mas sigo o que é pior”, e ou como Platão, que comparava a pessoa humana a um cocheiro que guiasse dois cavalos possantes, e cada um deles puxasse o carro em direções opostas. Também podemos repetir o que disse o Apóstolo Paulo: “Pois não faço o que prefiro e sim o que detesto”.

Isso significa muito simplesmente que naquilo que temos de pior há sempre algo de bom, assim como no melhor existe algo de mau. Quando percebemos isso, sentimo-nos menos prontos a odiar os nossos inimigos. E quando olhamos para além da superfície ou para além do gesto impulsivo de maldade, descobrimos em nosso próximo um certo grau de bondade, e percebemos que o vício e a maldade dos seus atos não traduzem inteiramente aquilo que ele de fato é. Observamo-lo a uma nova luz. Reconhecemos que o seu ódio foi criado pelo medo, orgulho, ignorância, preconceito ou mal-entendido, mas vemos também que, apesar disso tudo, a imagem de Deus se mantém inefavelmente gravada no seu ser. Amamos os nossos inimigos porque sabemos então que eles não são completamente maus, nem estão fora do alcance do amor redentor de Deus.

Em terceiro lugar, não devemos procurar derrotar ou humilhar o inimigo, mas antes granjear a sua amizade e a sua compreensão. Somos capazes, por vezes, de humilhar o nosso maior inimigo: há sempre, inevitavelmente, um momento de fraqueza em que podemos enterrar no seu flanco a lança vitoriosa, mas nunca deveremos fazê-lo. Todas as palavras ou gestos devem contribuir para um entendimento com o inimigo e para abrir os vastos reservatórios onde a boa vontade está retida pelas paredes impenetráveis do ódio.

Não devemos confundir o significado do amor com desabafo sentimental; o amor é algo de mais profundo do que verbosidade emocional. Talvez que o idioma grego nos possa esclarecer sobre este ponto. O Novo Testamento foi escrito em grego; e em sua versão original há três palavras que definem o amor. A palavra eros traduz uma espécie de amor estético ou romântico. Nos diálogos de Platão, eros significa um anseio a alma dirigido à esfera divina. A segunda palavra é philia, amor recíproco e afeição íntima, ou amizade entre amigos. Amamos aqueles de quem gostamos e amamos porque somos amados. A terceira palavra é ágape, boa vontade, compreensiva e criadora, redentora para com todos os homens. Amor transbordante que nada espera em troca, ágape é o amor de Deus agindo no coração do homem. Nesse nível, não amamos os homens porque gostamos deles, nem porque os seus caminhos nos atraem, nem mesmo porque possuem qualquer centelha divina: nós os amamos porque Deus os ama. Nessa medida, amamos a pessoa que pratica a má ação, embora detestemos a ação que ela praticou.

Podemos compreender agora o que Jesus pretendia quando disse: “Amai os vossos inimigos”. Deveríamos sentir-nos felizes por Ele não ter dito: “Gostai dos vossos inimigos”. É quase impossível gostar de certas pessoas; “gostar” é uma palavra sentimental e afetuosa. Como podemos sentir afeição por alguém cujo intento inconfessado é esmagar-nos ou colocar inúmeros e perigosos obstáculos em nosso caminho? Como podemos gostar de quem ameaça os nossos filhos ou assalta as nossas casas? É completamente impossível. Jesus reconhecia, porém, que o amar era mais do que o gostar. Quando Jesus nos convida a amar os nossos inimigos, não é ao eros nem à philia que se refere, mas ao ágape, compreensiva e fecunda boa vontade redentora para com todos os homens. Só quando seguimos esse caminho e correspondemos a esse tipo de amor, ficamos aptos a ser filhos do nosso Pai que está nos céus.
POR QUE Amar os Inimigos?

Saltemos agora do prático como para o teórico porquê.

Por que devemos amar os nossos inimigos? A principal razão é perfeitamente óbvia: retribuir o ódio com o ódio multiplica o ódio e aumenta a escuridão de uma noite já sem estrelas. A escuridão não expulsa a escuridão, só a luz o pode fazer. O ódio não expulsa o ódio: só o amor o pode fazer. O ódio multiplica o ódio, a violência multiplica a violência e a dureza multiplica a dureza, numa espiral descendente que termina na destruição. Quando, pois, Jesus diz: “amai os vossos inimigos”, é uma advertência profunda e decisiva que pronuncia. Não chegamos nós, em nosso mundo moderno, a uma encruzilhada onde nada mais resta do que amar os nossos inimigos? A cadeia de reação ao mal, – ódios provocando ódios, guerras gerando guerras – tem de acabar, sob pena de sermos todos precipitados no abismo sombrio do aniquilamento.

Outro motivo por que devemos amar os nossos inimigos são as cicatrizes que o ódio deixa nas almas e a deformação que provoca na nossa personalidade. Conscientes de que o ódio é um mal e uma força perigosa, pensamos muitas vezes nos efeitos que exerce sobre a pessoa odiada e nos irreparáveis danos que causa nas suas vítimas. Podemos avaliar as suas terríveis conseqüências na morte de seis milhões de judeus, ordenada por um louco obcecado pelo ódio, cujo nome era Hitler; na inqualificável violência exercida por turbas sanguinárias sobre os negros, ou ainda nas terríveis indignidades e injustiças perpetradas contra milhões de filhos de Deus por opressores sem consciência.

Mas há ainda outro aspecto que não podemos omitir. O ódio é também prejudicial para a pessoa que odeia. É como um cancro incurável que corrói a personalidade e lhe desfaz a unidade vital. O ódio destrói no homem o sentido dos valores e a sua objetividade. Faz com que ele considere bonito o que é feio ou feio o que é bonito, confunda o verdadeiro com o falso, ou vice-versa.

O Dr. E. Franklin Frazier, no seu interessante ensaio “The Pathology of Race Prejudice” cita vários exemplos de pessoas brancas normais, simpáticas e acessíveis no seu trato do dia-a-dia com outros brancos, e que reagem com inconcebível irracionalidade e anormal descontrole quando alguém alude à igualdade dos negros, ou ao problema da injustiça racial. Ora, isso acontece quando o ódio invadiu o nosso espírito. Os psiquiatras afirmam que muitas coisas estranhas passadas em nosso subconsciente e grande parte dos nossos conflitos íntimos são criados pelo ódio. Dizem eles: “ama ou morrerás”. A psicologia moderna reconhece a doutrina que Jesus ensinou há muitos séculos: o ódio divide a personalidade, e o amor, de maneira espantosa e inexorável, restabelece-lhe a unidade.

Um terceiro motivo por que devemos amar os nossos inimigos é que o amor é a única força capaz de transformar o inimigo em um amigo. Nunca nos livraremos de um inimigo opondo o ódio ao ódio – só o conseguiremos, libertando-nos da inimizade. O ódio, pela sua própria natureza, destrói e dilacera; e também pela sua própria natureza, o amor é criador e construtivo: a sua força redentora transforma tudo.

Lincoln experimentou o caminho do amor e legou à História um drama magnífico de reconciliação. Quando da sua campanha eleitoral para Presidente, um dos seus mais acérrimos inimigos era um homem chamado Stanton que, por qualquer razão, odiava Lincoln. Todas as suas energias eram empregadas para o diminuir aos olhos do público e tamanho era o ódio que sentia, que chegava a usar expressões injuriosas sobre o seu aspecto físico, procurando ao mesmo tempo embaraçá-lo com as mais azedas diatribes. Mas, apesar de tudo, Lincoln foi eleito Presidente dos Estados Unidos. Chegou então a hora de constituir o seu gabinete e nomear as pessoas que, mais de perto, teriam de participar na elaboração do seu programa. Começou por escolher um ou outro para as diversas pastas e, por fim, foi preciso preencher a mais importante, que era a da Guerra. Imaginai agora quem ele foi buscar: nada menos do que o tal homem chamado Stanton. Houve imediatamente grande agitação lá dentro quando a notícia começou a espalhar-se, e vários conselheiros vieram dizer-lhe: “O Senhor Presidente está laborando num grande erro. Sabe quem é esse Stanton? Está lembrado do que ele disse a seu respeito? Olhe que ele é seu inimigo e vai tentar sabotar a sua política. Pensou bem no que vai fazer?” A resposta de Lincoln foi nítida e concisa: “Sei muito bem quem é Stanton, e as coisas desagradáveis que tem dito de mim. Considerando, porém, o interesse da nação, julgo ser o homem indicado para este cargo”. Foi assim que Stanton se tornou Secretário da Guerra do governo de Abraão Lincoln e prestou inestimáveis serviços ao país e ao seu Presidente. Alguns anos mais tarde, Lincoln foi assassinado e grandes elogios lhe foram feitos. Ainda hoje milhões de pessoas o veneram como a maior homem da América. H. G. Wells considerava-o um dos seis maiores vultos da História. Mas de todos os elogios que lhe fizeram, os maiores são constituídos, decerto, pelas palavras de Stanton. Junto do corpo do homem que ele odiara, Stanton a ele se referiu como um dos maiores homens que jamais tivesse existido, e acrescentou: “agora pertence à História”. Se Lincoln tivesse retribuído o ódio com ódio, ambos teriam ido para a sepultura como inimigos implacáveis, mas, pelo amor, Lincoln transformou um inimigo num amigo. Foi essa mesma atitude que tornou possível, durante a Guerra Civil – e quando os ânimos estavam mais azedos – uma palavra sua a favor do Sul. Abordado então por uma assistente escandalizada, Lincoln retorquiu: “Minha Senhora, não será fazendo deles meus amigos que destruirei os meus inimigos?” Este é o poder do amor que redime.

Apressemo-nos a dizer que não são esses os supremos motivos para amar os nossos inimigos. Há uma outra razão muito mais profunda para explicar por que somos intimados a fazê-lo e essa está claramente expressa nas palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste”. Somos chamados para essa difícil incumbência com o fim de realizarmos um parentesco único com Deus. Somos, em potência, filhos de Deus e, através do amor, essa potencialidade torna-se realidade. Temos a obrigação de amar os nossos inimigos, porque somente amando-os podemos conhecer Deus e experimentar a beleza da Sua santidade.

É claro que nada disso é prático. A vida é uma questão de desforra, de desagravo, de “quem mais faz paga mais”. Quererei eu dizer que Jesus nos manda amar quem nos magoa e oprime? Não serei eu como a maioria dos pregadores idealista e pouco prático? Talvez que numa utopia distante – direis vós – a idéia possa ser realizável, mas nunca neste mundo duro e hostil em que vivemos.

Queridos amigos, seguimos já há muito esses caminhos que consideramos práticos e que nos conduzem inexoravelmente a uma confusão e a um caos cada vez maiores. Vêem-se, acumuladas através dos séculos, as ruínas das comunidades que sucumbiram à tentação do ódio e da violência. Para salvar o nosso país e para salvar a humanidade, temos de seguir outro caminho. Isso não significa o abandono dos nossos retos esforços; devemos continuar a empregar toda a energia para libertarmos este país do pesadelo da injustiça social. Mas nesta emergência nunca podemos esquecer o nosso privilégio e a nossa obrigação de amar. Ao mesmo tempo em que detestamos a injustiça social, devemos amar os que praticam tais injustiças. Será a única forma de criar uma comunidade de amor.

Aos nossos mais implacáveis adversários, diremos: “Corresponderemos à vossa capacidade de nos fazer sofrer com a nossa capacidade de suportar o sofrimento. Iremos ao encontro da vossa força física com a nossa força do espírito. Fazei-nos o que quiserdes e continuaremos a amar-vos. O que não podemos, em boa consciência, é acatar as vossas leis injustas, pois tal como temos obrigação moral de cooperar com o bem, também temos a de não cooperar com o mal. Podeis prender-nos e amar-vos-emos ainda. Assaltais as nossas casas e ameaçais os nossos filhos, e continuaremos a amar-vos. Enviais os vossos embuçados perpetradores da violência para espancar a nossa comunidade quando chega a meia-noite, e, quase mortos, amar-vos-emos ainda. Tendes, porém, a certeza de que acabareis por ser vencidos pela nossa capacidade de sofrimento. E quando um dia alcançarmos a vitória, ela não será só para nós; tanto apelaremos para a vossa consciência e para o vosso coração que vos conquistaremos também, e a nossa vitória será dupla vitória”. O amor é a força mais perdurável do mundo. Este poder criador, tão belamente exemplificado na vida de nosso Senhor Jesus Cristo, é o instrumento mais poderoso e eficaz para a paz e a segurança da humanidade. Diz-se que Napoleão Bonaparte, o grande gênio militar, recordando a sua anterior época e conquistas, teria observado: “Tanto Alexandre como César, Carlos Magno ou eu próprio, criamos grandes impérios. Mas onde se apoiaram eles? Unicamente na força. Jesus, há séculos, iniciou a construção de um império fundado no amor, e vemos hoje ainda milhões de pessoas que morrem por Ele”. Ninguém pode duvidar da veracidade dessas palavras. Os grandes chefes militares do passado desapareceram, os seus impérios ruíram e desfizeram-se em cinza; mas o império de Jesus, edificado solidamente e majestosamente nos alicerces do amor, continua a progredir. Começou por um punhado de homens dedicados que, inspirados pelo Senhor, conseguiram abalar as muralhas do Império Romano e levar o Evangelho ao mundo todo. Hoje, o reino de Cristo na terra compreende mais de um bilhão de pessoas e reúne todas as nações ou tribos. Ouvimos hoje de novo a promessa de vitória:

Jesus há de reinar enquanto o sol

fizer sua viagem cada dia;

o seu Reino irá de costa a costa

até que a lua deixe de mudar.

A que outro coro, alegremente, responde:

Não há em Cristo Leste ou Oeste,

n’Ele não há Norte nem há Sul,

mas a grande unidade do Amor

por toda a vasta terra inteira.

Jesus tem sempre razão. Os esqueletos das nações que o não quiseram ouvir enchem a História. Que neste século vinte, nós possamos escutar e seguir as suas palavras antes que seja tarde demais. Possamos nós também compreender que nunca seremos verdadeiros filhos do nosso Pai do céu sem que amemos os nossos inimigos e oremos por aqueles que nos perseguem.

Este sermão foi escrito pelo Pastor Martin Luther King, Jr., prêmio Nobel da Paz em 1964, nascido em Atlanta, Estado da Geórgia, no dia 15 de janeiro de 1929, e assassinado no dia 4 de abril de 1968, com apenas 39 anos de idade, em Memphis, no Estado de Tennessee. O autor formou-se em Teologia no Seminário Teológico de Crozer, em Chester, em 1955. Logo depois foi consagrado pastor e empossado como pastor-auxiliar da Igreja Batista da Avenida Dexter, de Montgomery, no Alabama. Depois assumiu o pastorado da Igreja Batista Ebenézer de Atlanta, sua cidade natal. O pastor King Jr. foi o maior líder dos movimentos contra a segregação racial nos Estados Unidos e seu nome figura na galeria das maiores personalidades do Século XX.

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Discrição de Deus

Deus é sempre um Pai Amoroso, isso todos sabemos, mas há uma outra “faceta” de nosso Pai que acho extremamente fascinante. A forma como Ele é discreto e soberano ao mesmo tempo. Muitas vezes nós, acostumados a ver a soberania trajada da exuberância dos grandes feitos, não conseguimos ver o discretíssimo convite que há na Obra do Senhor. Vemos as estrelas e nos encantamos. Vemos as fotos das galáxias e nos espantamos. Vemos a sincronia da Natureza e percebemos o quanto Deus é Soberano e Perfeito! Mas apesar de vermos sua soberania, raramente percebemos as discretas lições e chamados que Ele nos dá todo o tempo.

É linda a forma como Ele nos educa com lições discretas, porém firmes e inesquecíveis. Com as abelhas e as formigas, por exemplo, Ele nos ensina a importância do trabalho em equipe. Com os oásis em meio aos desertos nos ensina que, por mais longa e escaldante seja a nossa viagem, precisamos de pequenos períodos de refazimento entre trajetos longos, nos mostrando que é importante termos consciência de nossos limites e não ultrapassarmo-os nem nas viagens e trabalhos mais importantes, para que não morramos no caminho. Com a beleza artística das flores Ele nos mostra que a Arte, as cores, a harmonia das formas é tão importante quanto o fruto, que não precisamos deixar a beleza e a arte para encher a Vida dos frutos do Amor e da Caridade. Se Ele não gostasse de Arte e de beleza, não teríamos uma Natureza tão exuberantemente bela! Com os pequenos rios que enchem os imensos oceanos, Ele nos ensina que todos os trabalhos, por menores que sejam, são importantes para que o Todo exista. Nos ensina que, aos poucos, com paciência e perseverança, podemos alcançar os grandes oceanos de realizações. E poderíamos passar aqui todo o dia lembrando de lições importantíssimas que Deus nos dá de forma tão discreta e encantadora, todos os dias na Natureza que nos ronda e da qual fazemos parte!

E uma das mais belas lições que Ele nos dá é a da fé que precisamos ter em seu Amor e Sabedoria. Ele não chega para nós pessoalmente para dizer-nos imperiosamente: “Tenham fé em mim, meus filhos, pois que sou o Todo-Poderoso que à tudo governa e que tudo criou!” Penso que não há no Universo ser mais humilde e discreto do que Deus ao se dirigir à nós, suas criaturas e filhos tão amados… Ele nos fala das formas mais indiretas, discretas e humildes, para não ferir nunca nosso arbítrio e nosso direito de descobrí-Lo por nosso próprio mérito. Um dia, quando estamos cansados de achar que temos algum poder, quanto estamos cansados de achar que temos as situações em nossas mãos, que de alguma forma somos maiores que Ele, nós somos discretamente chamados a perceber a sua Soberania de uma forma mais profunda e intrínseca que a grandiosidade das estrelas e das galáxias.

Mosquitinho morador do box do meu banheiro. Foto tirada por mim usando uma Câmera Digital Samsung ES25

Nesse dia Ele nos convida, sem palavras, a ter fé em sua Perfeita Sabedoria. Aos poucos vamos olhando à nossa volta e percebendo como Ele está presente em tudo, todo o tempo, sem que déssemos conta! Nossa visão se expande, nossos olhos não vêm mais apenas com a retina, mas também com o coração. Olhamos uma flor e ela não é mais apenas uma flor, mas uma demonstração da perfeição do nosso Criador. Ou quando utilizando de nossos orgulhosos aparelhos tecnológicos conseguimos descobrir o mundo minúsculo que nos rodeia, e vemos espantados, a simetria perfeita, unida à beleza artística incomparável que há, por exemplo, nas asas de um mosquitinho que habita o box do nosso banheiro… E sentimos que aquela tecnologia toda não é nada, posto que ela em vez de nos deixar mais poderosos, só nos faz descobrir mais e mais a grandiosidade de Deus!

Pegamos uma conchinha de mar para realizarmos pesquisas, e fazendo os cálculos das proporções de suas formas, constatamos aterrados que naquela conchinha perdida na areia há uma intrincada e perfeita equação matemática. E ao pegarmos outra conchinha, e outra, e outra, e outra, vemos que em todas elas existe a mesma perfeição, provando-nos de forma incontestável que toda aquela simetria não foi obra do acaso, mas de cálculos matemáticos muito bem elaborados! E além do espanto pela perfeição da Criação, nós nos rendemos à Sabedoria óbvia que há nesse Ser que não vemos com os olhos, que não ouvimos com os ouvidos, que não tocamos com as mãos, mas que vemos, ouvimos e tocamos todo o tempo, em todo lugar, desde que saibamos transcender a matéria e buscar suas palavras, lições e chamados além dos sentidos.

E assim Deus nos convida a termos fé em sua Perfeição e Sabedoria… Nos fazendo enxergar, cada vez mais, que um Ser que é capaz de realizar tão perfeita, minuciosa, harmônica e soberana Obra, só pode merecer nossa mais irrestrita e permanente confiança… Que melhor que tentar ter a Vida e tudo sob nosso imperfeito e limitado controle, é deixarmos nas mãos Dele o controle de nossas Vidas… Não sabemos como e nem para onde Ele vai nos guiar, mas podemos ter a certeza de que, seja para onde e como for que Ele nos levará, será com as mesmas mãos amorosas com que Ele criou toda essa perfeita, harmônica e bela Obra Universal!

Quando a Dignidade é Orgulho

Quando o auto-respeito é orgulho e quando é realmente auto-respeito? Essa é uma das perguntas que sempre tive dificuldade de demarcar uma linha de separação. Não é fácil identificarmos o orgulho ferido quando muitas vezes o confundimos com a palavra “dignidade”.

Nosso orgulho é traiçoeiro e está tão misturado à nossa essência, que passamos quase todo o tempo sem percebê-lo em nossas ações, mesmo naquelas em que agimos após refletirmos e tomamos o cuidado de sermos “humildes”. Quantas, mas quantas vezes nós confundimos o orgulho com humildade e com a tão falada dignidade!

O que é ser digno? Digno é todo aquele que busca o bem de si mesmo, do próximo e da sociedade. É aquele que vive retamente como acredita ser eticamente e moralmente bom, e além disso, respeita à todos. Sobretudo o homem é digno quando, apesar de seus defeitos e suas limitações, busca sempre se esforçar e superar para ser cada vez mais digno.

Se um ser-humano é explorado por poderosos ganaciosos, para ser digno ele tem que lutar para sair dessa situação, porque ao se permitir ser explorado, ele falta com o direito ao bem-estar próprio e é conivente com o egoísmo do poderoso. Então sim, lutar para não ser explorado, para ter o direito de viver com saúde e pela saúde do próximo é lutar pela sua dignidade, constituindo com isso um dever do homem de bem.

Quando Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela e outros ativistas dos direitos-humanos lutaram, sem ferir, pela dignidade de seus representados, estavam de fato, cumprindo um dever humano perante a Justiça Social e a Dignidade do Ser-Humano. Nos deixaram exemplos belíssimos do verdadeiro auto-respeito e do respeito pelo próximo.

Nos auto-respeitamos quando não nos permitimos a indignidade, ou seja, quando lutamos pelo nosso direito à sermos pessoas de bem, seres criados para o Amor.

Mas muitas vezes, como tentativas de se auto-preservar, e pela linha que separa um conceito do outro ser ainda muito pouco clara para nós, pequenos aprendizes do Amor, nosso orgulho veste a capa da dignidade, como os lobos experientes vestem a capa das frágeis ovelhas. Pensamos que lutamos pelo nosso auto-respeito, quando apenas encontramos um meio de não sentirmos o golpe no nosso orgulho.

Na maioria das vezes confundimos a humilhação com a indignidade, como se o termômetro para medir nosso auto-respeito fosse não se permitir a humilhação. Mas se assim fosse, Jesus, nosso maior Modelo e Guia, seria então o maior dos indignos e aquele que nos legou o maior de todos os exemplos de falta ao auto-respeito. Ele, mesmo tendo todo o poder, toda a glória e o cargo de Governador do Planeta, se permitiu ser açoitado e crucificado com uma coroa de espinhos (o gesto supremo de desdém e sarcasmo à sua condição de Reis dos reis), entre dois ladrões vulgares.

Nunca houve alguém que tenha se permitido humilhar tanto, ao mesmo tempo que dava o mais comovente exemplo de dignidade, respeito e auto-respeito!

O que nosso orgulho mais teme é a humilhação, porque é através dela que Deus o tranforma em humildade. Num movimento de auto-preservação ele tenta sempre nos enganar, nos dizendo que ser digno é não se permitir o rebaixamento, reagindo para nos manter num posto “digno de nós”. E se observarmos, a linha tênue que separa um conceito do outro está justamente nesse ponto, porque de fato, a indignidade vem quando nos permitimos o rebaixamento, só que na maioria das vezes nós invertemos os nossos verdadeiros valores e trocamos o verdadeiro bem-estar pelos falsos ícones do mundo, colocamos sempre a satisfação do ego e suas conquistas ilusórias e efêmeras acima do espírito e suas conquistas reais e permanentes. É precisamente nesse ponto que nosso orgulho nos confunde, e que faz com que a humilhação seja vista por nós como a grande vilã, quando na verdade a grande vilã é nossa constante queda do posto de “filhos de Deus” para o posto de “filhos do Ego”. Nós nos rebaixamos todas as vezes que nos permitimos humilhar os outros, não quando somos humilhados, todas as vezes que praticamos um ato contrário ao bem, ao amor e à Verdade que abraçamos como ideal de boa conduta. Se Jesus, naquele dia inolvidável, tivesse humilhado os romanos e os fariseus com todo o seu poder e glória celeste, lutando, dessa forma, para manter seu justo e merecido posto de Messias, Ele teria sido indigno da mensagem que veio nos passar, teria faltado com seu auto-respeito verdadeiramente.

Nós nos auto-respeitamos todas as vezes que agimos de acordo com nossos ideais éticos e morais, todas as vezes que abrimos mão de nossas mazelas (dentre elas o orgulho) em prol de fazer o bem à nós mesmos, ao próximo e à sociedade, e se a condição para que façamos o bem é sermos humilhados, então a humilhação é um ato de dignidade, não o contrário, como nosso orgulho nos faz sentir. Nos auto-respeitamos e somos dignos, quando nos mantemos firmes aos nossos ideais de amor, bondade, fraternidade e igualdade, mesmo que para isso tenhamos que sofrer alguma limitação ou perda, mesmo a perda do corpo físico, como foi o caso do nosso Rabi e de inúmeros que seguiram seu exemplo.

Nosso Mestre, mais uma vez, é nosso melhor exemplo de dignidade e auto-respeito: mesmo sendo humilhado à posição humana mais abjeta, preservou seu direito à se manter fiel à mensagem da qual era portador até o fim, quando à exemplo do que pregou, foi verdadeiramente humilde (tendo o poder em mãos, voluntariamente aceitou a humilhação para não humilhar seus algozes), perdoou seus malfeitores no momento fatal, e sem se intimidar, continuou (e continua) mansamente seu ministério, tal qual era e é a vontade de Deus, independente do que pensem, façam ou deixem de fazer seus inimigos, aos quais nunca cansa de convidar, amar e esperar pacientemente.

Veracidade e Não-Violência

Relendo o livro “Cartas à Ashram” de Gandhi, uma frase me chamou a atenção, o que na primeira leitura não tinha acontecido: “As únicas virtudes que pretendo são a veracidade e a não-violência”.

Fiquei refletindo que uma alma tão elevada como ele, que provavelmente só reencarna em planetas como a Terra para missões coletivas, tenha pretendido para essa vida apenas duas virtudes. Todas duas dificílimas, diga-se de passagem, e que ele vivenciou à risca, nos mínimos detalhes.

Para nós, ainda afinizados com um planeta de provas e expiações, fica difícil imaginar até o que seja vivenciar essas duas virtudes em sua máxima como ele o fez. Imaginem o que seria para nós dizer sempre a verdade, em todos os detalhes. É impossível não lembrar de uma comédia americana estrelada por Jim Carey, chamada “O Mentiroso”, onde um advogado (Jim) à pedido de seu filho, não consegue dizer nenhuma mentirinha durante um dia inteiro. Como tudo ficou de pernas para o ar no dia dele! E Gandhi vivia assim, mesmo sendo advogado também, durante 24 horas, *todos os dias*.

Jamais dizia uma mentira, independente do prejuízo ou sacrifício que significasse para si próprio. Qual de nós teria tamanha força de caráter, e tamanho desprendimento do ego, para cultivar a veracidade em todos os lances da vida? Nós ainda fazemos pior. Além de contarmos uma mentirinha ou outra eventualmente, para nos resguardarmos da bronca do chefe, ou da cobrança de um cliente importante, nós também pedimos que outras pessoas mintam por nós. Pedimos sempre que alguém diga à outra pessoa que não estamos, quando estamos. Que um funcionário diga ao cliente que o trabalho está todo pronto, quando não está. Que um filho diga ao pai que acabou o dinheiro, quando não acabou. São tantas as mentirinhas que dizemos ao longo do dia, que os especialistas dizem que, em média,  um ser-humano *normal* (que não tem nenhuma patologia que o faça mentir, embora nesses casos o que conta é mais a motivação – e falta dela -, e não a quantidade) conta em torno de 200 mentiras por dia.

Imaginemos então, que quando Gandhi escolheu a veracidade como uma das duas virtudes que iria se concentrar totalmente, ele não estava fazendo pouco, e sem dúvidas estava muito à nossa frente.

E com relação à não-violência, que ele também vivia à risca, ao ponto de ter se tornado ícone e exemplo nessa virtude, ele também devia encontrar muita dificuldade de viver isso aqui na Terra, porque ele não se restringia a ser pacífico só com os seres-humanos, mas com toda a Criação, até as plantas. Se alimentava apenas de frutas, porque elas caem das árvores, e isso quer dizer que não matamos a planta e nem a prejudicamos para nos alimentarmos de fruta. Ele vivia intensamente todos os pormenores da não violência, e agia apenas depois de constatar que sua ação e até palavra, não iria violentar o que quer que fosse. Há uma parte do seu livro “A Roca e o Calmo Pensar” que ele conta de quando compraram o terreno onde foi construído seu Ashram. O local estava infestado de cobras, e ele proibiu que qualquer um, à qualquer pretexto, matasse uma só cobra. Que morressem, mas não matassem. Ele disse que todos tinham medo, inclusive ele, mas que violar o ahimsa estava fora de cogitação. E assim foi por anos, e durante todo o tempo, embora as cobras tenham continuado lá, nenhuma delas fez mal à qualquer um deles, e que no fim ele atribuíra isso à Deus, que retribuiu o respeito que eles tiveram pela vida das cobras, protegendo a vida deles.

Quem de nós consegue viver assim, se quase todos os dias nós violentamos até à nós mesmos? E mesmo quando cuidamos de nós, e  somos pacíficos uns com os outros, nós violentamos a Natureza todo o tempo. Uma vez, pensando nisso, eu cheguei a ter um pensamento tragicômico, mas que foi uma dúvida honesta que me ocorreu: “como será que Gandhi fazia se um de seus filhos pegasse piolho, por exemplo? O que não deve ser difícil num país como a Índia, que tem sérios problemas com a higiene. Será que ele deixava o menino cheio de piolhos? Mesmo que raspasse a cabeça, ele iria decretar a morte dos piolhos e das lêndias, não é?” Eu não consigo conceber uma vida num mundo como a Terra, sem que haja qualquer tipo de violência, mesmo aquelas que praticamos inconscientemente. Mas ele conseguia.

Não foi em vão que por muitos anos os ocidentais consideraram Gandhi um louco estravagante. Mas ele não era louco, ele só não era desse mundo, e aqui veio apenas para nos ajudar, mas tentando viver a vida de quem já habita esferas e mundos onde a não-violência é comum, e toda a sociedade é adaptada à viver de forma pacífica em todos os seus pormenores. Imagino o sacrifício que ele teve que empregar para viver dessa forma aqui na Terra. Mas penso também que se almas como ele nunca viessem aqui nos mostrar na prática que é possível, nós nunca sairíamos do lugar.

E pensar que nós, tão pequeninos, ainda não conseguimos praticar nenhuma virtude em todos os pormenores, e quando conseguimos avançar um pouco em uma delas, já saímos vitoriosos da vida. Para vermos como ainda estamos distantes. É nas horas que nos deparamos com essa nossa pequenez, que somos obrigados à cultivar a humildade, e orar para encontrarmos forças e robustez espiritual para prosseguirmos na nossa caminhada de auto-iluminação. Precisamos mesmo orar e vigiar muito, para avançarmos um pouco que seja nas virtudes, que ainda nos são tão difíceis de praticar.  Cada vez mais constato que a vigilância e a oração devem ser uma das nossas maiores e prioritárias preocupações. Aliás, o próprio Gandhi disse muitas vezes que só conseguia viver essas duas virtudes de forma tão intensa, porque das coisas que mais fazia na vida era orar e vigiar cada um de seus atos, palavras e especialmente pensamentos.

E nós que vivemos a vida concentrados em juntar bens, pagar contas, comprar coisas, receber pagamentos de tudo, e mais mil interesses que dizem respeito apenas à matéria ou ao ego (sim, porque muitas vezes nós cultuamos o ego muito mais que a matéria, e vivemos para satisfazê-lo, mesmo vivendo no desprendimento material), ainda temos a pretenção de dizermos que somos seres espiritualizados, só porque buscamos algum conhecimento sobre a vida espiritual. Acho mesmo que nós ainda nem conseguimos conceber o que seja viver espiritualmente num mundo como a Terra. E todos aqueles que tentaram e conseguiram, foram tidos como loucos, exagerados e visionários por muitos de nós. Mas se Deus permite que eles reencarnem para nos ensinar, é porque já temos condições, e falta-nos apenas a coragem e a determinação de nos despojarmos do nosso egoísmo, orgulho e falsa noção de necessidade da matéria para sermos felizes. A matéria é nossa ferramenta de progresso, não o motivo dele. E nós passamos a vida toda tendo os bens e o conforto material como motivo de luta, para no fim não levarmos daqui nem mesmo o nosso corpo.

Renúncia e Paciência

Em muitos momentos é difícil para nós termos o exato momento em que a resignação é a única estrada possível, sobretudo quando o que está em jogo são nossos maiores tesouros, pelos quais jamais temos limites para a luta. É com esse sentimento de luta incansável e obstinação ilimitada que muitos doentes terminais lutam pela vida até seu último segundo na Terra, ou que mães lutam pela vida de seus filhos ao ponto de darem suas próprias vidas quando nenhum outro recurso existe.

Para aqueles que amam não há impedimentos que se lhes afigure fortes o suficientes para lhe serem motivos de resignação. Enquanto houver como lutar, luta-se, e isso é inegociável. Enquanto houver meios, usa-se, e quando não mais houver, encontra-se novos. Desistir da luta? Nunca. O sentimento de impotência lhes é a mais penosa e desesperadora provação, e para vencê-la um coração que ama é capaz de absolutamente tudo que seja ético, e em alguns casos, renuncia-se até da ética e das mais profundas convicções, afim de amparar e ajudar os seres mais amados. Uma mãe que mente descaradamente para conseguir, por exemplo, um exame importante para o filho. Uma esposa que paga propina para um político para conseguir uma cirurgia urgente para seu esposo, ou até uma pessoa que se humilha entrando de ônibus em ônibus afim de pedir dinheiro para alimentar e medicar os filhos. Não há limites para a renúncia, nem mesmo a renúncia da própria dignidade e moral. Muitas prostitutas estão precisamente nessa condição, enfrentando renúncias que muito poucas mulheres suportariam, para que consigam ao fim da noite, levar o suficiente para nada faltar à seus filhos.

Deus vê tudo isso. Vê sob óticas que à nós é vedada. Vê a profundeza do coração de cada um de nós, e o quanto de amor estamos colocando em cada um dos nossos gestos, mesmo os mais errados e reprochados pela sociedade. Vê a nossa nudez espiritual muito mais do nós próprios somos capazes, porque não raras vezes nos escondemos atrás de mil artifícios para nos protegermos da dor. É assim que Deus nos vê: pelo quanto de amor estão impregnadas nossas atitudes, pensamentos e intensões.

Nos momentos da luta que somos chamados à renunciar, não há limites para a renúncia. Mas nos momentos que somos chamados à nos resignar, é quando mais necessitamos de forças para lutar. Não a luta que estávamos acostumados. Não aquela luta que damos tudo que temos, cada um dos vinténs que possuímos, todo o sangue e suor até a última gota. Mas uma luta infinitamente mais difícil para quem ama: a espera. Para essa luta não precisamos renunciar ou nos permitir a destruição se for necessário. Precisamos apenas de paciência. A mesma obstinação ilimitada para a paciência que tínhamos para a renúncia.

A paciência que permite à um cientista passar anos a fio numa mesma experiência para encontrar a cura de uma doença que assola os humanos. A paciência que permite à uma mãe passar anos e anos cuidando carinhosamente do filho que vive em coma num hospital. A paciência que permite que uma esposa espiritual passe séculos e até milênios esperando seu companheiro que vive ainda em zonas inferiores da Vida.

Acredito que muito do progresso que vemos hoje no mundo ocorreu graças à obstinação do homem em lutar contra as adversidades, independente delas terem início em nós ou nos desígnos divinos. E em todas as lutas pelo progresso, pelos nossos amores, pela própria humanidade, e sobretudo pelo nosso próprio progresso íntimo, nós precisamos ser obstinadamente firmes e ilimitados nessas duas virtudes: renúncia e paciência. Ora uma, ora outra, mas sempre as duas.

Não há como progredirmos sem renunciarmos à nós mesmos enquanto ego, sem renunciarmos à prazeres materiais, ou à muitas das coisas que julgamos importantes quando vemos pela visão temporal e limitada, de seres imperfeitos que somos. Da mesma forma que não há como progredirmos sem paciência. Paciência para errar e recomeçar incansavelmente. Paciência com os erros alheios. Paciência com os próprios desígnos de Deus, que muitas vezes não pode atender nossos pedidos, anseios e desejos imediatamente. Paciência com o tempo das pessoas, com o tempo da coletividade, que avança lenta, mas indubitavelmente. Paciência com as diversas formas de pensar, de perceber e de viver das outras pessoas. Paciência para esperar o tempo de Deus, mesmo quando temos que renunciar a nossa desesperadora pressa pelo nosso tempo. Como disse-me um amigo espiritual muito querido: “Nós temos o nosso tempo, mas só o tempo de Deus é o da sabedoria”.

E das coisas mais díficeis para os corações que amam é terem paciência para esperar, renunciando ao tempo de lutar, até que o tempo de Deus se cumpra…

Meu Mantra

Há um tempo atrás eu comecei a ouvir mantras mais constantemente, e não encontrava “aquele” que fazia minha alma realmente se conectar com Deus, até que encontrei um cantado por Deva Premal, contido no CD Embrace, chamado “Om Namo Bhagavate”. Quando o ouvi pela primeira vez, foi como um encontro. Minha alma inteira sentiu-se plena, e comecei a chorar de tão intenso que foi para mim o sentimento de união com Deus. Eu leio sempre sobre o poder dos mantras, especialmente nos livros de Gandhi que era um defensor ferrenho da eficácia do Ramanama como método de cura e autopurificação. Dizia ele que quando uma palavra é repetida muitas vezes por muitas pessoas, ela se torna poderosíssima. E ele dizia que o nome de Deus (Rama), repetido muitas vezes com devoção sincera, independente da religião (Rama, Alá, Deus, Buda, etc) poderia efetuar curas magníficas. Ele tinha uma convicção absoluta sobre isso, e muitas experiências para comprovar sua fé total no Ramanama. Quem leu alguma coisa de Gandhi (eu já li 3 de seus livros) sabe que ele tinha uma mente bastante racional e ao mesmo tempo incrivelmente mística. Ouso dizer que ele era um adepto bastante fervoroso da fé que os espíritas chamam de “fé raciocinada”. Ele tinha um equilibro perfeito entre a razão e a fé, e isso se mostra também na questão da eficácia do Ramanama como um dos principais métodos de cura natural. Enfim, só sei que eu entendi no coração tudo que li ele escrever sobre o Ramanama quando ouvi esse mantra. Se eu passo o dia inteiro com esse mantra na cabeça, recitando-o todo o tempo, eu passo o dia na mais completa paz. Esse é o “meu” mantra.

No site do IPPB tem uma breve explicação sobre o significado desse mantra. Mais perfeito pra mim impossível, com a diferença de que sou mais tocada por Jesus do que por Krishna, mas em essência é o mesmo porque Jesus também viveu entre nós e sabe de cada uma de nossas dificuldades enquanto seres ainda tão humanos.

OM NAMO BHAGAVATE VASUDEVAYA (do sânscrito): é um dos mantras de evocação de Krishna. OM é a vibração interdimensional que interpenetra a tudo e a todos.
NAMO: Saudação ou reverência ao poder divino.
BHAGAVATE: Respeito ao Senhor.
VASUDEVAYA: Vasudeva é o nome da família carnal que criou Krishna. O Ya acrescentado no final significa a característica ativa (masculina) do mantra. Quando alguém faz esse mantra completo, evoca Krishna como homem que também viveu aqui na Terra e sabe das dificuldades enfrentadas por todos.

União com Deus

Hoje penso que não há outra Lei de Justiça além da Lei do Amor. A única que reje o destino das almas e dos mundos. E o quanto ela vai demorar para nos alcançar, depende apenas de nós e de Deus que coloca em nossos destinos as ocasiões que nos despertarão o amor, mas ainda assim nós podemos recusar, então no fim continua dependendo de nós. O resto é o caos gerado pelo nosso livre-arbítrio, religiosamente respeitado por Deus. Não consigo mais ver justiça tal qual a entendemos, como mérito ou demérito. Vejo apenas aprendizado e misericórdia, mas ainda isso depende de nós. E o tempo da misericórdia? Só Deus o sabe. Um dia ela chega, inevitavelmente, mas só Ele sabe pelo que teremos que passar até que estejamos prontos para a receber.

A maldade – ou ignorância – existe, atua, escolhe e tem liberdade. Nós, que já aceitamos Deus dentro de nós, conforme nosso grau de amor e possibilidades, atuamos para amenizar-lhes os efeitos, mas acabar com ela depende dos envolvidos estarem ou não em sintonia com a Lei de Amor. Não importa as possibilidades ou nível de compreensão, se somos crianças ou adultos na arte da Vida e do Amor, importa apenas que nunca deixemos de olhar para o amor.

Acreditar no amor e ser fiel à ele é nossa única proteção contra a maldade, se vivemos no meio dela. Olhar sempre para o amor, nunca para as imperfeições que ainda o maculam nas almas, é nossa garantia de imunidade à maldade – e aqui não digo de não sermos atingidos por ela, mas de não nos tornarmos parte dela, em maior ou menor grau. E a única garantia da Vida é que no fim o amor sempre vencerá, haja o que houver. Não há garantia de tempo, de forma, de meios, apenas do fim. Sobre o tempo, a forma, o meio e demais processos, só Deus sabe. Podemos ter probabilidades e planejamentos, mas nunca garantias além do que é Lei: A Harmonia do Amor sempre é o fim de todo caos.

E aprender sobre isso dói, porque somos homens, e como homens pensamos e erigimos nossas Verdades. Quando a ineroxabilidade da Vida destrói nossas Verdades para nos mostrar que a única Verdade é o Amor, nos sentimos perdidos, desamparados e injustiçados. Precisamos de tempo para nos adaptarmos à viver sem o orgulho de termos a Verdade nas mãos, uma Verdade construída por nossas necessidades e possibilidades. Não a temos. Nunca a teremos nas mãos. Só o que podemos ter é a opção de viver essa Verdade e sempre optar por ela, cada vez um pouco mais, até que ela seja nossa própria verdade. Mas só há um ser que a tem nas mãos, e à Ele todos nós estamos submetidos, e nos entregar à Ele verdadeiramente exige muito de nós, saídos do lamaçal do caos e do sofrimento, pequenos aspirantes da Ventura do Amor e da Plenitude.

As feridas da maldade doem, a cura dói, e depois de tanta dor, como não sentir medo? Com Ele sempre estaremos seguros de estarmos caminhando para o equilíbrio, mas quanta dor mais teremos que enfrentar até chegarmos à Ele? Como não temer caminhar de mãos dadas com o Que, não obstante seja todo Amor, permite o sofrimento e a maldade, quando tudo que desejamos é a inocência da felicidade de amar e ser amado, sem desejar mal à ninguém?

Se Ele permite tais coisas como meio de aprendizado, então como acreditar que conhecer o amor, desejar amar e caminhar no amor é garantia de ser feliz? Como ter certeza de alguma felicidade por desejá-la, se acima de nosso desejo por amor e felicidade está nossa necessidade de aprender sobre as coisas da Vida e evoluir nas diversas escolas de Virtudes? Quanto mais nos vemos pequenos diantes de Deus, quanto mais reconhecemos nossa condição de tão, tão pequenos aprendizes, mais vemos que à nossa frente há apenas o desconhecido. O desconhecido que está nas mãos de apenas um Ser, que é incógnita para almas como nós. Confiar no Amor Dele? Sempre, indubitavelmente. Mas como confiar que nosso entendimento de necessidade é o mesmo que o Dele? Nós não podemos lhe sondar os desígnos, mas Ele pode nos sondar toda a imortalidade. Nós não podemos ver de onde Ele vê e nem saber o que só Ele sabe. Então como podemos nos guiar às escuras?

*Pausa para reflexão e prece*.  Talvez a resposta esteja no fato de que Deus atua através de nós, e quando o buscamos, quando entramos em comunhão com Ele, quando oramos e elevamos a alma à Ele com o amor que há em nós e o desejo de servir, nós sentimos a vontade Dele e um impulso irresistível, que nasce do amor. Continuamos sem saber o que Ele sabe e ver de onde Ele vê, mas sentimos no próprio coração, em forma de amor, a vontade Dele, e assim Ele se serve de nós como seus instrumentos, e assim, formamos com Ele uma imensa teia de amor à atuarmos, todos juntos, pela harmonia do Universo. Ele não está em algum lugar, vendo-nos agindo e apenas respeitando nossas escolhas. Ele está dentro de nós, guiando nossas ações amorosas, como o Pai guia seus filhos para o caminho que lhe trará mais crescimento. Ele está no coração da mãe, que sabe exatamente o que seu filho precisa quando chora desta ou daquela forma. Ele está no instinto de todos os animais, que os faz se harmonizarem tão perfeitamente. Ele está na união dos átomos, que os faz se ligarem em formas tão perfeitas. Ele está no amor dos seus filhos, quando esses O buscam e se deixam serem guiados por Ele. Está no amor dos anjos e nos anseios mais sagrados e santos que o amor de nossas almas faz brotar de nossos seres.

Deus está em nós e não em qualquer lugar, distante de nós, nos dando liberdade para fazer tudo por nossa conta, enquanto suas Leis arrumam nossa bagunça. Ele está conosco, dentro de cada um de nós, esperando a hora que escolheremos e Lhe permitiremos viver também através de nós. Nisso consiste o respeito Dele à nosso arbítrio. Ele nunca nos constrange à Lhe aceitar vivo através de nós. No nosso momento, quando permitirmos e ansiarmos, Ele nos acolhe nos braços e não podemos mais olhar para trás. Podemos até tentar, por medo, mas chega um momento que sua força é irresistível. Há quem resista à Ele por muitas eras, mas um dia, por misericórdia, Ele reune a ocasião de mostrar toda sua força e “nos conquistar”, porque resistir à Ele estava nos fazendo mal demais, e Ele quer nossa felicidade, acima de tudo.

Não nos constrange, nos conquista. Podemos, ainda assim resistir, e Ele respeitará e continuará esperando para viver por nós. Nesse caso sofreremos, não por punição, mas porque é resistir à Ele que dói tanto e tanto, e trás tantas feridas e marcas. Temê-Lo, tentar destruí-lo dentro de nós, fugir Dele, escondê-Lo para fingir que Ele não existe em nós, tudo isso que nos destrói, que nos corrói, que nos estraçalha pouco a pouco. E a única cura para todo esse mal é aceitá-Lo, é deixar que Ele viva por nós, é libertá-Lo das prisões que construímos para Ele à fim de que sua força e seu poder nos cure, alivie e nos dê a tão necessária paz. A única forma de não sofrermos com revolta e dor as consequências de nossas escolhas equivocadas, geradas pela ignorância e resistência à Deus, é permitindo que Ele, enfim, viva por nós. E é dessa união perene com Ele que encontramos a tão desejada felicidade, e com Ele, mesmo sofrendo, rendemos graças. Estar com Ele é nossa garantia de felicidade, porque Ser Feliz é viver com e para Deus.

Só Ele pode nos guiar para a cura da nossa loucura. E deixar que Deus viva através de nós é amar. Amar perdidamente, intensa e plenamente. Amar à todos, à tudo, deixar que o amor nos invada, nos consuma, nos envolva e estravaze de nós, e então Deus se mostrará e guiará os nossos passos, vivendo através de nós, por nós e por nossos amores. E Deus nunca erra. Tudo sabe e tudo pode. Nada lhe é impossível.